{"id":1114,"date":"2019-10-15T16:07:12","date_gmt":"2019-10-15T16:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1114"},"modified":"2019-10-15T16:07:12","modified_gmt":"2019-10-15T16:07:12","slug":"policias-a-faixa-de-posse-e-o-medo-dos-governantes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1114","title":{"rendered":"POL\u00cdCIAS, A FAIXA DE POSSE E O MEDO DOS GOVERNANTES"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzimos aqui, em nosso site, o artigo POL\u00cdCIAS, A FAIXA DE POSSE E O MEDO DOS GOVERNANTES, da antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Jacqueline Muniz (DSP\/UFF), que foi publicado no Blog faces da viol\u00eancia &#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br\/2019\/10\/09\/policias-a-faixa-de-posse-e-o-medo-dos-governantes\/\">https:\/\/facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br\/2019\/10\/09\/policias-a-faixa-de-posse-e-o-medo-dos-governantes\/<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>POL\u00cdCIAS, A FAIXA DE POSSE E O MEDO DOS GOVERNANTES<\/p>\n<p> Jacqueline Muniz DSP\/UFF<\/p>\n<p>07\/10\/2019. O jornalista Rafael Soares, do O Globo, noticia que um PM do BOPE prop\u00f4s ao chefe do tr\u00e1fico do Complexo da Serrinha, bairro de Madureira, a morte de um oficial do 9\u00ba BPM que comandava opera\u00e7\u00f5es policiais na \u00e1rea. O conte\u00fado da mat\u00e9ria \u00e9 extra\u00eddo do grampo realizado, com autoriza\u00e7\u00e3o judicial, entre 2014 e 2015. O tom de gravidade do ocorrido e de perplexidade pela sua repeti\u00e7\u00e3o revela a import\u00e2ncia da not\u00edcia e que ela n\u00e3o \u00e9 um mero registro factual. O pr\u00f3prio Elio Gaspari a retoma em sua coluna de hoje, na Folha.<\/p>\n<p>Casos noticiados de aluguel da autoridade policial para prop\u00f3sitos pessoais e il\u00edcitos t\u00eam aparecido, com uma regularidade alarmante e, principalmente, como um recurso fundamental para a governan\u00e7a da economia do crime em rede e itinerante. Negociatas retalhistas da carteira de pol\u00edcia chocam porque d\u00e3o a medida qualitativa da extens\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o destas pr\u00e1ticas no cotidiano dos fazeres policiais.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, os arranjos pol\u00edticos com os dom\u00ednios armados no atacado, revelam-se incapazes de absorver e coordenar os acertos policiais no varejo. A articula\u00e7\u00e3o com os mercados il\u00edcitos pelo topo parece se realizar por uma l\u00f3gica de conflito latente e manifesto com os variados acordos sa\u00eddos da base da pir\u00e2mide policial. Tem-se disputas internas por fatias do mercado il\u00edcito nos territ\u00f3rios populares entre integrantes do alto e do baixo escal\u00e3o e dentro dos mesmos n\u00edveis hier\u00e1rquicos. Como resultado, os contratos com os grupos criminosos, tamb\u00e9m em disputa frente a pouca durabilidade dos acordos pol\u00edtico-comerciais, se tornam ainda mais provis\u00f3rios, inst\u00e1veis e de baixa confiabilidade, exigindo atua\u00e7\u00f5es violentas ostentat\u00f3rias, de parte a parte, para fazer valer e atualizar as regras prec\u00e1rias de um jogo econ\u00f4mico milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>A invers\u00e3o informal e a fragmenta\u00e7\u00e3o invis\u00edvel da cadeia de comando e controle policial pela autonomiza\u00e7\u00e3o e particulariza\u00e7\u00e3o do poder de pol\u00edcia, t\u00eam rendimentos significativos para a explora\u00e7\u00e3o de mercados il\u00edcitos. Possibilitam que cada unidade operacional, cada guarni\u00e7\u00e3o e, no limite, cada policial possa fazer, de forma independente, a sua pr\u00f3pria \u201copera\u00e7\u00e3o policial\u201d e promover sua guerra particular, seja em nome de algum interesse p\u00fablico, seja em seu pr\u00f3prio nome. N\u00e3o se explicita uma unidade de comando na gest\u00e3o dos policiamentos p\u00fablicos e nem se observa uma unidade de comando nas atividades policiais ilegais.<\/p>\n<p>As in\u00fameras possibilidades individualizadas de ganhos ilegais por policiais que prestam servi\u00e7os criminosos crescem na medida em que eles s\u00e3o emancipados de qualquer controle institucional e tornam-se livres para operarem de forma avulsa e localista. Isto corresponde a transformar o poder de pol\u00edcia em um cheque em branco a ser preenchido pelo agente da lei com o lastro de suas clientelas acima, abaixo e ao redor. Tem-se tantos arranjos policiais ilegais poss\u00edveis quanto oportunidades de arrendamento de territ\u00f3rios populares para grupos armados.<\/p>\n<p>N\u00e3o me canso de alertar para o processo em curso de autonomiza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do poder de pol\u00edcia que produz governos aut\u00f4nomos e criminosos. N\u00e3o me canso de falar que a viol\u00eancia e a corrup\u00e7\u00e3o policiais s\u00e3o dois lados da mesma moeda negociada dos mercados ilegais que produzem amea\u00e7a para vender prote\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me canso de dizer que n\u00e3o s\u00e3o os meios (de for\u00e7a) que devem determinar os modos e os fins de sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o me canso de repetir que a espada (executora do poder coercitivo da sociedade administrado pelo Estado) n\u00e3o pode, ela mesma, definir a extens\u00e3o e profundidade do seu corte. N\u00e3o me canso de insistir que a espada, entregue a si mesma, corta a l\u00edngua do verbo da pol\u00edtica da esquerda e da direita e rasga a letra da lei. N\u00e3o me canso de esclarecer que a \u201cs\u00edndrome do cabrito\u201d (sobe-desce morro) serve para transformar as pol\u00edcias em mercadorias a servi\u00e7o de interesses corporativistas, de oportunismos pol\u00edtico-partid\u00e1rios e de apropria\u00e7\u00f5es privatistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o me canso de avisar que governantes, iludidos com o \u201ctiro, porrada e bomba\u201d, ficam sitiados em seus gabinetes e perdem o governo da seguran\u00e7a. N\u00e3o me canso de alertar que quando o governante tem medo de comandar as pol\u00edcias, ele torna os policiais inseguros em seu trabalho e os cidad\u00e3os acuados diante de sua pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O medo generalizado tem sido um p\u00e9ssimo conselheiro. Governante, policiais e cidad\u00e3os tornam-se presas f\u00e1ceis das cruzadas moralistas e do estelionato dos senhores da guerra e dos mercadores da prote\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia do bem vai perdendo as ruas para a pol\u00edcia dos bens. Os cidad\u00e3os v\u00e3o perdendo a soberania do ir-e-vir para a sujei\u00e7\u00e3o nos confinamentos grupais e espaciais.<\/p>\n<p>O agravamento do temor tem cumprido o seu papel: destituir as pol\u00edcias de institucionalidade, miliciando os seus recursos e rifando as vidas policiais. O marketing do terror tem produzido o seu principal resultado: fazer crer que matar tem m\u00e9rito e que morrer tem merecimento! Fazer crer que h\u00e1 uma guerra contra o crime, o que d\u00e1 vida e legitima discursos amedrontados e reativos tanto favor\u00e1veis quanto contr\u00e1rios!<\/p>\n<p>N\u00e3o me cansarei de dizer: quem n\u00e3o comanda a seguran\u00e7a n\u00e3o tem como garantir a estabilidade do governo e do exerc\u00edcio de seu pr\u00f3prio poder. V\u00e3o-se as m\u00e3os da caneta que decreta a \u201cpol\u00edtica do abate\u201d. Vai-se a voz que comanda o \u201ctiro na cabecinha\u201d. Fica-se somente com a faixa de posse em um manequim sem medidas, ind\u00edcio de desnorteio emocional e pol\u00edtico, mem\u00f3ria do fracasso j\u00e1 anunciado. Atr\u00e1s de policiais que matam e que morrem, t\u00eam sempre uma pol\u00edcia institucionalmente fraca e um governante vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>* Professora do Departamento de Seguran\u00e7a P\u00fablica da Universidade Federal Fluminense \u2013 UFF<br \/>[13:12, 13\/10\/2019] Jacqueline Muniz: Bjs<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos aqui, em nosso site, o artigo POL\u00cdCIAS, A FAIXA DE POSSE E O MEDO DOS GOVERNANTES, da antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Jacqueline Muniz (DSP\/UFF), que foi publicado no Blog faces da viol\u00eancia &#8211;\u00a0https:\/\/facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br\/2019\/10\/09\/policias-a-faixa-de-posse-e-o-medo-dos-governantes\/ \u00a0 POL\u00cdCIAS, A FAIXA DE POSSE E O MEDO DOS GOVERNANTES Jacqueline Muniz DSP\/UFF 07\/10\/2019. 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