{"id":1034,"date":"2019-07-29T19:34:34","date_gmt":"2019-07-29T19:34:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1034"},"modified":"2019-07-29T19:34:34","modified_gmt":"2019-07-29T19:34:34","slug":"entrevista-especial-roberto-kant-de-lima-politica-de-justica-criminal-atingiu-mais-os-desiguais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1034","title":{"rendered":"ENTREVISTA ESPECIAL &#8211; ROBERTO KANT DE\u00a0LIMA &#8211; Pol\u00edtica de justi\u00e7a criminal atingiu mais os desiguais"},"content":{"rendered":"<p>O site do INCT\/INEAC reproduz aqui a entrevista dada pelo antrop\u00f3logo Roberto Kant de Lima \u00e0 revista POL\u00cdTICA DEMOCR\u00c1TICA, no site da Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira &#8211;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fundacaoastrojildo.com.br\/2015\/2019\/07\/29\/autores-revista-politica-democratica-edicao-9\/\">http:\/\/www.fundacaoastrojildo.com.br\/2015\/2019\/07\/29\/autores-revista-politica-democratica-edicao-9\/<\/a>\u00a0e conduzida pelo antrop\u00f3logo Lu\u00eds Roberto Cardoso de Oliveira e\u00a0\u00a0o advogado Renato Gallupo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pol\u00edtica de justi\u00e7a criminal atingiu mais os desiguais, diz Roberto Kant.<\/p>\n<p>Medidas como a mudan\u00e7a proposta pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a aquisi\u00e7\u00e3o e o porte de armas, entre outras, beneficia \u201ccriminosos profissionais\u201d em detrimento do cidad\u00e3o comum, critica Roberto Kant de Lima.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0\u201cA partir da Lava Jato, o protagonismo da tutela saltou para o juiz, que, articulado com as outras corpora\u00e7\u00f5es, retoma a mesma ideia de se tornar agente p\u00fablico com visibilidade\u201d O antrop\u00f3logo Roberto Kant de Lima, coordenador do N\u00facleo de Ensino, Pesquisa e Extens\u00e3o em Administra\u00e7\u00e3o Institucional de Conflitos (NEPEAC\/PROPPI\/UFF), e membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancia (ABC) \u2013 que h\u00e1 cerca de 20 anos faz pesquisa de campo em institui\u00e7\u00f5es judici\u00e1rias e policiais do Brasil e dos Estados Unidos \u2013 \u00e9 o entrevistado especial da oitava edi\u00e7\u00e3o da Revista Pol\u00edtica Democr\u00e1tica Online, publica\u00e7\u00e3o mensal editada pela Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira (FAP), vinculada ao Cidadania (23). Kant, que tamb\u00e9m \u00e9 professor titular aposentado do Departamento de Antropologia e professor aposentado adjunto do Departamento de Seguran\u00e7a P\u00fablica da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, \u00e9 um cr\u00edtico ferrenho da mudan\u00e7a proposta pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a aquisi\u00e7\u00e3o e porte de armas no Brasil. Ele cita como exemplo, a situa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, onde a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 vive em um verdadeiro \u201cfaroeste\u201d. \u201cVivemos um problema para cuja solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tomaram as devidas provid\u00eancias. S\u00e3o as mil\u00edcias, mistura de operadores institucionais, da pol\u00edcia, e pessoas que j\u00e1 sa\u00edram ou foram expulsas da pol\u00edcia. A legisla\u00e7\u00e3o vai, em minha opini\u00e3o, legalizar esse faroeste, permitir que as pessoas tenham mais armas e muni\u00e7\u00e3o em casa, legalmente\u201d, critica. Para ele, o decreto que est\u00e1 no Congresso vai fortalecer a ideia de um poder n\u00e3o institucional. \u201cTrata-se, no fundo, de legalizar uma situa\u00e7\u00e3o que, pelas leis atuais, ainda \u00e9 considerada de compet\u00eancia federal. E portanto, ainda sujeita a certos controles, como considerar ilegal a posse e o porte de arma sem licen\u00e7a. Isso poder\u00e1 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel no futuro. E quem tem mais interesse nisso n\u00e3o s\u00e3o os \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, mas criminosos profissionais, completa. Sobre temas como o papel do Judici\u00e1rio, a Lava Jato e as den\u00fancias da Vaza Jato, Roberto Kant avalia que \u201cn\u00e3o tem sido f\u00e1cil se conceber, juridicamente, no Brasil, a vis\u00e3o republicana da igualdade perante a lei, e do Judici\u00e1rio como garantidor desses direitos ditos civis\u201d. De acordo com o antrop\u00f3logo, \u201cnossa independ\u00eancia encontrou um pa\u00eds imperial, de brasileiros nobres e plebeus e imenso contingente de escravos, que n\u00e3o eram plenos sujeitos de direito, juridicamente chamados \u201csemoventes\u201d. \u201cTodos se consideram como operadores de justi\u00e7a. Quer dizer, cada um acha que est\u00e1 fazendo justi\u00e7a, embora, muitas vezes, operando contraditoriamente. Mas, do seu ponto de vista, seja hier\u00e1rquico ou igualit\u00e1rio, a justi\u00e7a est\u00e1 sendo feita. E essa falta de di\u00e1logo, articula\u00e7\u00e3o e de consenso \u00e9 que \u00e9 o problema\u201d, completa.<\/p>\n<p>Confira, a seguir, trechos da entrevista do antrop\u00f3logo Roberto Kant \u00e0 Revista Pol\u00edtica Democr\u00e1tica Online. Revista Democr\u00e1tica Online<\/p>\n<p>(RD) \u2013 A legisla\u00e7\u00e3o ora sob exame no Congresso sobre a aquisi\u00e7\u00e3o e o porte de armas dever\u00e1 fortalecer a seguran\u00e7a p\u00fablica ou, ao contr\u00e1rio, promover o faroeste no Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>Roberto Kant (RK) \u2013 O Rio n\u00e3o vai se transformar num faroeste; j\u00e1 \u00e9. Vivemos um problema para cuja solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se tomaram as devidas provid\u00eancias. S\u00e3o as mil\u00edcias, mistura de operadores institucionais, da pol\u00edcia e pessoas que j\u00e1 sa\u00edram ou foram expulsas da pol\u00edcia. A legisla\u00e7\u00e3o vai, em minha opini\u00e3o, legalizar esse faroeste, permitir que as pessoas tenham mais armas e muni\u00e7\u00e3o em casa, legalmente. Vai fortalecer a ideia de um poder n\u00e3o institucional. Trata-se, no fundo, de legalizar uma situa\u00e7\u00e3o que, pelas leis atuais, ainda \u00e9 considerada de compet\u00eancia federal. E, portanto, ainda sujeita a certos controles, como considerar ilegal a posse e o porte de arma sem licen\u00e7a. Isso poder\u00e1 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel no futuro. E quem tem mais interesse nisso n\u00e3o s\u00e3o os \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d, mas criminosos profissionais.<\/p>\n<p>RD: O embate pol\u00edtico e ideol\u00f3gico travado pela internet parece ter transposto para o plano do Judici\u00e1rio posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas extremadas. Como o sr. v\u00ea essa conjun\u00e7\u00e3o entre justi\u00e7a e pol\u00edtica?<\/p>\n<p>RK: Em 2016, publiquei com Glaucia Mouzinho um artigo na Revista Dilemas, de an\u00e1lise desse fen\u00f4meno, desde a pris\u00e3o coercitiva de Lula.\u00a0<\/p>\n<p>Historicamente, desde o Imp\u00e9rio, a popula\u00e7\u00e3o brasileira tem estado dividida em status jur\u00eddicos desiguais. Nobres, plebeus e semoventes \u2013 esses \u00faltimos, os escravos, equiparados aos animais dom\u00e9sticos ou domesticados \u2013 estavam todos sujeitos ao processo penal, embora de maneira desigual. A pol\u00edtica de justi\u00e7a criminal atingiu mais os segmentos desfavorecidos da popula\u00e7\u00e3o. Basta lembrar que a maior parte das pessoas presas \u2013 muitas sem senten\u00e7a definitiva \u2013 \u00e9 de pequenos usu\u00e1rios de drogas que s\u00e3o encarcerados como se fossem traficantes. A pol\u00edcia, com essas pris\u00f5es, a maioria em flagrante e, portanto, sem trabalho investigativo da Pol\u00edcia Civil, tenta mostrar trabalho a servi\u00e7o da sociedade, mantendo a ordem; s\u00f3 que os capitalistas do crime e os grandes corruptores seguem intoc\u00e1veis. A partir do \u201cMensal\u00e3o\u201d, houve uma primeira tentativa de estender o poder de puni\u00e7\u00e3o \u00e0s classes mais favorecidas. Mediante um trabalho herc\u00faleo, o ministro Joaquim \u201c Barbosa deixou claro ser poss\u00edvel tratar de puni\u00e7\u00e3o no n\u00edvel do Supremo Tribunal Federal como inst\u00e2ncia de instru\u00e7\u00e3o do processo. O desafio era fazer frente ao grande problema da prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o, privil\u00e9gio no qual se confunde o funcionamento da instru\u00e7\u00e3o judicial na primeira inst\u00e2ncia \u2013 interrogat\u00f3rio de r\u00e9us e testemunhas, per\u00edcias etc. \u2013 com o exame de recursos da segunda inst\u00e2ncia e de inst\u00e2ncias superiores. A Lava Jato \u00e9, em grande medida, questionada por conta dos defeitos constantes de inqu\u00e9ritos policiais, que permitem muitas vezes anula\u00e7\u00f5es e prescri\u00e7\u00f5es de processos criminais. A lerdeza do andamento ordin\u00e1rio dos processos, da primeira inst\u00e2ncia \u00e0s inst\u00e2ncias superiores, tamb\u00e9m abre a possibilidade de interfer\u00eancias seguidas nos processos, at\u00e9 sua conclus\u00e3o pela autoridade do juiz\/ju\u00edzes. O processo penal desconfia do acordo entre as partes, e diz a doutrina que mesmo que as partes estejam de acordo, o juiz pode continuar pesquisando, para descobrir a verdade real. Esses processos envolvem corpora\u00e7\u00f5es \u2013 Pol\u00edcia Federal, Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, a Magistratura Federal, a Defensoria P\u00fablica Federal e a Advocacia \u2013 que n\u00e3o atuam, em geral, em conson\u00e2ncia, mas competem por prioridades na execu\u00e7\u00e3o de seus trabalhos. Por exemplo, aqui no Rio, a Opera\u00e7\u00e3o Lava a Jato \u00e9 desenvolvida pela Justi\u00e7a Federal: n\u00e3o incorpora Pol\u00edcia Federal porque cuida do combate a drogas. Quanto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do juiz, tem-se de registrar que ele precisa autorizar as dilig\u00eancias solicitadas pela Pol\u00edcia Federal e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Tem de inteirar-se das justificativas da investiga\u00e7\u00e3o proposta. Da\u00ed ser inevit\u00e1vel que o juiz se envolva no processo investigativo, arranhando a tradi\u00e7\u00e3o brasileira, segundo a qual o juiz deve se manter imparcial e equidistante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s partes. As cr\u00edticas n\u00e3o levam em conta que, desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, nada mudou na pr\u00e1tica. O processo penal \u00e9 uma \u201cci\u00eancia\u201d do direito processual, que n\u00e3o se comunica automaticamente com a \u201cci\u00eancia\u201d do direito constitucional. Isso cria uma ambiguidade, sob a qual se trabalha o tempo todo aqui no Brasil, especialmente no direito processual penal, que tanto pode ser acusat\u00f3rio e presumir a inoc\u00eancia, quanto se desenvolver, desde o inqu\u00e9rito policial inquisitorial, de maneira a presumir a culpa do acusado. Ora evocam-se a Constitui\u00e7\u00e3o e seus direitos fundamentais para defender as pessoas, ora esses direitos constitucionais n\u00e3o t\u00eam a oportunidade de serem evocados e\/ou aplicados. A poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o entre esses direitos fundamentais e as pr\u00e1ticas processuais ordin\u00e1rias n\u00e3o \u00e9 exclusiva do processo penal. O professor Roberto da Matta escreveu h\u00e1 40 anos artigo seminal, intitulado \u201cVoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?\u201d, em que indicava sermos uma sociedade com representa\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias da lei, a ser aplicada universal e uniformemente aos indiv\u00edduos, e termos tamb\u00e9m uma representa\u00e7\u00e3o da sociedade extremamente hierarquizada, que se espelha nos privil\u00e9gios processuais que est\u00e3o a\u00ed desde sempre. Para citar apenas um exemplo, entre v\u00e1rios, destaca-se a prerrogativa de fun\u00e7\u00e3o, de pessoas que est\u00e3o pr\u00f3ximas do Estado e, por isso, t\u00eam direito ao processo ser iniciado pelas inst\u00e2ncias superiores. Estima-se em 42 mil o total de pessoas nessa situa\u00e7\u00e3o. Ou seja, as pessoas s\u00e3o tratadas processualmente n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do delito que s\u00e3o acusadas de cometer, mas de acordo com seus status social. V\u00e1rias tentativas j\u00e1 foram feitas para rever essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>RD: A despeito do questionamento pelo ministro S\u00e9rgio Moro da autenticidade dos fatos revelados pela Vaza Jato, qual \u00e9, a seu ver, a implica\u00e7\u00e3o disso para a justi\u00e7a, no paradigma do Estado Democr\u00e1tico de lei, institu\u00eddo pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988?<\/p>\n<p>RK: A primeira consequ\u00eancia \u00e9 revelar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o como funciona o processo penal. A Constitui\u00e7\u00e3o mudou os par\u00e2metros que estavam estabelecidos at\u00e9 ent\u00e3o, sobretudo com rela\u00e7\u00e3o ao devido processo legal, da igualdade entre as partes do processo. A Constitui\u00e7\u00e3o faz parte da ci\u00eancia do direito constitucional, e o processo \u00e9 definido pela ci\u00eancia do processo penal que permanece meio inquisitorial, meio acusatorial. Essas duas \u201cci\u00eancias\u201d nem sempre conversam, a n\u00e3o ser quando \u00e9 conveniente e poss\u00edvel a \u201cconversa\u201d ser levada ao Supremo Tribunal Federal. Se permanecer nas inst\u00e2ncias inferiores, depende do juiz, que poder\u00e1 se guiar pelo texto da Constitui\u00e7\u00e3o ou pelos termos do processo. N\u00e3o se substituiu o C\u00f3digo de 1941, est\u00e1-se tentando desde h\u00e1 muito fazer um novo C\u00f3digo de Processo, e essa ambiguidade n\u00e3o deixou que esse c\u00f3digo tivesse nova vers\u00e3o de 1988 para c\u00e1. Est\u00e1 mais do\u00a0que na hora de uma discuss\u00e3o aprofundada a respeito.<\/p>\n<p>RD: O sr. quer dizer que, aparentemente, os \u00faltimos acontecimentos da Lava Jato nada mais fizeram do que desnudar uma situa\u00e7\u00e3o de ambiguidade estrutural, presente de longa data. Esse desnudamento tem ocasionado situa\u00e7\u00e3o de mal-estar na sociedade, fonte de demanda por mudan\u00e7as. Mas nem sempre as mudan\u00e7as s\u00e3o virtuosas; prop\u00f5e-se, por exemplo, o fechamento do STF. Haveria alguma sa\u00edda virtuosa dentro do Estado Democr\u00e1tico de direito para essa situa\u00e7\u00e3o de ambiguidade que os vazamentos da Lava Jato est\u00e3o, digamos assim, mostrando.<\/p>\n<p>RK: Da Matta se op\u00f4s (1979) \u00e0s teorias ent\u00e3o majorit\u00e1rias, de que o Brasil estava inexoravelmente se modernizando, se industrializando, se urbanizando. E que, portanto, o conflito de classes iria surgir e orientar nosso futuro para longe do que se chamava \u2013 e ainda se denomina pejorativamente \u2013 de clientelismo, patronagem, etc. Era uma aplica\u00e7\u00e3o original das teorias do franc\u00eas Louis Dumont, para quem a sociedade brasileira se representava como amb\u00edgua, porque ora os segmentos sociais eram desiguais e complementares \u2013 vivendo em harmonia em uma hierarquia hol\u00edstica \u2013 ora era um conjunto de indiv\u00edduos iguais que se opunha, orientado por princ\u00edpios igualit\u00e1rios e individualistas. Essa ambiguidade estrutural da sociedade tamb\u00e9m se estende para nossa cultura jur\u00eddica, especialmente nesta discuss\u00e3o jur\u00eddico-processual. O papel do cientista social, no caso, o meu e o de meus colegas pesquisadores no Instituto de Estudos Comparados de Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos, \u00e9 lidar com essas quest\u00f5es de maneira transparente. O mundo jur\u00eddico constr\u00f3i seu saber com fundamento na l\u00f3gica do contradit\u00f3rio, regida pelo argumento da autoridade, ambiente em que uns estar\u00e3o de um lado, e outros, de outro. Em caso de disc\u00f3rdia, caber\u00e1 ao tribunal resolver o problema. S\u00f3 que ele o faz individualmente. Mas n\u00e3o se trata de um problema individual. N\u00e3o \u00e9 um problema do Lula, n\u00e3o \u00e9 um problema das pessoas, \u00e9 um problema estrutural da lei processual e de suas pr\u00e1ticas naturalizadas. Para mudar isso, as for\u00e7as sociais, os movimentos sociais etc., inclusive os juristas interessados \u00e9 que tem que se mobilizar.<\/p>\n<p>RD: Com base em suas pesquisas, como o sr. v\u00ea a repercuss\u00e3o nas \u00e1reas do Judici\u00e1rio e da seguran\u00e7a p\u00fablica, desses aspectos relacionados \u00e0s liberdades?<\/p>\n<p>RK: Meu colega Lu\u00eds Roberto Cardoso de Oliveira tem um trabalho interessante e original sobra a mat\u00e9ria. Fala da conviv\u00eancia de duas ideias de igualdade no Brasil: a igualdade jur\u00eddica dos semelhantes a n\u00f3s, que vale para aqueles que s\u00e3o iguais a n\u00f3s, e, portanto, os \u201cdiferentes\u201d s\u00e3o desiguais e n\u00e3o devem ter os mesmos direitos, ideia de igualdade do antigo regime; e outra ideia republicana, da igualdade em direitos dos diferentes. Uma representa\u00e7\u00e3o de igualdade v\u00ea a outra como sendo injusta e desigual. Rui Barbosa defendia que a \u201cregra da igualdade \u00e9 aquinhoar desigualmente os desiguais na medida em que se desigualam\u201d (1920). Considerava essa representa\u00e7\u00e3o da igualdade como uma desiguala\u00e7\u00e3o proposta pelo direito, que se op\u00f5e \u00e0 desiguala\u00e7\u00e3o produzida pelo mercado. Mas, nas revolu\u00e7\u00f5es burguesas, instituiu-se outro paradigma: a ideia de que o direito tem de igualar formalmente os diferentes indiv\u00edduos com os mesmos direitos, diante da inevit\u00e1vel desiguala\u00e7\u00e3o operada pelo mercado. N\u00e3o tem sido f\u00e1cil se conceber, juridicamente, no Brasil, a vis\u00e3o republicana da igualdade\u00a0perante a lei, e do Judici\u00e1rio como garantidor desses direitos ditos civis. Nossa independ\u00eancia encontrou um pa\u00eds imperial, de brasileiros nobres e plebeus, e imenso contingente de escravos, que n\u00e3o eram plenos sujeitos de direito, juridicamente chamados \u201csemoventes\u201d. Todos se consideram como operadores de justi\u00e7a. Quer dizer, cada um acha que est\u00e1 fazendo justi\u00e7a, embora, muitas vezes, operando contraditoriamente. Mas, do seu ponto de vista, seja hier\u00e1rquico ou igualit\u00e1rio, a justi\u00e7a est\u00e1 sendo feita. E essa falta de di\u00e1logo, articula\u00e7\u00e3o e de consenso \u00e9 que \u00e9 o problema. N\u00e3o \u00e9 o direito que desiguala, \u00e9 o mercado, todo mundo vai se desigualar de acordo com sua participa\u00e7\u00e3o no mercado. No nosso caso, o direito desiguala antes do mercado e, por isso, favorece cart\u00e9is e monop\u00f3lios, e o mercado tem de pedir licen\u00e7a a ele para exercer seu poder desigualador.<\/p>\n<p>RD: Como o sr .v\u00ea o papel pol\u00edtico exercido por membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico? H\u00e1 exorbit\u00e2ncia no papel que desempenham?<\/p>\n<p>RK: Estudos recentes revelam que os membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico procuram um protagonismo, registrado na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que se define em deixarem de ser meros acusadores e passarem a ser tamb\u00e9m \u201cfiscais da lei\u201d. Nessa passagem, o Minist\u00e9rio P\u00fablico se erige com um tutor da sociedade brasileira, podendo intervir e atuar em defesa daquilo que a sociedade ou mesmo grupos e indiv\u00edduos n\u00e3o se importam em atuar. Esses agentes p\u00fablicos desejam explicitamente tutelar a sociedade brasileira. Trata-se de uma tutela que representa apenas mais uma aplica\u00e7\u00e3o da regra da igualdade e do sentido de justi\u00e7a que, como j\u00e1 disse, \u00e9 amb\u00edguo no Brasil. E com isso, eles passam a rivalizar com a Magistratura, que seria meramente reativa e n\u00e3o teria protagonismo. At\u00e9 o Mensal\u00e3o, at\u00e9 a Lava Jato \u2013 lembrando que o ministro Joaquim Barbosa era do Minist\u00e9rio P\u00fablico, do Rio \u2013, esse protagonismo estava majoritariamente com o Minist\u00e9rio P\u00fablico. A partir da Lava Jato, o protagonismo da tutela saltou para o juiz, que, articulado com as outras corpora\u00e7\u00f5es, retoma a mesma ideia de se tornar agente p\u00fablico com visibilidade. H\u00e1 uma competi\u00e7\u00e3o entre o Minist\u00e9rio P\u00fablico e a Magistratura, especialmente na \u00f3rbita federal. A Magistratura no topo da pir\u00e2mide porque \u00e9 ela que decide. Os ju\u00edzes da Lava Jato se apropriaram dessa visibilidade p\u00fablica, de acordo, ali\u00e1s, com a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que lhes deu essa liberdade de optar entre serem acusadores e fiscais da lei.<\/p>\n<p>Para ter acesso a REVISTA POL\u00cdTICA DEMOCR\u00c1TICA fa\u00e7a o download do PDF .<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-761\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-scaled.jpeg\" alt=\"\" width=\"1513\" height=\"850\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-scaled.jpeg 2560w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-300x169.jpeg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-1024x575.jpeg 1024w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-768x432.jpeg 768w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-1536x863.jpeg 1536w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-2048x1151.jpeg 2048w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/IMG_1980-1568x881.jpeg 1568w\" sizes=\"auto, (max-width: 1513px) 100vw, 1513px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do INCT\/INEAC reproduz aqui a entrevista dada pelo antrop\u00f3logo Roberto Kant de Lima \u00e0 revista POL\u00cdTICA DEMOCR\u00c1TICA, no site da Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira &#8211;\u00a0http:\/\/www.fundacaoastrojildo.com.br\/2015\/2019\/07\/29\/autores-revista-politica-democratica-edicao-9\/\u00a0e conduzida pelo antrop\u00f3logo Lu\u00eds Roberto Cardoso de Oliveira e\u00a0\u00a0o advogado Renato Gallupo. \u00a0 Pol\u00edtica de justi\u00e7a criminal atingiu mais os desiguais, diz Roberto Kant. 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