{"id":1157,"date":"2019-12-04T11:32:53","date_gmt":"2019-12-04T11:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1157"},"modified":"2019-12-04T11:32:53","modified_gmt":"2019-12-04T11:32:53","slug":"licenca-para-matar-e-operacoes-diarias-geram-recorde-de-mortos-pela-policia-no-rj","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1157","title":{"rendered":"&#8220;Licen\u00e7a para matar&#8221; e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ"},"content":{"rendered":"<p>O site\u00a0 do INCT INEAC reproduz aqui o artigo da antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Jacqueline Muniz (DSP-UFF),\u00a0<strong>Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ, <\/strong>publicada no site PONTE.ORG &#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/ponte.org\/licenca-para-matar-e-operacoes-diarias-geram-recorde-de-mortos-pela-policia-no-rj\/\">https:\/\/ponte.org\/licenca-para-matar-e-operacoes-diarias-geram-recorde-de-mortos-pela-policia-no-rj\/<\/a>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h1><strong>Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ<\/strong><\/h1>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"has-content-area\" title=\"\u2018Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ\" data-url=\"https:\/\/ponte.org\/licenca-para-matar-e-operacoes-diarias-geram-recorde-de-mortos-pela-policia-no-rj\/\" data-title=\"\u2018Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ\">\n<h4>Letalidade policial este ano atingiu recorde com 1.546 mortes, cerca de 5 por dia; para antrop\u00f3loga Jacqueline Muniz, mil\u00edcias unificam uma \u2018pol\u00edcia para o mal\u2019<\/h4>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-56451\" src=\"https:\/\/ponte.org\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/opera%C3%A7%C3%A3o-policial-mar%C3%A9-rj-Divulga%C3%A7%C3%A3o-Redes-da-Mar%C3%A9.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Opera\u00e7\u00e3o policial em junho deste ano no Complexo da Mar\u00e9 | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Redes da Mar\u00e9<\/figcaption><\/figure>\n<p>O Rio de Janeiro atingiu recorde no n\u00famero de mortos pela pol\u00edcia no estado: foram 1.546 mortos, uma taxa de 9,2 mortes a cada 100 mil habitantes, segundo dados divulgados pelo ISP (Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica). E o ano nem terminou. No ano passado, 1.536 pessoas foram mortas pelo bra\u00e7o armado do Estado. O n\u00famero deste ano \u00e9 o maior desde 1998, quando o ISP come\u00e7ou a s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Os outros dois anos em que houve taxas altas de mortos em a\u00e7\u00f5es policiais foram 2007, com 1.330 mortes (taxa de 8\/100 mil), e 2003, com 1.195 (taxa de 8,6\/100 mil).<\/p>\n<p>J\u00e1 os homic\u00eddios tiveram queda de 20,9%, uma tend\u00eancia vista em outros estados dos pa\u00eds, como o Cear\u00e1, onde, assim como no Rio,<a href=\"https:\/\/ponte.org\/bandido-que-mata-menos-policia-que-mata-mais-a-pacificacao-contraditoria-do-ceara\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0a queda de mortes violentas n\u00e3o representou a queda da letalidade policial<\/a>.<\/p>\n<p>Nesta ter\u00e7a-feira (26\/11), em audi\u00eancia p\u00fablica no Senado, o governador Wilson Witzel (PSC-RJ) afirmou que as mortes pela pol\u00edcia s\u00e3o como um efeito colateral da pol\u00edtica de combate adotada pela gest\u00e3o. \u201cO resultado \u00e9 exatamente um reflexo de uma pol\u00edtica combativa como nunca antes foi realizada\u201d, afirmou, destacando a l\u00f3gica de revide. \u201cO n\u00famero de \u00f3bitos em rela\u00e7\u00e3o ao crime organizado teve um aumento em raz\u00e3o de um combate efetivo do crime organizado pelas nossas for\u00e7as policiais\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0\u00a0<strong>Ponte<\/strong>, Jacqueline Muniz, antrop\u00f3loga e professora de seguran\u00e7a p\u00fablica da UFF (Universidade Federal Fluminense), aponta que o aumento da letalidade deriva de uma op\u00e7\u00e3o deliberada por um policiamento feito a base de opera\u00e7\u00f5es. \u201cAo matar, voc\u00ea produz um ciclo de viol\u00eancia, de vingan\u00e7a e, portanto, de cobrar fatura. Cada morte ter\u00e1 uma fatura cobrada. Voc\u00ea ter\u00e1 uma l\u00f3gica acumulada de viol\u00eancias letais e esse \u00e9 o problema. O que a gente est\u00e1 assistindo \u00e9 o incremento das opera\u00e7\u00f5es apoiadas por um discurso da repress\u00e3o como fim em si mesmo, um liberou geral, uma esp\u00e9cie de licen\u00e7a para matar, que \u00e9 autorizada, em boa medida, pela Justi\u00e7a, atrav\u00e9s da s\u00famula 70\u201d, explica Jacqueline. A s\u00famula 70 versa sobre a f\u00e9 p\u00fablica do agente de seguran\u00e7a, que d\u00e1 poder de prova inconteste \u00e0 palavra de um policial, seja em caso de uma pris\u00e3o seja em uma a\u00e7\u00e3o violenta letal.<\/p>\n<p>Para ela, o dom\u00ednio territorial pelas mil\u00edcias tem grande contribui\u00e7\u00e3o com o atual cen\u00e1rio da seguran\u00e7a p\u00fablica no Rio, seja para explicar a redu\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios, seja para compreender o aumento da letalidade policial. Jacqueline destaca que entre 40% e 50% do territ\u00f3rio est\u00e1 dominado por esses grupos \u201cformados por servidores p\u00fablicos, funcion\u00e1rios do Estado que tem informa\u00e7\u00f5es privilegiadas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea tem boa parte de opera\u00e7\u00f5es policiais acontecendo iminentemente nas \u00e1reas do Comando Vermelho, que seria a principal fac\u00e7\u00e3o, e, portanto, a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o preparando o terreno para ocupa\u00e7\u00e3o miliciana. Como se os policiais fossem feitos de trouxa, eles v\u00e3o l\u00e1 limpam a \u00e1rea, esses governos aut\u00f4nomos criminosos provenientes de dentro do Estado, j\u00e1 que n\u00e3o tem Estado paralelo, s\u00e3o governos aut\u00f4nomos, esses dom\u00ednios armados t\u00eam uma medida de toler\u00e2ncia, uma chancela, um consentimento das estruturas estatais, seja Executivo, Legislativo ou Judici\u00e1rio\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Confira os principais trechos da entrevista com Jacqueline Muniz:<\/p>\n<p><strong>Ponte \u2013 Como avaliar esses indicadores?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013<\/strong>\u00a0A primeira coisa que a gente tem que entender \u00e9 a din\u00e2mica das mortes violentas, e isso inclui a letalidade policial. A primeira delas \u00e9 a forma do registro de todas as mortes intencionais, porque isso d\u00e1 qualidade ao dado e gera confiabilidade para poder evitar ou dirimir a ideia de que voc\u00ea est\u00e1 tendo manipula\u00e7\u00e3o ou mesmo censura. \u00c9 fundamental a transpar\u00eancia dos dados e a publiciza\u00e7\u00e3o para garantir a qualidade e a gente saber do que est\u00e1 falando. A segunda coisa importante \u00e9 que se monitore todas as categorias que se classificam as mortes e as tentativas de morte violenta, n\u00e3o apenas as mortes consumadas. Porque o resultado pode n\u00e3o estar sendo morte, mas a din\u00e2mica de matar, as pr\u00e1ticas violentas que levam \u00e0 morte podem seguir inalteradas. A outra coisa importante \u00e9 controlar a categoria desaparecidos, porque a gente sabe que tem chacina sobretudo na Baixada Fluminense que nem chega a ser registrada, fica s\u00f3 na den\u00fancia dos moradores. Aqui no Rio tem muitas formas de matar e sumir com o corpo. O microondas, o aterro sanit\u00e1rio, dar para os porcos, etc. S\u00e3o din\u00e2micas macabras. Ou seja, precisa saber quanto dessa queda \u00e9 responsabilidade do Estado e quanto o Estado terceirizou para os pr\u00f3prios grupos armados. E abrir esses dados por modalidade ou forma de matar, para que a gente saiba as circunst\u00e2ncias das mortes, a rela\u00e7\u00e3o da v\u00edtima com agressor, o modus operandi dessas mortes para que a gente possa compreender o peso das coisas. A propor\u00e7\u00e3o de mortes est\u00e1 associada a disputas territoriais desses grupos armados? Parte dessas mortes s\u00e3o produzidas e administradas pelo Estado atrav\u00e9s de suas a\u00e7\u00f5es? Seja de enfrentamento, seja pro-ativa ou reativa? As opera\u00e7\u00f5es policiais respondem por quanto dessas mortes? E os acertos no mercado ilegal? Tudo isso a gente precisa responder para que a gente possa saber onde est\u00e1 caindo e se est\u00e1 caindo por uma a\u00e7\u00e3o do Estado ou por uma redefini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da economia criminosa do estado e da cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>Ponte \u2013 E o que que dizer com economia criminosa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013<\/strong>\u00a0O Rio de Janeiro tinha 11% do territ\u00f3rio controlado por mil\u00edcias. Hoje, estima-se, atrav\u00e9s de pesquisas e informa\u00e7\u00f5es da intelig\u00eancia, que j\u00e1 temos em torno de 40% a 50% dos territ\u00f3rios controlados por mil\u00edcia. As mil\u00edcias s\u00e3o formadas por servidores p\u00fablicos, funcion\u00e1rios do Estado que t\u00eam informa\u00e7\u00f5es privilegiadas. Voc\u00ea tem boa parte de opera\u00e7\u00f5es policiais acontecendo iminentemente nas \u00e1reas do Comando Vermelho, que seria a principal fac\u00e7\u00e3o, como se estivessem preparando o terreno para ocupa\u00e7\u00e3o miliciana. Como se os policiais fossem feitos de trouxa, eles v\u00e3o l\u00e1 limpam a \u00e1rea para esses governos aut\u00f4nomos criminosos provenientes de dentro do Estado, j\u00e1 que n\u00e3o tem Estado paralelo, esses dom\u00ednios armados t\u00eam uma medida de toler\u00e2ncia, chancela, consentimento das estruturas estatais, seja do Executivo, do Legislativo e do Judici\u00e1rio. \u00c0 medida que voc\u00ea esta ampliando o monop\u00f3lio das mil\u00edcias, voc\u00ea est\u00e1 produzindo uma esp\u00e9cie de unifica\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia para o mal. Isso tem um impacto decisivo. Se voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais disputando o territ\u00f3rio, matando para ocupar, tem algu\u00e9m fazendo isso por voc\u00ea. Ou seja, j\u00e1 dominou n\u00e3o precisa mais enfraquecer ou destruir o seu oponente comercial. As disputas comerciais armadas est\u00e3o estabilizadas? Essa \u00e9 a quest\u00e3o. Temos v\u00e1rios grupos armados no Rio de Janeiro: Comando Vermelho, as mil\u00edcias, Terceiro Comando, a ADA [Amigos dos Amigos], que est\u00e1 mais enfraquecida.<\/p>\n<p><strong>Ponte \u2013<\/strong>\u00a0<strong>E a que voc\u00ea atribui o aumento da letalidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013\u00a0<\/strong>A letalidade policial, \u00e0 primeira vista, deriva da prolifera\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es policiais. Hoje, no Rio de Janeiro n\u00e3o se policia. N\u00e3o se faz mais policiamento, se faz opera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se tem soberania sobre territ\u00f3rio e popula\u00e7\u00e3o. O que se tem s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es realizadas ou por um batalh\u00e3o ou por uma viatura, num alto grau de desarticula\u00e7\u00e3o do topo com a base, e consequentemente essas opera\u00e7\u00f5es substituem o policiamento e quase sempre s\u00e3o pautadas no confronto. Essas opera\u00e7\u00f5es tendem a produzir um encarecimento da propina, muito mais pelo controle da viol\u00eancia, tendem a encarecer as franquias, os alvar\u00e1s concedidos aos grupos criminosos. Isso tudo leva n\u00e3o s\u00f3 a morte de policiais como um aumento deliberado da vitimiza\u00e7\u00e3o de civis pela pol\u00edcia. N\u00e3o est\u00e1 se tratando de produzir seguran\u00e7a e sim de produzir prote\u00e7\u00e3o a determinados grupos contra outros, a determinados setores da cidade ou do estado contra outros. Precisa ent\u00e3o perguntar seguran\u00e7a para quem, para que e de que maneira. Por isso, antes de comemorar as quedas \u00e9 preciso saber quem \u00e9 que esta contribuindo para essa pseudo paz no Rio? \u00c9 a entrega dos territ\u00f3rios para mil\u00edcias? A produ\u00e7\u00e3o de mortes n\u00e3o cont\u00e9m mortes. Quem est\u00e1 morrendo n\u00e3o est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de mando e lideran\u00e7a dos grupos criminosos o que evidentemente n\u00e3o altera a economia criminosa, a din\u00e2mica criminosa.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-66541\" src=\"https:\/\/ponte.org\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/jacqueline-muniz.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Jacqueline Muniz durante o programa Voz Ativa, da Rede Minas | Foto: reprodu\u00e7\u00e3o\/Rede Minas<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Ponte \u2013 Podemos encarar as opera\u00e7\u00f5es policiais nas favelas como uma pol\u00edtica p\u00fablica de seguran\u00e7a de Witzel? Qual a efici\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013<\/strong>\u00a0A quest\u00e3o \u00e9 o aumento das mortes pela pol\u00edcia deriva deliberadamente de uma op\u00e7\u00e3o de policiamento feito a base de opera\u00e7\u00f5es com uma l\u00f3gica reativa cuja repress\u00e3o torna um fim em si mesmo. Ela produz muitas mortes e n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela redu\u00e7\u00e3o das mortes violentas, porque seria c\u00f4mico se assim o fossem. As mortes violentas intencionais podem estar caindo por outros fatores. \u00c9 preciso lembrar que a incapacita\u00e7\u00e3o de matadores produz impacto. Mas incapacitar n\u00e3o quer dizer matar, porque ao matar voc\u00ea produz um ciclo de viol\u00eancia, de vingan\u00e7a e portanto de cobrar fatura. Cada morte ter\u00e1 uma fatura cobrada. Voc\u00ea ter\u00e1 uma l\u00f3gica acumulada de viol\u00eancias letais e esse \u00e9 o problema. A incapacita\u00e7\u00e3o defensiva, que \u00e9 prender sujeitos, pessoas que mataram, \u00e9 outra coisa. O que a gente est\u00e1 assistindo \u00e9 o incrimento das opera\u00e7\u00f5es, um incremento das opera\u00e7\u00f5es, um discurso da repress\u00e3o como fim em si mesmo, um liberou geral, uma especie de licen\u00e7a para matar que \u00e9 autorizada em boa medida pelo Tribunal de Justi\u00e7a, atrav\u00e9s da s\u00famula 70. \u00c9 importante compreender que isso vale quando aumentar e quando diminuir, porque o que a gente est\u00e1 vendo no Rio de Janeiro \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o de guerras para vender uma falsa paz. \u00c9 o monop\u00f3lio de um grupo criminoso chamado mil\u00edcia. \u00c9 disso que se trata. Quando voc\u00ea tem estabiliza\u00e7\u00e3o na economia criminosa, no dom\u00ednio territorial, as mortes caem. Tanto que a morte administrada pela pol\u00edcia aumentou. A morte administrada pelo crime caiu. O que est\u00e1 caindo s\u00e3o as mortes derivadas dos enfrentamentos entre bandidos armados e est\u00e1 aumentando o n\u00famero de mortes produzidas pela pol\u00edcia em raz\u00e3o do incremento de opera\u00e7\u00f5es em substitui\u00e7\u00e3o ao policiamento. A pol\u00edcia abandonou os territ\u00f3rios que foram licenciados, arrendados para logicas criminosas. Nesse caso, para uma estrutura paramilitar chamada mil\u00edcia. Ela \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, \u00e9 como um partido pol\u00edtico informal e n\u00e3o difere em nada com o que aconteceu em outros pa\u00edses em que se teve uma autonomiza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Ponte \u2013 E qual o efeito disso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013<\/strong>\u00a0O Rio de Janeiro continua com crescente tiroteios que s\u00e3o efeitos publicit\u00e1rios para mudar a planilha de valores dos neg\u00f3cios criminosos. Fabrica-se guerra para vender uma paz. Alvar\u00e1 mais caro, o arrendamento de territ\u00f3rios s\u00e3o neg\u00f3cios. A vida do policial barateia, a vida do cidad\u00e3o tamb\u00e9m. \u00c9 disso que estamos falando. Tem a\u00e7\u00e3o do Estado e do crime e \u00e9 preciso distinguir isso para que a gente entenda o que est\u00e1 em jogo. Precisamos prestar aten\u00e7\u00e3o na s\u00e9rie hist\u00f3rica e ver quais os conflitos dentro e fora do sistema prisional aconteceram, se teve um aumento de chacina, de rebeli\u00f5es, de matan\u00e7as em fun\u00e7\u00e3o de acordos comerciais quebrados e da reconstru\u00e7\u00e3o de novos acordos, novos arranjos e das propinas, dos arregos. Esses arranjos n\u00e3o existem sem o lastro p\u00fablico, sem os dispositivos de seguran\u00e7a p\u00fablica e justi\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 como existirem grupos criminosos produzindo monop\u00f3lio em territ\u00f3rios sem uma medida de toler\u00e2ncia. \u00c9 o Estado quem mata e quem deixa morrer e matar.\u00a0O Rio n\u00e3o esta produzindo seguran\u00e7a. Est\u00e1 matando pessoas. O que est\u00e1 em jogo aqui \u00e9 produzir a inseguran\u00e7a, porque enquanto voc\u00ea fabrica uma sucess\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es voc\u00ea n\u00e3o policia.<\/p>\n<p><strong>Ponte \u2013 O quanto o discurso de guerra \u00e0s drogas, combate ao inimigo, muito usado pelo governador, impacta o profissional da seguran\u00e7a da ponta?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Jacqueline Muniz \u2013<\/strong>\u00a0Toda fala de governante impacta em alguma medida, porque ela d\u00e1 chancela. Para o policial que est\u00e1 na ponta, vem um pensamento assim: \u201cagora liberou geral\u201d, posso fazer o que bem entendo do jeito que eu quiser porque eu tenho costas quentes. Mas isso dura at\u00e9 a p\u00e1gina 3, digamos at\u00e9 a p\u00e1gina 4. Na pr\u00e1tica, \u00e9 o governador pegando carona em l\u00f3gicas perversas criminosas milicianas aut\u00f4nomas. Ele \u00e9 muito mais um garoto propaganda, um ventr\u00edloquo, do que um comandante das pol\u00edcias. Esse discurso, de fato, estimula um acirramento, mas n\u00e3o seria respons\u00e1vel por si mesmo, se a nossa pol\u00edcia fosse aut\u00f4noma, independente, profissionalizada, com dispositivos de controle e governan\u00e7a sobre ela que funcionassem. A\u00ed n\u00e3o importa o maluco que assuma o governo, a pol\u00edcia seguiria sendo a pol\u00edcia da sociedade. Hoje a pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 nem da sociedade, nem do Estado. As opera\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas por qualquer grupelho, desde o policial de alto comando, de m\u00e9dio comando, at\u00e9 o policial da esquina. Existe uma autonomiza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do poder de pol\u00edcia, cada cabe\u00e7a uma senten\u00e7a. E essa l\u00f3gica indica que a mil\u00edcia est\u00e1 dominando, rifando os policiais honestos no Rio de Janeiro e maximizando o seu risco de vida. O policial da ponta est\u00e1 correndo mais risco hoje do que corria antes, porque esse discurso repressivo ele est\u00e1 cansado de saber que n\u00e3o funciona, porque barateia a vida dele e aumenta o risco em que ele est\u00e1 exposto, seja no trabalho seja na folga. As armas dele [do governo constitu\u00eddo] valem menos hoje e seria bom que ele retomasse o governo da seguran\u00e7a. O capital pol\u00edtico dele, a tinta da caneta bic dele est\u00e1 indo embora e ele est\u00e1 ficando ref\u00e9m da quantidade de mortes que ele tem que assinar no gabinete. A pol\u00edcia \u00e9 a pol\u00edtica em armas. Quando a pol\u00edcia atira, quem atira \u00e9 o governante. \u00c9 preciso ter governan\u00e7a e capacidade de governo sobre as pol\u00edcias e hoje n\u00e3o se tem capacidade de governo nas pol\u00edcias nem aqui e nem no resto do pa\u00eds. As pol\u00edcias est\u00e3o sendo aparelhadas por interesses pol\u00edticos partid\u00e1rios e interesses particulares escusos. Uma pol\u00edcia de opera\u00e7\u00f5es \u00e9 uma pol\u00edcia que amedronta e amea\u00e7a todo mundo, inclusive os pr\u00f3prios policiais. Esses resultados que estamos assistindo podem ser creditados a essa autonomiza\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do uso de poder de pol\u00edcia que se traduz no novo Tratado de Tordesilhas que \u00e9 o monop\u00f3lio das mil\u00edcias pelos recursos no Rio de Janeiro. N\u00f3s temos um governo clandestino e ilegal dos recursos de seguran\u00e7a que foram privatizados de maneira ilegal colocando em risco a vida do cidad\u00e3o e do policial. Quando a pol\u00edcia aumenta a quantidade de mortes, ela acaba de refor\u00e7ar uma l\u00f3gica de baratear a vida do policial e isso n\u00e3o vem da pol\u00edcia, isso vem da pol\u00edtica. No curto prazo, governantes cheios de bravatas parecem ganhar alguma coisa, mas logo em seguida, perdem seu capital eleitoral, seu voto, porque n\u00e3o tem como determinar onde come\u00e7a e onde termina a l\u00f3gica da vingan\u00e7a. Por isso esse tipo de discurso \u00e9 perigoso. Essas palavras servem para refor\u00e7ar apenas um grupelho de policiais. Que grupelho \u00e9 esse? Aquele que explora de maneira ilegal a sua carteira de pol\u00edcia, seu poder de pol\u00edcia. Essas bravatas atendem a policiais violentos e corruptos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site\u00a0 do INCT INEAC reproduz aqui o artigo da antrop\u00f3loga e cientista pol\u00edtica Jacqueline Muniz (DSP-UFF),\u00a0Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ, publicada no site PONTE.ORG &#8211;\u00a0https:\/\/ponte.org\/licenca-para-matar-e-operacoes-diarias-geram-recorde-de-mortos-pela-policia-no-rj\/\u00a0\u00a0 \u00a0 Licen\u00e7a para matar\u2019 e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ \u00a0 Letalidade policial este ano&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1157\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Licen\u00e7a para matar&#8221; e opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias geram recorde de mortos pela pol\u00edcia no RJ<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1157","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1157","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1157"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1157\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1157"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1157"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1157"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}