{"id":1064,"date":"2019-08-28T03:13:44","date_gmt":"2019-08-28T03:13:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1064"},"modified":"2019-08-28T03:13:44","modified_gmt":"2019-08-28T03:13:44","slug":"da-fabricacao-do-medo-ao-voto-de-cabresto-estrategias-das-milicias-no-avanco-sobre-o-estado-entrevista-especial-com-ana-paula-mendes-de-miranda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1064","title":{"rendered":"Da fabrica\u00e7\u00e3o do medo ao voto de cabresto: estrat\u00e9gias das mil\u00edcias no avan\u00e7o sobre o Estado. Entrevista especial com Ana Paula Mendes de Miranda"},"content":{"rendered":"<p>O site do INEAC reproduz aqui entrevista de\u00a0Jo\u00e3o Vitor Santos, publicada no<strong> Instituto Humanitas Unisinos,\u00a0<\/strong>com a antrop\u00f3loga Ana Paula Mendes de Miranda (UFF), pesquisadora tamb\u00e9m vinculada ao INCT\/INEAC.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Da fabrica\u00e7\u00e3o do medo ao voto de cabresto: estrat\u00e9gias das mil\u00edcias no avan\u00e7o sobre o Estado. Entrevista especial com Ana Paula Mendes de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>O epis\u00f3dio da semana passada, quando\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591832-tuitadas-20-08-2019\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Willian Augusto da Silva, de 20 anos, foi morto<\/a>\u00a0depois de ter feito ref\u00e9ns os passageiros de um \u00f4nibus em plena\u00a0<strong>Ponte Rio-Niter\u00f3i<\/strong>, trouxe novamente para a pauta do dia o debate sobre a\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>\u00a0na cidade do\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Baixada Fluminense<\/strong>. Tida como uma a\u00e7\u00e3o exitosa da pol\u00edcia, o caso chegou a ser usado pelo governador do Rio,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591774-witzel-promove-sangue-na-favela-e-silencia-estudantes-2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Wilson Witzel<\/a>\u00a0\u2013 que quando soube da morte do sequestrador e da libera\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas pousou de helic\u00f3ptero no meio da Ponte e saiu vibrando como quem marcara um gol \u2013, como pretexto para discutir a legisla\u00e7\u00e3o para que policiais \u201cabatam\u201d (na linguagem dele) criminosos. Para a soci\u00f3loga e antrop\u00f3loga\u00a0<strong>Ana Paula Mendes de Miranda<\/strong>, essa \u00e9 uma estrat\u00e9gia, uma \u201ccortina de fuma\u00e7a\u201d, para inebriar o principal debate acerca da viol\u00eancia: \u201ca principal causa de\u00a0<strong>viol\u00eancia no Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0\u00e9 o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/587500-as-milicias-crescem-velozmente-por-dentro-do-estado-entrevista-especial-com-jose-claudio-alves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">crescimento das mil\u00edcias<\/a>. O\u00a0<strong>tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o lucrativo assim, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es\u201d, aponta.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0\u00a0<strong>IHU On-Line<\/strong>, a professora explica que o\u00a0<strong>tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0mudou muito e o \u201cneg\u00f3cio\u201d n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o lucrativo quanto foi no passado. Enquanto isso, a\u00a0<strong>mil\u00edcia<\/strong>\u00a0vai se organizando tanto no fornecimento de servi\u00e7os, p\u00fablicos e privados, que n\u00e3o chegam \u00e0 periferia, quanto na associa\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio tr\u00e1fico. \u201cA\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/169-noticias\/noticias-2015\/541379-por-que-chamar-a-policia-de-milicia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mil\u00edcia<\/a>\u00a0\u00e9 um\u00a0<strong>grupo paramilitar<\/strong>\u00a0formado por pessoas da ativa ou n\u00e3o\u201d, explica. Composta por ex-policiais, \u00e0s vezes expulsos das corpora\u00e7\u00f5es por crimes, o grupo \u00e9 bem diversificado, contendo ainda \u201cmembros do corpo de bombeiros, guardas municipais, agentes penitenci\u00e1rios, pessoas das for\u00e7as armadas\u201d e, em alguns casos, agindo em\u00a0<strong>coopera\u00e7\u00e3o com o tr\u00e1fico<\/strong>. \u201cA\u00a0<strong>mil\u00edcia \u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a<\/strong>. \u00c9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a\u201d, resume a professora.<\/p>\n<p><strong>Ana Paula<\/strong>\u00a0ainda observa que, embora fa\u00e7am a gest\u00e3o de servi\u00e7os extremamente lucrativos, o\u00a0<strong>capital da mil\u00edcia<\/strong>\u00a0\u00e9 outro. \u201cA fabrica\u00e7\u00e3o do medo; \u00e9 essa mercadoria que est\u00e1 sendo negociada o tempo todo. As pessoas que se recusam a pagar as taxas que eles cobram s\u00e3o assaltadas, coagidas ou mortas por eles\u201d, ressalta. E isso se d\u00e1 porque h\u00e1 uma confus\u00e3o entre prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. \u201cA\u00a0<strong>prote\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 um bem comerci\u00e1vel: eu vendo e quem tem dinheiro compra. A\u00a0<strong>seguran\u00e7a<\/strong>, que deveria ser o objetivo da pol\u00edtica, \u00e9 um bem intang\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel. Seguran\u00e7a ou todo mundo tem ou ningu\u00e9m tem. N\u00e3o tem como eu ter seguran\u00e7a e o morador da favela n\u00e3o ter, porque seguran\u00e7a \u00e9 um bem coletivo\u201d, esclarece.<\/p>\n<p>E na gest\u00e3o do produto que esses mesmos grupos produzem, as mil\u00edcias v\u00e3o se alastrando sobre o tecido social, indo do poder de pol\u00edcia ao poder pol\u00edtico. \u201cAs\u00a0<strong>mil\u00edcias<\/strong>\u00a0j\u00e1 assumiram uma\u00a0<strong>for\u00e7a pol\u00edtica no Estado<\/strong>. Eu n\u00e3o diria que a mil\u00edcia vai controlar o Estado;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586346-no-rio-de-janeiro-a-milicia-nao-e-um-poder-paralelo-e-o-estado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ela j\u00e1 controla<\/a>. A morte de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/577132-a-morte-de-marielle-franco-como-uma-reacao-da-mafia-do-poder-carioca-entrevista-especial-com-giuseppe-cocco-bruno-cava-e-marcelo-castaneda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marielle [Franco]<\/a>\u00a0\u00e9 um exemplo claro de como eles j\u00e1 controlam o Estado\u201d, dispara. \u00c9 por isso que\u00a0<strong>Ana Paula<\/strong>\u00a0n\u00e3o se diz surpresa com o\u00a0<strong>sucesso de determinados pol\u00edticos<\/strong>\u00a0dada a\u00a0<strong>proximidade deles com os milicianos<\/strong>. \u201cA popula\u00e7\u00e3o, coagida pelo medo, vai votar para n\u00e3o sofrer repres\u00e1lias. As\u00a0<strong>mil\u00edcias<\/strong>\u00a0s\u00e3o hoje o\u00a0<strong>voto de cabresto<\/strong>\u00a0contempor\u00e2neo, indiscutivelmente; isso j\u00e1 \u00e9 um fato\u201d, resume.<\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda<\/strong>\u00a0\u00e9 graduada e licenciada em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal Fluminense &#8211; UFF, doutora em Antropologia Social pela Universidade de S\u00e3o Paulo &#8211; USP. Atualmente, \u00e9 professora associada do Departamento de Antropologia e professora do quadro permanente do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia e do Mestrado Acad\u00eamico em Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a, ambos da UFF. Exerce tamb\u00e9m os cargos de coordenadora do Curso de Especializa\u00e7\u00e3o em Pol\u00edticas P\u00fablicas de Justi\u00e7a Criminal e Seguran\u00e7a P\u00fablica e de coordenadora adjunta dos Programas Profissionais da \u00e1rea de Antropologia e Arqueologia (CAPES) e, igualmente, de coordenadora geral do projeto de P&amp;D \u201c<strong>Mapa de percep\u00e7\u00e3o de riscos: Metodologia multim\u00e9todo para an\u00e1lise de territorialidades afetadas pelo dom\u00ednio armado<\/strong>\u201d. O resultado do trabalho desse projeto est\u00e1 sendo lan\u00e7ado num livro com o mesmo nome, pela editora Autografia, organizado conjuntamente com as professoras\u00a0<strong>Jacqueline de Oliveira Muniz<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Roberta de Mello Corr\u00eaa<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3>Confira a entrevista.<\/h3>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Qual a sua leitura sobre os desdobramentos do sequestro ao \u00f4nibus na ponte Rio\u2013Niter\u00f3i?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Preciso esclarecer que como eu n\u00e3o estava no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0no dia do sequestro, estava em\u00a0<strong>Bras\u00edlia<\/strong>, n\u00e3o acompanhei todo o caso, como ocorreu na ocasi\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/14150-onibus-174-uma-tragedia-e-uma-boa-licao-o-retorno-da-vida-entrevista-especial-com-janaina-lopes-neves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00f4nibus 174<\/a>, que acompanhei bastante. Ent\u00e3o, acompanhei esse \u00faltimo caso mais tardiamente, e n\u00e3o em tempo real. Para n\u00f3s, que somos pesquisadores, isso faz diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Dito isso, destaco um aspecto que n\u00e3o foi muito explorado neste caso. Simultaneamente ao sequestro, estava ocorrendo uma opera\u00e7\u00e3o policial na<strong>\u00a0Cidade de Deus<\/strong>, que teve a utiliza\u00e7\u00e3o de bombas: os policiais jogavam bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eanio a partir do helic\u00f3ptero. Temos a\u00ed uma quest\u00e3o ligada \u00e0\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0que \u00e9 a legitima\u00e7\u00e3o de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias operacionais que s\u00e3o alvo de questionamento por parte da popula\u00e7\u00e3o e que, muito provavelmente, precisariam ser repensadas e revistas.<\/p>\n<p>A\u00ed, no\u00a0<strong>caso do \u00f4nibus<\/strong>, tem uma coisa muito importante: falou-se muito que esta opera\u00e7\u00e3o seguiu os protocolos. Os pesquisadores que atuam nesta \u00e1rea sabem que este \u00e9 um dos principais problemas da\u00a0<strong>pol\u00edcia no Brasil<\/strong>:\u00a0<strong>n\u00e3o h\u00e1 protocolos claros<\/strong>\u00a0seguidos regularmente pelas institui\u00e7\u00f5es policiais. Esse \u00e9 um aspecto sobre o qual precisamos pensar, porque quando se fala de protocolos, internacionalmente, trata-se de uma coisa que vamos fazer sempre, em qualquer circunst\u00e2ncia, independentemente dos atores. E n\u00e3o foi bem isso que vimos.<\/p>\n<p>O fato de, ao mesmo tempo, estar acontecendo um epis\u00f3dio num lugar e uma\u00a0<strong>opera\u00e7\u00e3o policial<\/strong>\u00a0numa outra \u00e1rea da regi\u00e3o metropolitana, coloca um ponto muito importante para pensarmos: para que serve a\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>? Esse \u00e9 o principal desdobramento deste caso. H\u00e1 d\u00e9cadas temos tido pol\u00edticas de seguran\u00e7a que servem para produzir inseguran\u00e7as. Isso nos faz pensar numa quest\u00e3o bastante controversa, que foram os desenhos que as crian\u00e7as da Mar\u00e9 fizeram recentemente, em que o helic\u00f3ptero aparecia centralmente como uma coisa que estava ali e trazia mais medo do que seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>H\u00e1 v\u00e1rias pesquisas mostrando como as pessoas \u201cmorrem de medo\u201d de andar de \u00f4nibus. O \u00f4nibus faz parte do cen\u00e1rio de uma pol\u00edtica de produ\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">\u00a0<\/p>\n<h3>Precis\u00e3o n\u00e3o avaliza pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/h3>\n<p>A despeito de ter sido a a\u00e7\u00e3o precisa do\u00a0<strong>sniper\u00a0<\/strong>\u2013 n\u00e3o estou me centrando nisso, mas pensando isso no conjunto \u2013, \u00e9 preciso que fique claro que uma a\u00e7\u00e3o que pode ter sido precisa n\u00e3o significa necessariamente que a\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0seja correta. Ent\u00e3o, o principal desdobramento desta a\u00e7\u00e3o \u00e9 trazer novamente \u00e0 baila o que temos como resultado das\u00a0<strong>pol\u00edticas de seguran\u00e7a no Rio de Janeiro<\/strong>: o aumento da inseguran\u00e7a.<\/p>\n<h3>Inseguran\u00e7a e transporte p\u00fablico<\/h3>\n<p>O que significa sequestrar um \u00f4nibus? Para al\u00e9m de uma situa\u00e7\u00e3o desesperada, que fica evidente no caso desse rapaz \u2013 mas que no caso do\u00a0<strong>Sandro<\/strong>\u00a0[do\u00a0<strong>\u00f4nibus 174<\/strong>] n\u00e3o foi t\u00e3o evidente porque, de alguma forma, o fato de ele ter sido um sobrevivente da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581113-maioria-de-sobreviventes-morreu-diz-ativista-25-anos-apos-chacina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Chacina da Candel\u00e1ria<\/a>\u00a0fez com que todo mundo o tratasse como um \u201cbandido\u201d \u2013, sequestrar um \u00f4nibus est\u00e1 dentro de um contexto de assaltos a \u00f4nibus. Vi poucas pessoas falando sobre isso, e este \u00e9 um crime que tem crescido. Somente neste ano, na cidade do<strong>\u00a0Rio de Janeiro<\/strong>, cresceu cerca de 14%. Mas na regi\u00e3o de\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>, de onde vinha este \u00f4nibus, cresceu 20%.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>\u00f4nibus<\/strong>\u00a0\u00e9 o principal meio de transporte das grandes cidades brasileiras. Ent\u00e3o, ele tem um simbolismo e h\u00e1 v\u00e1rias pesquisas mostrando como as pessoas \u201cmorrem de medo\u201d de andar de \u00f4nibus. O \u00f4nibus faz parte deste cen\u00e1rio de uma<strong>\u00a0pol\u00edtica de produ\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a<\/strong>. O epis\u00f3dio conseguiu encerrar o sequestro, mas quais s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo feitas para diminuir os assaltos a \u00f4nibus que podem derivar numa situa\u00e7\u00e3o dessas?<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios do\u00a0<strong>Sandro<\/strong>\u00a0e do\u00a0<strong>William<\/strong>\u00a0[jovem do caso da ponte Rio-Niter\u00f3i] foram equivalentes nesse sentido. Um epis\u00f3dio diferente aconteceu em 2011, quando um rapaz branco saiu de uma festa, viu um \u00f4nibus parado no ponto, pegou o \u00f4nibus e saiu. Ele estava drogado, alcoolizado e esse epis\u00f3dio resultou em oito colis\u00f5es: ele bateu em carros de passeio, em \u00f4nibus, em t\u00e1xis e em um carro da pol\u00edcia militar. O rapaz n\u00e3o foi morto. Ele era branco, classe m\u00e9dia, foi chamado de jovem, de estudante.<\/p>\n<p>Para o que estou tentando chamar aten\u00e7\u00e3o nesse caso em oposi\u00e7\u00e3o aos outros dois casos? \u00c9 que nem sempre a gana por precis\u00e3o de matar os bandidos acontece quando estamos lidando com\u00a0<strong>pessoas brancas<\/strong>. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o que temos que considerar quando se trata da\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>. A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584854-rio-de-janeiro-plano-de-seguranca-de-witzel-estimula-a-violencia-dizem-especialistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica de seguran\u00e7a do governador<\/a>\u00a0[<strong>Wilson Witzel<\/strong>], que legitima que se deve atirar primeiro, resultou na morte de v\u00e1rios jovens, como a de um rapaz que tinha chuteiras na mochila. E o policial disse, depois da morte do garoto: \u201cE n\u00e3o tinha nada&#8230;\u201d. Ou seja, essa \u00e9 a\u00a0<strong>pol\u00edtica do atira primeiro<\/strong>\u00a0e pergunta depois, cuja consequ\u00eancia \u00e9 o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/586939-movimento-negro-denuncia-internacionalmente-licenca-para-matar-de-moro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o preta<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Essa \u00e9 a pol\u00edtica do atira primeiro e pergunta depois, cuja consequ\u00eancia \u00e9 o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o preta &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Por que houve um aumento dos assaltos a \u00f4nibus no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013\u00a0<\/strong>S\u00f3 se fala que cresceram os\u00a0<strong>\u00edndices de assalto no Rio de Janeiro<\/strong>, sem muita explica\u00e7\u00e3o. Obviamente isso tem a ver com a estrat\u00e9gia de\u00a0<strong>pol\u00edtica de repress\u00e3o ao tr\u00e1fico de drogas<\/strong>. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/568326-a-racionalidade-economica-sustenta-o-trafico-de-drogas-de-norte-a-sul-do-brasil-entrevista-especial-com-luis-flavio-sapori\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tr\u00e1fico de drogas<\/a>\u00a0\u00e9 uma atividade criminosa e tem dentro do seu escopo uma rede de custos que tem que ser mantida, o que inclui o \u201carrego\u201d pago aos policiais. Ent\u00e3o, quando se reprime o tr\u00e1fico de drogas numa determinada \u00e1rea e o custo operacional do tr\u00e1fico continua valendo, vai continuar aumentando o crime em outras \u00e1reas, \u00e1reas geogr\u00e1ficas e tipos de crimes, porque a rede criminosa precisa continuar funcionando.<\/p>\n<p>Geralmente quando se tem um\u00a0<strong>aumento de repress\u00e3o \u00e0s fac\u00e7\u00f5es<\/strong>, tem aumento de assalto e esse aumento vai acontecer em diferentes contextos. O\u00a0<strong>roubo em coletivos de \u00f4nibus<\/strong>\u00a0\u00e9 um deles, porque \u00e9 onde ainda se tem dinheiro vivo circulando. Claro que hoje muitas pessoas usam o cart\u00e3o de acesso ao \u00f4nibus, mas muitos ainda pagam em dinheiro. Hoje em dia, quase todas as pessoas no \u00f4nibus t\u00eam celular e isso se transforma em dinheiro muito rapidamente, porque existe um mercado ilegal em torno da revenda ou desbloqueio de celulares.<\/p>\n<p>Assim, o\u00a0<strong>\u00f4nibus<\/strong>\u00a0tem uma centralidade na circula\u00e7\u00e3o de capitais e, do ponto de vista simb\u00f3lico, ele \u00e9 um bem de mobilidade que leva as pessoas das regi\u00f5es afastadas para o centro da cidade.\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>\u00a0\u00e9 uma cidade-dormit\u00f3rio. Por acaso, este ano estou lan\u00e7ando um livro com duas colegas, no qual apresentamos uma pesquisa que fizemos em\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo e Caxias<\/strong>\u00a0[\u201c<strong>Mapa de Percep\u00e7\u00e3o de Riscos: Metodologia multim\u00e9todo para an\u00e1lise de territorialidades afetadas pelo dom\u00ednio armado<\/strong>\u201d. Rio de Janeiro: Autografia, 2019], sobre um mapeamento das \u00e1reas violentas, e garanto que o mapa que fizemos em\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>\u00a0\u00e9 um mapa de uma cidade muito marcada por crimes.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m discutiu problemas como os de\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>. Ficam discutindo se a\u00a0<strong>pol\u00edcia<\/strong>\u00a0pode ou n\u00e3o matar. \u00c9 evidente que a pol\u00edcia pode matar; ela \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o criada para isso. Mas o problema n\u00e3o \u00e9 que ela pode matar, mas como, quando e em que circunst\u00e2ncias ela vai matar. Ent\u00e3o, acabamos desvirtuando totalmente a discuss\u00e3o para um detalhe e abandonamos tudo o mais que \u00e9 importante, que \u00e9 em que situa\u00e7\u00f5es a pol\u00edcia estar\u00e1 autorizada a atirar em uma pessoa. Evidentemente que, como no caso do \u00f4nibus, se havia o risco para todas as outras pessoas, a a\u00e7\u00e3o em si est\u00e1 legitimada. Mas da\u00ed comemorarmos&#8230; Esse \u00e9 o problema em rela\u00e7\u00e3o ao que aconteceu, porque o governador comemorou \u2013 depois ele disse que n\u00e3o comemorou, mas comemorou \u2013 a morte do\u00a0<strong>William<\/strong>.<\/p>\n<h3>Interfer\u00eancia pol\u00edtica<\/h3>\n<p>Tentou-se dizer que este epis\u00f3dio foi diferente do\u00a0<strong>\u00f4nibus 174<\/strong>\u00a0porque n\u00e3o houve\u00a0<strong>interfer\u00eancia pol\u00edtica<\/strong>, mas \u00e9 mentira: evidente que houve interfer\u00eancia pol\u00edtica e toda a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia \u00e9 pol\u00edtica. O ato de ter autoriza\u00e7\u00e3o para matar \u00e9 um ato pol\u00edtico. Talvez estejam querendo dizer que n\u00e3o \u00e9 um ato partid\u00e1rio, porque o que se dizia na \u00e9poca do governo\u00a0<strong>Garotinho<\/strong>\u00a0[<strong>Anthony Garotinho<\/strong>\u00a0era governador \u00e0 \u00e9poca do \u00f4nibus 174], era que o governador teria impedido que um\u00a0<strong>sniper<\/strong>\u00a0atirasse para n\u00e3o haver um assassinato em rede nacional.<\/p>\n<p><strong>O estado do Rio de Janeiro j\u00e1 est\u00e1 dominado pelas mil\u00edcias\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse sentido, descemos um degrau e agora se autoriza um\u00a0<strong>assassinato em rede nacional<\/strong>\u00a0\u2013 ou melhor, em rede internacional, porque isso foi transmitido internacionalmente. Se algu\u00e9m acha que isso \u00e9 positivo, eu, particularmente, acho que n\u00e3o \u00e9. At\u00e9 o \u00faltimo minuto temos que tentar\u00a0<strong>evitar a morte<\/strong>, do ponto de vista da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u2013 n\u00e3o estou discutindo a quest\u00e3o t\u00e1tica e estrat\u00e9gica, porque n\u00e3o tenho forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma o crime organizado se relaciona com as mil\u00edcias e como essas duas entidades redesenham o quadro da viol\u00eancia no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Esse \u00e9 o principal ponto. A principal causa de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/583931-no-rio-grupos-paramilitares-aumentam-violencia-apos-primeiro-turno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">viol\u00eancia no Rio de Janeiro<\/a>\u00a0\u00e9 o<strong>\u00a0crescimento das mil\u00edcias<\/strong>. A partir desta pesquisa que fiz em\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>\u00a0e em\u00a0<strong>Duque de Caxias<\/strong>, fica evidente que o que est\u00e1 em disputa \u00e9 o\u00a0<strong>controle territorial<\/strong>\u00a0para a realiza\u00e7\u00e3o de atividades criminosas, sejam elas quais forem. O\u00a0<strong>tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o lucrativo assim, por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiro, mudou o perfil do consumo de drogas. O\u00a0<strong>tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0que est\u00e1 nas favelas \u00e9 um tipo de tr\u00e1fico que n\u00e3o interessa mais tanto \u00e0\u00a0<strong>classe m\u00e9dia alta<\/strong>. O segundo ponto \u00e9 o\u00a0<strong>custo do tr\u00e1fico<\/strong>: o \u201carrego\u201d, o aluguel das armas e as mil\u00edcias, que controlam o \u201cgato net\u201d, que \u00e9 como chamamos o acesso \u00e0s televis\u00f5es, wi-fi, o controle da venda de g\u00e1s, do moto-t\u00e1xi, do furto de energia \u2013 tem uma rede institucional que vende o servi\u00e7o de energia, concorrendo com as empresas concession\u00e1rias. Tudo isso \u00e9 altamente lucrativo.<\/p>\n<p>No caso de\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>, o\u00a0<strong>preju\u00edzo da empresa de energia<\/strong>\u00a0\u00e9 de mais de 50%. Imagina o que \u00e9 para uma empresa concession\u00e1ria o preju\u00edzo. Com perdas de mais de 50%, qualquer empresa pode falir. Esse caso era tratado como um caso individual, mas provamos que n\u00e3o \u00e9 um caso individual, porque existe um\u00a0<strong>esquema industrial de furto de energia<\/strong>\u00a0que concorre com a empresa. Tudo isso \u00e9 controlado pela<strong>\u00a0mil\u00edcia<\/strong>\u00a0e pelo\u00a0<strong>tr\u00e1fico<\/strong>, para categorizarmos em dois setores apenas, porque muitas vezes\u00a0<strong>traficantes e milicianos s\u00e3o s\u00f3cios<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Existe um esquema industrial de furto de energia que concorre com a empresa. Tudo isso \u00e9 controlado pela mil\u00edcia e pelo tr\u00e1fico, para categorizarmos em dois setores apenas, porque muitas vezes traficantes e milicianos s\u00e3o s\u00f3cios &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3>Mil\u00edcia e sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a<\/h3>\n<p>Essa ideia romantizada de que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/558111-o-poder-invisivel-das-milicias-gangues-cobram-pedagio-da-comunidade-para-que-obtenham-servicos-basicos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mil\u00edcia<\/a>\u00a0vem para evitar o crime na sua \u00e1rea, n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdadeiro. Eu diria que n\u00e3o \u00e9 empiricamente verdadeiro, dependendo da \u00e1rea. Existem \u00e1reas em que\u00a0<strong>milicianos<\/strong>\u00a0adotam essa postura, da mesma forma em que h\u00e1 \u00e1reas em que traficantes adotam essa postura, e isso aparece na nossa pesquisa em\u00a0<strong>S\u00e3o Gon\u00e7alo<\/strong>: tinha uma regi\u00e3o da cidade em que o\u00a0<strong>tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0n\u00e3o deixava fazer assalto na regi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o\u00a0<strong>miliciano<\/strong>\u00a0que n\u00e3o deixa; o traficante tamb\u00e9m n\u00e3o deixava.<\/p>\n<p>Isso leva a um equ\u00edvoco muitas vezes na an\u00e1lise dos dados, porque h\u00e1 regi\u00f5es em que se pensa que acabou o\u00a0<strong>assalto<\/strong>, mas na verdade as pessoas est\u00e3o sob outro regime de medo: o da\u00a0<strong>extors\u00e3o<\/strong>. O que garante o\u00a0<strong>poder dos milicianos e dos traficantes<\/strong>? A\u00a0<strong>fabrica\u00e7\u00e3o do medo<\/strong>; \u00e9 essa mercadoria que est\u00e1 sendo negociada o tempo todo. As pessoas que se recusam a\u00a0<strong>pagar as taxas<\/strong>\u00a0que eles cobram s\u00e3o assaltadas, coagidas ou mortas por eles. H\u00e1 relatos de pessoas que foram assassinadas porque se recusaram a pagar as taxas cobradas pelos milicianos. Vi recentemente uma mat\u00e9ria sobre uma \u00e1rea de condom\u00ednios de\u00a0<strong>moradores das for\u00e7as armadas<\/strong>\u00a0que s\u00e3o cobrados pelos milicianos, mas eles t\u00eam desconto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s taxas cobradas dos outros moradores, em nome de uma prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O que garante o poder dos milicianos e dos traficantes? A fabrica\u00e7\u00e3o do medo; \u00e9 essa mercadoria que est\u00e1 sendo negociada o tempo todo\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A\u00ed temos um ponto-chave:\u00a0<strong>prote\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9\u00a0<strong>seguran\u00e7a<\/strong>. H\u00e1 uma confus\u00e3o, nesse cen\u00e1rio, de que estamos falando da mesma coisa. A\u00a0<strong>prote\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0\u00e9 um bem comerci\u00e1vel: eu vendo e quem tem dinheiro compra. A\u00a0<strong>seguran\u00e7a<\/strong>, que deveria ser o objetivo da pol\u00edtica, \u00e9 um bem intang\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel. Seguran\u00e7a ou todo mundo tem ou ningu\u00e9m tem. N\u00e3o tem como eu ter seguran\u00e7a e o morador da favela n\u00e3o ter, porque seguran\u00e7a \u00e9 um bem coletivo. Uma \u00e1rea segura \u00e9 uma \u00e1rea para todos, sempre, indistintamente.<\/p>\n<p>Como o brasileiro tem muita dificuldade de entender o que \u00e9 direito, porque entendemos direito como privil\u00e9gio, a fantasia \u00e9 segmentada: quem mora na\u00a0<strong>zona sul\u00a0<\/strong>do<strong>\u00a0Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0acha que a zona sul pode ser segura e n\u00e3o tem problema o que est\u00e1 acontecendo na periferia ou na favela, porque quem mora na zona sul paga pela sua seguran\u00e7a. Mas o fato \u00e9 que ela n\u00e3o paga pela seguran\u00e7a, ela paga por outras coisas. Por seguran\u00e7a todo mundo paga. Seguran\u00e7a \u00e9 um bem intang\u00edvel, como deveriam ser tamb\u00e9m os direitos \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o os direitos protegidos por legisla\u00e7\u00f5es constitucionais no mundo todo. S\u00e3o bens de atividade obrigat\u00f3ria do\u00a0<strong>Estado<\/strong>.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>mil\u00edcia<\/strong>\u00a0\u00e9 a\u00a0<strong>privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a<\/strong>. \u00c9 a institucionaliza\u00e7\u00e3o da privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a. Quando a classe m\u00e9dia larga de m\u00e3o o\u00a0<strong>SUS<\/strong>\u00a0e opta pelo\u00a0<strong>plano de sa\u00fade<\/strong>, ela opta pela privatiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. A mil\u00edcia \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pela privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a; s\u00f3 ter\u00e1 seguran\u00e7a quem paga. Mas \u00e9 uma ilus\u00e3o achar que se ter\u00e1 seguran\u00e7a pagando para a mil\u00edcia, porque n\u00e3o vai ter. A mil\u00edcia cobra at\u00e9 do pr\u00f3prio militar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 seguran\u00e7a. A prote\u00e7\u00e3o \u00e9 um bem comerci\u00e1vel: eu vendo e quem tem dinheiro compra. A seguran\u00e7a, que deveria ser o objetivo da pol\u00edtica, \u00e9 um bem intang\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel. Ela \u00e9 um bem coletivo &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 As mil\u00edcias s\u00e3o for\u00e7as policiais paralelas que, dado o seu poder, podem acabar assumindo uma for\u00e7a pol\u00edtica no Estado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0As\u00a0<strong>mil\u00edcias<\/strong>\u00a0j\u00e1 assumiram uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579030-mais-vivo-do-que-nunca-tentaculo-politico-da-milicia-mira-as-proximas-eleicoes\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">for\u00e7a pol\u00edtica no Estado<\/a>, mas eu n\u00e3o gosto de usar a express\u00e3o \u201cparalela\u201d. A\u00a0<strong>mil\u00edcia<\/strong>\u00a0\u00e9 um grupo paramilitar formado por pessoas da ativa ou n\u00e3o. A mil\u00edcia \u00e9 composta por ex-policiais que podem ter sido expulsos da corpora\u00e7\u00e3o por crimes, como pode ter pessoas da reserva, e n\u00e3o s\u00f3 policiais, mas membros do corpo de bombeiros, guardas municipais, agentes penitenci\u00e1rios, pessoas das for\u00e7as armadas. Ou seja, tem uma composi\u00e7\u00e3o diversificada de pessoas da ativa ou n\u00e3o, com uma\u00a0<strong>for\u00e7a paramilitar<\/strong>\u00a0que j\u00e1 controla o Estado.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o diria que a mil\u00edcia vai controlar o Estado; ela j\u00e1 controla. A morte de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/587357-pm-e-ex-pm-suspeitos-de-matar-marielle-franco-sao-presos-no-rio-de-janeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marielle [Franco]<\/a>\u00a0\u00e9 um exemplo claro de como eles j\u00e1 controlam o Estado. Recentemente, tivemos a not\u00edcia de mais um\u00a0<strong>vereador assassinado em Maric\u00e1<\/strong>, tamb\u00e9m regi\u00e3o metropolitana do\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>. O\u00a0<strong>The Intercept<\/strong>\u00a0fez uma mat\u00e9ria sobre o n\u00famero de\u00a0<strong>vereadores assassinados<\/strong>, e o n\u00famero \u00e9 enorme, assustador, principalmente na\u00a0<strong>Baixada Fluminense<\/strong>. Isso mostra que a mil\u00edcia j\u00e1 tem o controle. Al\u00e9m disso, quando a mil\u00edcia impede grupos partid\u00e1rios de entrarem em determinadas regi\u00f5es para fazerem campanha eleitoral, temos as\u00a0<strong>mil\u00edcias controlando a pol\u00edtica do Estado<\/strong>.<\/p>\n<p>Quando se diz que fulano \u2013 vou evitar dizer nomes \u2013 foi o mais votado, beltrano foi o segundo mais votado em tal regi\u00e3o, todos eles<strong>\u00a0ligados \u00e0 mil\u00edcia<\/strong>, \u00e9 evidente que a popula\u00e7\u00e3o, coagida pelo medo, vai votar neles para n\u00e3o sofrer repres\u00e1lias. As\u00a0<strong>mil\u00edcias<\/strong>\u00a0s\u00e3o hoje o<strong>\u00a0voto de cabresto<\/strong>\u00a0contempor\u00e2neo, indiscutivelmente; isso j\u00e1 \u00e9 um fato. O estado do\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0j\u00e1 est\u00e1 dominado pelas mil\u00edcias. Mas eu gostaria de chamar aten\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 somente o estado do Rio de Janeiro: h\u00e1 outros estados, embora o fen\u00f4meno ainda esteja mascarado.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o diria que a mil\u00edcia vai controlar o Estado; ela j\u00e1 controla. A morte de Marielle [Franco] \u00e9 um exemplo claro de como eles j\u00e1 controlam o Estado\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3>Mil\u00edcias para al\u00e9m do Rio de Janeiro<\/h3>\n<p>Por que digo isso? Porque uma coisa que tenho estudado h\u00e1 dez anos, que \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571891-ataques-a-religioes-de-matriz-africana-fazem-parte-da-nova-dinamica-do-trafico-no-rio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">destrui\u00e7\u00e3o dos terreiros de Candombl\u00e9<\/a>, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo no\u00a0<strong>Nordeste<\/strong>. Essa destrui\u00e7\u00e3o est\u00e1 vinculada a esse fen\u00f4meno: o que est\u00e1 em disputa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a destrui\u00e7\u00e3o do terreiro, mas o espa\u00e7o do terreiro, porque se precisa daquela \u00e1rea para\u00a0<strong>especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/strong>, que \u00e9 outro ramo muito lucrativo das<strong>\u00a0mil\u00edcias no Rio de Janeiro<\/strong>.<\/p>\n<p>Lembrem do\u00a0<strong>pr\u00e9dio que desabou no Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0recentemente. Aquilo era<strong>\u00a0\u00e1rea de mil\u00edcia<\/strong>\u00a0e uma \u00e1rea em que n\u00e3o se podia construir, ainda mais do jeito como foram constru\u00eddos os pr\u00e9dios. Estamos diante de um cen\u00e1rio equivalente ao que aconteceu com o\u00a0<strong>M\u00e9xico<\/strong>, o qual passou por um processo muito grave de \u201c<strong>miliciariza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u201d e foram d\u00e9cadas para conseguir romper com isso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 A mil\u00edcia surge como um poder paramilitar. Como esse poder se associa com o tr\u00e1fico e como chega ao Estado? Pode recuperar historicamente qual \u00e9 a origem desse processo em que a mil\u00edcia surge e se alastra at\u00e9 chegar ao Estado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Um professor da\u00a0<strong>Universidade Estadual Rural do Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0estuda a atua\u00e7\u00e3o dos\u00a0<strong>grupos de exterm\u00ednio na Baixada Fluminense<\/strong>\u00a0desde a\u00a0<strong>ditadura militar<\/strong>. Ele associa a ditadura \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o desses grupos. O que eu diria em rela\u00e7\u00e3o a isso \u00e9 que sim, temos uma rela\u00e7\u00e3o com a ditadura militar, mas os grupos de exterm\u00ednio associados \u00e0 ditadura militar naquela \u00e9poca na Baixada Fluminense \u2013 e a\u00ed eu discordo um pouco do professor \u2013 tinham um pouco a l\u00f3gica de limpar o terreno para n\u00e3o ter assalto. Tinha a ideia da prote\u00e7\u00e3o particularizada. Hoje, o cen\u00e1rio \u00e9 diferente. Podemos ter tido aquilo que ele menciona como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico e podemos associar as mil\u00edcias a um momento da\u00a0<strong>ditadura militar<\/strong>, e n\u00e3o \u00e9 por acaso que alguns desses atores s\u00e3o defensores de um\u00a0<strong>militarismo<\/strong>, de um\u00a0<strong>nacionalismo violento<\/strong>, mas hoje a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Hoje, quando estamos lidando com esse<strong>\u00a0poderio miliciano<\/strong>, o que est\u00e1 em disputa \u00e9 o dom\u00ednio do territ\u00f3rio. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o dom\u00ednio do poder do ponto de vista da conquista do territ\u00f3rio, mas o dom\u00ednio comercial. O interesse \u00e9 financeiro; esse pessoal est\u00e1 na especula\u00e7\u00e3o para ganhar dinheiro e para isso eles cobram com o medo porque vendem prote\u00e7\u00e3o. A mil\u00edcia \u00e9 uma atividade comercial. O que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 a disputa pelos mercados ilegais. Eu prefiro a interpreta\u00e7\u00e3o do professor\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/504509-o-solo-das-milicias-e-a-generalizada-corrupcao-na-policia-fluminense-entrevista-especial-com-michel-misse\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Michel Misse<\/a>, meu colega da UFRJ, que est\u00e1 preocupado com a constru\u00e7\u00e3o dos\u00a0<strong>mercados ilegais<\/strong>\u00a0e dos\u00a0<strong>mercados legais<\/strong>, que tem a ver com a\u00a0<strong>regulamenta\u00e7\u00e3o do consumo das drogas<\/strong>. O mundo todo est\u00e1 fazendo esta discuss\u00e3o, mas no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0n\u00f3s nos recusamos a isso.<\/p>\n<p>Em termos de custos, o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543681-brasil-cai-em-ranking-da-paz-e-eleva-custo-mundial-da-violencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">custo da viol\u00eancia<\/a>\u00a0\u00e9 infinitamente mais alto. A\u00ed se pergunta o que fazer com os dependentes qu\u00edmicos. Tem que trat\u00e1-los na sa\u00fade; \u00e9 mais barato. Estou pensando do ponto de vista da pol\u00edtica e n\u00e3o do ponto de vista moralista. N\u00e3o estou defendendo o uso de drogas ao dizer isso, mas falando o que significa morar na\u00a0<strong>Cidade de Deus<\/strong>: existem pesquisas mostrando que os moradores da\u00a0<strong>Cidade de Deus<\/strong>\u00a0e do entorno t\u00eam uma perda de dias letivos que corresponde a quase um m\u00eas a menos do que todos os moradores do resto da cidade; isso n\u00e3o tem como recompor. Esses meninos n\u00e3o v\u00e3o passar no vestibular e ter\u00e3o uma forma\u00e7\u00e3o pior do que a dos outros. Isso tem um custo pol\u00edtico.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>O que significa morar na Cidade de Deus? Existem pesquisas mostrando que os moradores da Cidade de Deus e do entorno t\u00eam uma perda de dias letivos que corresponde a quase um m\u00eas a menos do que todos os moradores do resto da cidade; isso n\u00e3o tem como recompor\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p>Cidade de Deus<\/p><\/div>\n<\/div>\n<p>Eu falo muito da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/562546-violencia-na-cidade-de-deus-desperta-onda-de-boatos-e-medo-no-rio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cidade de Deus<\/a>\u00a0porque tenho uma orientanda que mora num condom\u00ednio que\u00a0fica ao lado de uma das entradas da\u00a0<strong>Cidade de Deus<\/strong>. J\u00e1 perdi a conta de quantos compromissos de trabalho essa mo\u00e7a perdeu por n\u00e3o conseguir sair. Quando ela consegue sair, fica num desespero de n\u00e3o conseguir voltar para casa, porque o filho dela, um menino de 13 anos, est\u00e1 sozinho. Esse \u00e9 um caso que acompanho pessoalmente.<\/p>\n<p>O custo dessas coisas n\u00e3o \u00e9 considerado quando temos uma pol\u00edtica do atira primeiro e pergunta depois. Ao dizer isso, n\u00e3o estou defendendo que o bandido tenha direito de estar armado. Evidentemente que n\u00e3o. Mas se quisermos tirar as armas dos bandidos da favela, que tal come\u00e7armos a investigar de onde vem a muni\u00e7\u00e3o, as armas que s\u00e3o vendidas pelas\u00a0<strong>for\u00e7as armadas<\/strong>? O que digo \u00e9 que ficamos produzindo eventos midi\u00e1ticos de \u201cvamos atirar em qualquer um\u201d, \u201cvamos prender qualquer um\u201d e, com isso, ficamos matando pessoas que andavam com uma furadeira el\u00e9trica, com uma chuteira na bolsa. H\u00e1 um\u00a0<strong>custo social<\/strong>\u00a0que n\u00e3o \u00e9 produzido pelos bandidos, mas pela pol\u00edtica. Um exemplo s\u00e3o as empresas que deixam de se instalar no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0por causa da\u00a0<strong>viol\u00eancia<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>O custo dessas perdas n\u00e3o \u00e9 considerado quando temos uma pol\u00edtica do atira primeiro e pergunta depois\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Levantamento do portal UOL aponta que, no primeiro semestre de 2019, a pol\u00edcia do Rio matou 881 pessoas, mas nenhuma em \u00e1rea controlada pelas mil\u00edcias. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Pura coincid\u00eancia, para aqueles que acreditam em coincid\u00eancias (risos). Esse dado corrobora o que estou falando. N\u00e3o \u00e9 em \u00e1rea de\u00a0<strong>mil\u00edcia<\/strong>\u00a0que ocorrem essas mortes, porque a mil\u00edcia n\u00e3o aceita que ningu\u00e9m atrapalhe o neg\u00f3cio dela. A coisa mais conhecida no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0\u00e9 o \u201cempurra o corpo para c\u00e1, empurra o corpo para l\u00e1\u201d. Ent\u00e3o, o fato de a pessoa n\u00e3o ser morta ou n\u00e3o aparecer morta numa regi\u00e3o, n\u00e3o significa que o crime n\u00e3o tenha acontecido naquele lugar. Temos\u00a0<strong>in\u00fameros casos de desaparecimento de corpos<\/strong>. Um dado bastante assustador que se comenta \u00e9 o fato de dar os corpos para jacar\u00e9s e porcos.<\/p>\n<h3>Corpos aos animais<\/h3>\n<p>Isso passou a acontecer depois da morte do [jornalista]\u00a0<strong>Tim Lopes<\/strong>, porque, at\u00e9 ent\u00e3o, quando o\u00a0<strong>tr\u00e1fico matava<\/strong>, ele tinha a t\u00e9cnica da incinera\u00e7\u00e3o nos pneus. Quando estavam procurando o corpo do\u00a0<strong>Tim<\/strong>, encontraram v\u00e1rias outras ossadas e ningu\u00e9m se perguntou sobre aquelas outras ossadas; s\u00f3 foi feita a investiga\u00e7\u00e3o do DNA nos pneus e se identificou que havia o DNA. Assim, se viu que tem como fazer prova desses crimes, e isso resultou na mudan\u00e7a de t\u00e1tica de desaparecimento de corpos. H\u00e1 in\u00fameros relatos de que passaram a dar os corpos para bichos porque, no caso de jacar\u00e9 e porco, n\u00e3o sobra nada de osso. Isso se institucionalizou e na\u00a0<strong>zona oeste do Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0tem muito\u00a0<strong>jacar\u00e9<\/strong>, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que se chama\u00a0<strong>Jacarepagu\u00e1<\/strong>. H\u00e1 estudos do ponto de vista da\u00a0<strong>Biologia<\/strong>\u00a0mostrando que h\u00e1 um crescimento excessivo desses animais, o que mostra que eles est\u00e3o sendo muito alimentados. \u00c9 por isso que falo sobre um\u00a0<strong>processo de mexicaniza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno<\/strong>, porque o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 equivalente ao que aconteceu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<strong>viol\u00eancia no M\u00e9xico<\/strong>.<\/p>\n<h3>Marketing da mil\u00edcia<\/h3>\n<p>Temos um cen\u00e1rio de que not\u00edcias como a que voc\u00ea se refere \u00e9 a melhor propaganda da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/590653-milicias-avancam-sobre-reserva-ambiental-no-rio-de-janeiro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mil\u00edcia<\/a>, porque uma mat\u00e9ria como essa s\u00f3 serve para a mil\u00edcia fazer festa e dizer que \u00e9 eficiente. Acontece que ela \u00e9 eficiente em que sentido? \u00c9 dif\u00edcil pensarmos quais s\u00e3o as consequ\u00eancias disso, porque qual seria a forma para impedir essa situa\u00e7\u00e3o? \u00c9 n\u00e3o ter uma coniv\u00eancia das for\u00e7as p\u00fablicas, mas acontece que tem e, inclusive, h\u00e1 um envolvimento dos tr\u00eas Poderes.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Na entrevista coletiva, depois do desfecho do sequestro na ponte, o governador do Rio, Wilson Witzel, voltou a dizer que \u00e9 preciso rever a legisla\u00e7\u00e3o e reendossou a autoriza\u00e7\u00e3o de que policiais devem atirar em \u201cbandido com fuzil\u201d. O que isso representa? E por que o governador usa o epis\u00f3dio da ponte, que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o uso de armamento pesado por supostos bandidos, para defender sua tese?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Significa uma cortina de fuma\u00e7a para mostrar que ele n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada. Essa \u00e9 a conversa de todo mundo: \u201cvamos rever a legisla\u00e7\u00e3o\u201d. Todo mundo sabe que a legisla\u00e7\u00e3o dura muito mais do que um mandato. A pergunta que tem de ser feita a ele \u00e9: o que ele, enquanto governador, est\u00e1 fazendo para a\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro<\/strong>? Eu, como moradora desse estado, n\u00e3o sei qual \u00e9 a pol\u00edtica do estado. Quer dizer, sei: matar. Mas para al\u00e9m de matar, o que mais?<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de matar, o que temos em funcionamento? O que eu sei \u00e9 que na\u00a0<strong>pol\u00edcia<\/strong>\u00a0est\u00e1 tudo sucateado, que n\u00e3o tem dinheiro nem para combust\u00edvel. O primeiro ato que o governador fez foi o\u00a0<strong>desmembramento da Secretaria de Seguran\u00e7a<\/strong>. Isso, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um equ\u00edvoco, porque h\u00e1 um esfor\u00e7o da<strong>\u00a0Secretaria de Seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0em produzir uma intera\u00e7\u00e3o entre as duas pol\u00edcias e foi por isso que se criou uma secretaria de seguran\u00e7a unificada. Desde a d\u00e9cada de 1980 se teve essa busca de unifica\u00e7\u00e3o de propostas, j\u00e1 que n\u00e3o vai haver unifica\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias \u2013 n\u00e3o acredito nessa unifica\u00e7\u00e3o e acho isso um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>Mas desde que o governador assumiu, ele desfez essa integra\u00e7\u00e3o de propostas e desde ent\u00e3o as delegacias que deveriam fazer as investiga\u00e7\u00f5es dos crimes, para que a\u00ed sim se tivesse um sistema de repress\u00e3o significativo, est\u00e3o totalmente sucateadas, n\u00e3o t\u00eam estrutura para trabalhar. Todo o projeto de delegacia legal, que foi um projeto de\u00a0<strong>moderniza\u00e7\u00e3o das delegacias do Rio de Janeiro<\/strong>, foi abandonado e hoje as\u00a0<strong>delegacias est\u00e3o sucateadas<\/strong>. Quando ele fala disso [rever legisla\u00e7\u00e3o], est\u00e1 fazendo uma cortina de fuma\u00e7a para n\u00e3o revelar o quanto o\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0segue sem ter uma\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0que realmente d\u00ea conta, do ponto de vista legal, do que acontece com o\u00a0<strong>crime no Rio de Janeiro<\/strong>.<\/p>\n<h3>Homic\u00eddios<\/h3>\n<p>Sobre os\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579978-metade-dos-homicidios-em-2016-ocorreu-em-apenas-2-dos-municipios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">homic\u00eddios no Rio de Janeiro<\/a>, eu fiz uma pesquisa em 2005, a qual mostrava que o percentual de casos de homic\u00eddios elucidados \u00e9 \u00ednfimo. Na \u00e9poca n\u00e3o chegava a 5%, e dentro desse \u00edndice estavam os flagrantes \u2013 o mais dif\u00edcil \u00e9 prender algu\u00e9m em flagrante e, quando isso acontece, se est\u00e1 diante de um crime passional. Os crimes de encomenda, as chacinas, que t\u00eam a ver diretamente com a pol\u00edtica da\u00a0<strong>mil\u00edcia<\/strong>, s\u00e3o crimes planejados e n\u00e3o h\u00e1 investiga\u00e7\u00e3o sobre eles.<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>caso da Marielle<\/strong>, at\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe quem mandou mat\u00e1-la. Descobriu-se quem executou, mas n\u00e3o se descobriu quem mandou mat\u00e1-la. Temos uma forma de atua\u00e7\u00e3o policial muito segmentada. \u00c9 um equ\u00edvoco achar que\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0se faz s\u00f3 com policial na rua fazendo papel de \u201cboneco de posto\u201d. Precisamos pensar a pol\u00edtica de seguran\u00e7a para al\u00e9m disso.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>A economia da favela gira em torno do tr\u00e1fico de drogas. Tira o tr\u00e1fico da favela, as pessoas v\u00e3o viver de qu\u00ea? &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p class=\"tweet-quote\">\u00a0<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O presidente Jair Bolsonaro tem um discurso muito parecido com o de Witzel. O que aproxima e o que distancia ambos no que diz respeito \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0O que os aproxima \u00e9 que nenhum dos dois t\u00eam uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/583220-apostas-erradas-transformam-politica-de-seguranca-publica-em-guerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica<\/a>; eles t\u00eam medidas midi\u00e1ticas para produzir cortinas de fuma\u00e7a. De estrutura\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, de forma\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o permanente, de\u00a0<em>accountability<\/em>\u00a0[responsabilidade] eles n\u00e3o t\u00eam nada. O que eles prop\u00f5em n\u00e3o pode ser chamado de\u00a0<strong>pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>. Ou seja, o que eles prop\u00f5em n\u00e3o atende, internacionalmente, ao que se entende por seguran\u00e7a p\u00fablica. A pol\u00edtica de seguran\u00e7a \u00e9 parte de um conjunto de pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p>Quando as pessoas pegam o caso da\u00a0<strong>Col\u00f4mbia<\/strong>\u00a0para discutir como um caso de sucesso \u2013 n\u00e3o estou nem dizendo se acho um caso de sucesso ou n\u00e3o \u2013 associado com a\u00a0<strong>repress\u00e3o ao tr\u00e1fico<\/strong>, vem uma outra pol\u00edtica sobre o que fazer com esses garotos, porque eles vivem do dinheiro do tr\u00e1fico. Mas se acabar com o tr\u00e1fico de drogas, do que eles v\u00e3o viver? A\u00a0<strong>economia da favela<\/strong>\u00a0gira em torno do<strong>\u00a0tr\u00e1fico de drogas<\/strong>. Tira o tr\u00e1fico da favela, as pessoas v\u00e3o viver de qu\u00ea?<\/p>\n<h3>Alternativas ao tr\u00e1fico<\/h3>\n<p>Internacionalmente, quando est\u00e1 se discutindo a\u00a0<strong>repress\u00e3o ao tr\u00e1fico de drogas<\/strong>, se est\u00e1 igualmente discutindo e pensando outras estrat\u00e9gias. Lembro que quando fui a\u00a0<strong>Medell\u00edn<\/strong>, a convite do governo de l\u00e1, o cozinheiro que serviu o jantar para a comitiva era um ex-traficante que havia passado por um processo de acompanhamento para ser reinserido na sociedade. \u00c9 muito f\u00e1cil dizer que o grande traficante est\u00e1 na favela: um menino de chinelo, que n\u00e3o tem escolaridade, preto, que muitas vezes nem saiu daquele lugar. A\u00ed eu pergunto: \u00e9 esse sujeito que movimenta milh\u00f5es nos mercados internacionais? Me desculpe, mas evidente que n\u00e3o \u00e9. Ele \u00e9 a ponta armada, mas no mundo inteiro o tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 financiado por esse sujeito.<\/p>\n<p>Se estamos falando do\u00a0<strong>enfrentamento do tr\u00e1fico de drogas<\/strong>\u00a0\u2013 n\u00e3o estou nem dizendo que temos que ser a favor da legaliza\u00e7\u00e3o, porque sei que eles [<strong>Bolsonaro e Witzel<\/strong>] n\u00e3o s\u00e3o \u2013, h\u00e1 outras estrat\u00e9gias de repress\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o violentas. Outros pa\u00edses do mundo adotaram\u00a0<strong>pol\u00edticas de repress\u00e3o \u00e0s drogas<\/strong>\u00a0atrav\u00e9s da investiga\u00e7\u00e3o e pris\u00e3o dos principais l\u00edderes, coisa que no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0n\u00e3o se faz. Ao contr\u00e1rio, as investiga\u00e7\u00f5es n\u00e3o d\u00e3o em nada. Ent\u00e3o, o que\u00a0<strong>Bolsonaro<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Witzel<\/strong>\u00a0t\u00eam em comum \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pela cortina de fuma\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>H\u00e1 um custo social que n\u00e3o \u00e9 produzido pelos bandidos, mas pela pol\u00edtica\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=H%C3%A1%20um%20custo%20social%20que%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20produzido%20pelos%20bandidos,%20mas%20pela%20pol%C3%ADtica%C2%A0-%20Ana%20Paula%20de%20Miranda%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F592021-da-fabricacao-do-medo-ao-voto-de-cabresto-estrategias-das-milicias-no-avanco-sobre-o-estado-entrevista-especial-com-ana-paula-mendes-de-miranda+via+%40_ihu\">\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 um combate \u00e0s mil\u00edcias como h\u00e1 um combate \u00e0s drogas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 um\u00a0<strong>combate \u00e0s mil\u00edcias<\/strong>\u00a0e a\u00a0<strong>interfer\u00eancia na Pol\u00edcia Federal<\/strong>\u00a0mostra isso.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Justamente a \u00faltima pol\u00eamica empregada pelo presidente Jair Bolsonaro \u00e9 sua inten\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal. Como a senhora l\u00ea esse caso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0Significa que ele nunca achou que iria ter uma\u00a0<strong>Pol\u00edcia Federal independente<\/strong>. Pelo contr\u00e1rio, quem quis acreditar nisso, acreditou porque quis. Na medida em que atrapalha os interesses particulares dele, ele interfere. Ou seja, n\u00e3o tem princ\u00edpios institucionais, porque quando se tem princ\u00edpios institucionais, se assegura que as institui\u00e7\u00f5es tenham o seu funcionamento preservado, seja do ponto de vista financeiro, seja por conta do funcionamento da pol\u00edcia federal.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>interven\u00e7\u00e3o na Pol\u00edcia Federal<\/strong>\u00a0\u00e9 uma clara indica\u00e7\u00e3o de que a\u00a0<strong>PF<\/strong>\u00a0s\u00f3 vai fazer as coisas que o presidente quiser que ela fa\u00e7a. Isso \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica, mas n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica democr\u00e1tica. Quando eu critico essa pol\u00edtica, estou dizendo que ela n\u00e3o \u00e9 adequada aos princ\u00edpios democr\u00e1ticos. Isso \u00e9 um ato partid\u00e1rio de gente que fica dizendo que n\u00e3o tem atos partid\u00e1rios. O\u00a0<strong>Witzel<\/strong>\u00a0e o presidente fazem uma narrativa de que s\u00e3o independentes, mas n\u00e3o s\u00e3o, como o ministro\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/590082-acuado-moro-decepciona-um-pais-com-a-lava-jato-sob-escrutinio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">[S\u00e9rgio] Moro<\/a>\u00a0tamb\u00e9m n\u00e3o foi. Um juiz que vira pol\u00edtico, como no caso do\u00a0<strong>Moro<\/strong>\u00a0e do governador, poderia at\u00e9 n\u00e3o ser partid\u00e1rio antes, mas a partir do momento em que fez a op\u00e7\u00e3o pela pol\u00edtica, passou a ser. Ent\u00e3o s\u00e3o. Vamos parar de mentir e de enganar a popula\u00e7\u00e3o e dizer claramente.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>Bolsonaro e Witzel t\u00eam em comum \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pela cortina de fuma\u00e7a &#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<p><a class=\"button-tweet-intent tweet-intent\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=Bolsonaro%20e%20Witzel%20t%C3%AAm%20em%20comum%20%C3%A9%20uma%20op%C3%A7%C3%A3o%20pela%20cortina%20de%20fuma%C3%A7a%20-%20Ana%20Paula%20de%20Miranda%20http%3A%2F%2Fwww.ihu.unisinos.br%2F592021-da-fabricacao-do-medo-ao-voto-de-cabresto-estrategias-das-milicias-no-avanco-sobre-o-estado-entrevista-especial-com-ana-paula-mendes-de-miranda+via+%40_ihu\">\u00a0Tweet<\/a><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como a senhora observa figuras como o governador Witzel, o ministro da Justi\u00e7a S\u00e9rgio Moro e o presidente Bolsonaro no cen\u00e1rio eleitoral para 2022, considerando tamb\u00e9m a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Paula Mendes de Miranda \u2013<\/strong>\u00a0No\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0temos uma outra vari\u00e1vel: a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/569754-gestao-crivella-e-a-experiencia-modelo-do-projeto-da-iurd-entrevista-especial-com-renata-menezes-e-livia-reis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">presen\u00e7a da Igreja Universal<\/a>, uma vez que o prefeito do Rio de Janeiro [<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/561818-marcelo-crivella-e-o-avanco-dos-evangelicos-no-rio-de-janeiro-e-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcelo Crivella<\/a>] \u00e9 ligado \u00e0\u00a0<strong>Universal<\/strong>. O\u00a0<strong>Rio<\/strong>\u00a0sempre foi uma vitrine e para falar sobre as elei\u00e7\u00f5es, eu preciso voltar \u00e0 primeira elei\u00e7\u00e3o para governador que tivemos no Rio quando o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/107\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonel Brizola<\/a>\u00a0foi eleito. O tema da\u00a0<strong>seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong>\u00a0\u00e9 tema no\u00a0<strong>Rio<\/strong>\u00a0desde sempre desde o in\u00edcio das elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Do ponto de vista das elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, desde a campanha do Brizola, temos uma<strong>\u00a0tens\u00e3o no Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0entre tentar fazer as coisas do ponto de vista do respeito aos direitos\u00a0e\u00a0um discurso da dureza.<\/p>\n<p>Quando o\u00a0<strong>Brizola<\/strong>\u00a0nomeou o coronel\u00a0<strong>Nazareth Cerqueira<\/strong>, que foi o primeiro comandante negro da PM e a primeira pessoa a trazer a discuss\u00e3o sobre o\u00a0<strong>policiamento comunit\u00e1rio<\/strong>\u00a0no pa\u00eds para garantir o direito de ir e vir da popula\u00e7\u00e3o, ele foi acusado de estar negociando com os bandidos. Na \u00e9poca se discutia que n\u00e3o poderia haver a invas\u00e3o de um domic\u00edlio na favela. A\u00a0<strong>pol\u00edcia<\/strong>\u00a0n\u00e3o podia empurrar o p\u00e9 na porta de um barraco e entrar, porque o morador da favela tem tanto direito quanto um morador de\u00a0<strong>classe m\u00e9dia<\/strong>. O policial n\u00e3o pode entrar na minha casa sem um mandado de seguran\u00e7a. Ent\u00e3o, por que ele pode entrar na casa de um morador da favela? Na \u00e9poca, o que estava em discuss\u00e3o era isso e rapidamente a promessa do\u00a0<strong>Moreira Franco<\/strong>\u00a0\u2013 eleito logo depois \u2013 era ris\u00edvel: ele ia acabar com o crime em seis meses.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que para acabar com o crime em seis meses, s\u00f3 com bomba at\u00f4mica. A\u00a0<strong>pol\u00edcia<\/strong>\u00a0n\u00e3o existe para acabar com o crime, e esse \u00e9 o problema equivocado; a pol\u00edcia existe para administrar os resultados dos crimes praticados, para minimizar o impacto para a popula\u00e7\u00e3o, para diminuir o sofrimento da popula\u00e7\u00e3o. Essa narrativa de que queremos fazer as coisas garantindo os direitos sobreposta a uma narrativa de que temos de entregar todo o poder para eles, isso \u00e9 a causa dos males que vivemos hoje.<\/p>\n<h3>Exemplo de Portugal<\/h3>\n<p>Admiramos muito alguns modelos, como o de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/589368-policia-de-portugal-matou-em-10-anos-o-que-a-brasileira-mata-em-2-dias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Portugal<\/a>, mas o pa\u00eds passou por uma\u00a0<strong>reestrutura\u00e7\u00e3o profunda das pol\u00edcias<\/strong>\u00a0ao fim do\u00a0<strong>regime militar<\/strong>\u00a0e mudou completamente a sua forma de agir. Portugal \u00e9 considerado o pa\u00eds mais seguro do mundo ocidental, com a pol\u00edcia menos violenta. Eu morro de rir daquelas pessoas que vivem em\u00a0<strong>Portugal<\/strong>\u00a0e s\u00e3o contra o comunismo e o socialismo, mas n\u00e3o sabem que foram morar em um pa\u00eds socialista.\u00a0<strong>Portugal<\/strong>\u00a0passou por uma mudan\u00e7a pol\u00edtica da sua interven\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<h3>Direitos humanos X For\u00e7a<\/h3>\n<p>O que deve nos preocupar quando pensamos o\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0do passado e o Rio de Janeiro de hoje, \u00e9 que temos mudado de personagens, mas n\u00e3o mudamos a discuss\u00e3o. Os personagens s\u00e3o outros, mas a\u00a0<strong>polariza\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0segue sendo a mesma:\u00a0<strong>direitos humanos<\/strong>, de um lado, como uma coisa negativa, e o\u00a0<strong>uso da for\u00e7a<\/strong>, de outro, como uma coisa positiva. Internacionalmente n\u00e3o existe discuss\u00e3o do uso da for\u00e7a fora da discuss\u00e3o dos direitos humanos. Os pa\u00edses que tomamos como refer\u00eancia utilizam direitos humanos; ningu\u00e9m atira primeiro e pergunta depois. H\u00e1 um controle e capacita\u00e7\u00e3o dos policiais para assegurar essas pr\u00e1ticas. Infelizmente seguimos na mesma discuss\u00e3o sem aprender nada com isso, repetindo o mesmo erro.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ser totalmente pessimista, o que me d\u00e1 alguma esperan\u00e7a \u00e9 ver que dentro das institui\u00e7\u00f5es nem todas as pessoas concordam com isso. Gostaria de lembrar que quando o governador falou de \u201c<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584636-em-favela-do-rio-medo-e-ceticismo-por-snipers\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">atirar na cabecinha<\/a>\u201d, v\u00e1rios policiais se manifestaram contra essa argumenta\u00e7\u00e3o do governador, dizendo que n\u00e3o \u00e9 assim. Ent\u00e3o, temos, por outro lado, no\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>, um corpo de profissionais.<\/p>\n<h3>Diferen\u00e7a nos casos<\/h3>\n<p>Essa talvez seja a principal diferen\u00e7a entre o caso do<strong>\u00a0\u00f4nibus 174<\/strong>\u00a0e o\u00a0<strong>caso da ponte Rio-Niter\u00f3i<\/strong>. No caso do\u00a0<strong>174<\/strong>, o\u00a0<strong>Sandro<\/strong>\u00a0n\u00e3o foi morto durante a opera\u00e7\u00e3o policial, mas no percurso. Todo mundo sabe disso. No caso do\u00a0<strong>William<\/strong>, ao ser alvejado naquela situa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia n\u00e3o tinha como saber que ele tinha uma arma de brinquedo.\u00a0H\u00e1 quem diga que a pol\u00edcia deveria ter negociado mais, mas s\u00f3 a per\u00edcia poder\u00e1 dizer e n\u00e3o cabe a n\u00f3s especularmos sobre isso. Mas tem uma pequena mudan\u00e7a a\u00ed: n\u00e3o houve uma morte ap\u00f3s o ato; ele n\u00e3o foi morto asfixiado durante o transporte, e isso faz uma diferen\u00e7a para n\u00f3s.<\/p>\n<div class=\"news-citacao\">\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\">\n<p class=\"tweet-quote\"><strong>Temos que tomar cuidado com an\u00e1lises simplistas e pensar que uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a \u00e9 a base da garantia de direitos\u00a0&#8211; Ana Paula de Miranda<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h3>Para al\u00e9m do Rio: a quest\u00e3o penitenci\u00e1ria<\/h3>\n<p>Precisamos pensar que embora o\u00a0<strong>Rio de Janeiro<\/strong>\u00a0seja uma vitrine, temos situa\u00e7\u00f5es muito dram\u00e1ticas no resto do pa\u00eds que n\u00e3o s\u00e3o visibilizadas. O que tem acontecido em estados do\u00a0<strong>Norte e Nordeste<\/strong>\u00a0s\u00e3o fen\u00f4menos equivalentes e que n\u00e3o est\u00e3o sendo tratados com a devida gravidade. Com isso, trago um elemento que n\u00e3o apareceu na nossa conversa, que \u00e9 a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/591879-o-crescimento-das-faccoes-no-norte-e-nordeste-e-consequencia-de-um-movimento-de-adesao-e-resistencia-ao-cv-e-ao-pcc-entrevista-especial-com-italo-siqueira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">quest\u00e3o penitenci\u00e1ria<\/a>. A maneira como temos achado e tratado essa discuss\u00e3o, como fora do problema de seguran\u00e7a no pa\u00eds, \u00e9 um equ\u00edvoco. Achar que o\u00a0<strong>PCC<\/strong>\u00a0\u00e9 o respons\u00e1vel por\u00a0<strong>S\u00e3o Paulo<\/strong>\u00a0ser mais tranquilo \u00e9 um perigo, porque significa ent\u00e3o que temos que votar no\u00a0<strong>PCC<\/strong>\u00a0e n\u00e3o nos pol\u00edticos. Achar que eles administram o crime melhor do que a pol\u00edcia e que eles s\u00e3o os pacificadores da ordem social, \u00e9 um problema.<\/p>\n<p>Temos que tomar cuidado com an\u00e1lises simplistas e pensar que uma<strong>\u00a0pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong>\u00a0\u00e9 a base da garantia de direitos. Se n\u00e3o vemos isso como claro, vamos seguir repetindo o erro at\u00e9 que isso seja compreendido. Neste momento temos um agravamento porque estamos num momento de\u00a0<strong>destitui\u00e7\u00e3o de direitos<\/strong>\u00a0e podemos viver um momento ainda pior nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"tweet-intent-box twitter-quote\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1063\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/27_08_ana_paula_miranda_arquivo_pessoal.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"500\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/27_08_ana_paula_miranda_arquivo_pessoal.jpg 800w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/27_08_ana_paula_miranda_arquivo_pessoal-300x188.jpg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/27_08_ana_paula_miranda_arquivo_pessoal-768x480.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do INEAC reproduz aqui entrevista de\u00a0Jo\u00e3o Vitor Santos, publicada no Instituto Humanitas Unisinos,\u00a0com a antrop\u00f3loga Ana Paula Mendes de Miranda (UFF), pesquisadora tamb\u00e9m vinculada ao INCT\/INEAC. \u00a0 Da fabrica\u00e7\u00e3o do medo ao voto de cabresto: estrat\u00e9gias das mil\u00edcias no avan\u00e7o sobre o Estado. Entrevista especial com Ana Paula Mendes de Miranda O epis\u00f3dio&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1064\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">Da fabrica\u00e7\u00e3o do medo ao voto de cabresto: estrat\u00e9gias das mil\u00edcias no avan\u00e7o sobre o Estado. 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