{"id":1173,"date":"2020-01-07T16:41:41","date_gmt":"2020-01-07T16:41:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1173"},"modified":"2020-01-07T16:41:41","modified_gmt":"2020-01-07T16:41:41","slug":"a-cisma-do-brasil-e-o-cisma-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1173","title":{"rendered":"A cisma do Brasil e o cisma do mundo"},"content":{"rendered":"<p>O site do INCT INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;<strong>A cisma do Brasil e o cisma do mundo&#8221;,<\/strong> do professor e antrop\u00f3logo F\u00e1bio Reis Mota, pesquisador vinculado ao INCT\/INEAC, publicado dia 6 de janeiro de 2020, no blog Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica, do jornal O GLOBO &#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/cisma-do-brasil-e-o-cisma-do-mundo.html\">https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/cisma-do-brasil-e-o-cisma-do-mundo.html<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h2>\u00a0<\/h2>\n<h2><strong>A cisma do Brasil e o cisma do mundo<\/strong><\/h2>\n<div class=\"meta\">\u00a0<\/div>\n<div class=\"protected-content\">\n<p align=\"JUSTIFY\">Fabio Reis Mota<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Professor do Departamento e do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia da UFF e Pesquisador do INCT InEAC-UFF<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><a name=\"_GoBack\"><\/a>O Brasil \u00e9 produto de uma cisma. Segundo consta em nossa mem\u00f3ria e narrativa de mito de funda\u00e7\u00e3o, Pedro \u00c1lvares Cabral, um dos viajantes portugueses que colonizou violentamente civiliza\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias inteiras das Am\u00e9ricas e alhures, cismou que as \u00cdndias ficavam nessa terra, onde \u201ctem palmeiras onde canta o sabi\u00e1\u201d.<\/p>\n<div class=\"block__advertising--content retangulo-teads\" data-oglobo-advertising-format=\"in-text\">\u00a0<\/div>\n<p align=\"JUSTIFY\">Cismaram que os \u00edndios n\u00e3o tinham alma, por isso, os dizimaram; cismaram que os negros africanos eram semoventes e adequados ao trabalho manual duro, bem como inumano, e os escravizaram. Cismamos que \u00e9ramos a Europa, o Rio Paris e a Modernidade o nosso futuro. Tudo foi o resultado de uma cisma e, assim, permanecemos cismados.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A pol\u00edcia age cismada, alvejando cidad\u00e3os em \u00e1reas de moradias desprivilegiadas, pelo simples fato de portarem uma cor de pele escura ou at\u00e9 por andarem com guarda-chuva em dias de tempestades; o \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d cisma que o policial \u00e9 o seu servi\u00e7al e deve seguir seus desejos e ditames quando estiver na rua. O funcion\u00e1rio p\u00fablico de uma reparti\u00e7\u00e3o cisma que voc\u00ea n\u00e3o deve obter o documento solicitado, portanto, lan\u00e7a m\u00e3o de uma normativa qualquer, a fim de lhe negar o acesso a um direito ou a um benef\u00edcio. O Estado cisma que somos, por natureza, hipossuficientes, ao nos tutelar em diferentes n\u00edveis da vida, pois cisma sempre conosco, n\u00e3o obstante possuirmos carteira de identidade, CPF, certid\u00e3o de nascimento, certid\u00e3o de casamento, t\u00edtulo de eleitor, CNH, etc., cisma tanto que, com a obriga\u00e7\u00e3o de reconhecer nossa firma em um cart\u00f3rio, por exemplo, em v\u00e1rias circunst\u00e2ncias, pagamos uma boa grana para tal.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No Brasil, podemos acusar as pessoas sem prova, levando-as para a cadeia pela convic\u00e7\u00e3o (ou cisma) apenas. Cismamos que o outro \u00e9 machista, racista, homof\u00f3bico, intolerante, xen\u00f3fobo, a partir de crit\u00e9rios unilateralmente elaborados por parte dos que ensimesmamos outros em suas c\u00e1psulas classificat\u00f3rias, independentemente de os elementos factuais subsidiarem a constru\u00e7\u00e3o de uma cisma, onde o outro \u00e9 o que voc\u00ea projeta sobre ele. Ou seja, a cisma est\u00e1 em todos os cantos do Brasil, em diferentes setores, na \u201cesquerda\u201d e na \u201cdireita\u201d de nossa estrada de forma\u00e7\u00e3o do que somos contemporaneamente. A cisma se encontra nas ra\u00edzes do Brasil. Ademais, ela parece tamb\u00e9m se difundir pelos 4 cantos do mundo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Cabe dizer ao leitor que a cisma difere, substantivamente, da desconfian\u00e7a, pois a raiz desta \u00e9 liberal. A desconfian\u00e7a, como um dispositivo cognitivo e moral, nos moldes como a conhecemos, foi confeccionada no mundo liberal \u2013ordenado pela primazia da raz\u00e3o, da centralidade dos direitos individuais \u2013 em um contexto no qual o reconhecimento do outro se torna imperativo para a conforma\u00e7\u00e3o do reconhecimento de si mesmo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No Antigo Regime, a confian\u00e7a era externa ao indiv\u00edduo, ou seja, as respostas estavam fora das pessoas, haja vista tudo provir das m\u00e3os de um \u201cSer onipresente\u201d. J\u00e1 no liberalismo, a confian\u00e7a em si \u2013 com a emerg\u00eancia da no\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>self<\/i>\u00a0\u2013 resulta na confec\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o p\u00fablico, no qual o bin\u00f4mio confian\u00e7a-desconfian\u00e7a desempenha um papel central ao desenvolvimento do capitalismo e dos sistemas democr\u00e1ticos dos pa\u00edses ocidentais. O liberal Adam Smith, em \u201cRiqueza das Na\u00e7\u00f5es\u201d, chama aten\u00e7\u00e3o para a centralidade da confian\u00e7a \u2013\u00a0<i>trust<\/i>\u00a0\u2013no mercado em uma economia liberal. O fil\u00f3sofo Jean Jacques-Rosseau desenvolve uma compreens\u00e3o da pol\u00edtica, por interm\u00e9dio da representa\u00e7\u00e3o da voz dos cidad\u00e3os, que concede a algu\u00e9m a legitimidade de falar em nome da vontade geral e do bem comum. Confiamos ao outro a legitimidade de falar por um coletivo. Nas grandes metr\u00f3poles da vida urbana, vivemos sob o abrigo de grandes edif\u00edcios, nos quais devemos coabitar com aqueles que n\u00e3o conhecemos, sem saber quem e o que s\u00e3o. Durante todo o s\u00e9culo XX, lutamos com o intuito de firmar esse modo de vida humana, assentado na tensa rela\u00e7\u00e3o entre confian\u00e7a-desconfian\u00e7a e coexist\u00eancia-intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Contudo, adentrando o s\u00e9culo XXI, n\u00f3s nos deparamos com eventos e novas formas de pensamento que vieram solapar o regime da confian\u00e7a e conceder lugar ao regime da cisma. A destrui\u00e7\u00e3o das torres g\u00eameas nos EUA inaugura uma era face \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o de direitos civis de cidad\u00e3os dos EUA, de origem mu\u00e7ulmana sujeitados a uma pol\u00edtica de encarceramento, pela simples cisma de serem esses potenciais terroristas. A pris\u00e3o de Guant\u00e1namo est\u00e1 a\u00ed para contar parte dessa nova hist\u00f3ria. O atentado ao jornal sat\u00edrico Charlie Hebdo, na suntuosa e internacional Paris, bateu no cora\u00e7\u00e3o republicano franc\u00eas em cheio, j\u00e1 ferido pelas m\u00e1goas das guerras de descoloniza\u00e7\u00e3o e pelo complexo processo de assimila\u00e7\u00e3o dos imigrantes ao corpus republicano. Isso ao tornar evidente que nacionais e cidad\u00e3os franceses podiam revelar suas inquieta\u00e7\u00f5es fora do ambiente argumentativo e fazer uso do recurso da linguagem da viol\u00eancia, com o fito de eliminar o que cismamos. Dessa cisma, gerou-se uma outra: a do Governo contra os imigrantes mu\u00e7ulmanos e africanos, por meio de pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica hostis a estes grupos e de uma expans\u00e3o da xenofobia e do racismo, perpetradas por cidad\u00e3os franceses contra outros cidad\u00e3os igualmente franceses, por\u00e9m de origem diversa.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Nossas pesquisas de campo, ordenadas pelo m\u00e9todo etnogr\u00e1fico, apontam que estamos diante de um mundo de ensimesmamento: por interm\u00e9dio de instrumentos da rede e da internet; da emerg\u00eancia de movimentos terraplanistas e contr\u00e1rios \u00e0 Ci\u00eancia; dos movimentos de extrema direita que emergem ao longo do planeta, como no Brasil e nos EUA, representados pelas figuras de chefes de Estado inclusive; da produ\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios de relacionamentos interpessoais, baseados no ensimesmamento, a partir das pol\u00edticas de reivindica\u00e7\u00e3o de identidades diferenciadas; do fechamento de fronteiras nacionais contra os estrangeiros na Europa, nos EUA e na Am\u00e9rica Latina, bem como com o fortalecimento de ide\u00e1rios racistas e xen\u00f3fobos; de massacres, terrorismo, etc. Tudo o que foi mencionado abrange os elementos constituintes dessa nova qu\u00edmica social elaborada pela cisma moderna.A cisma nesses moldes, consequentemente, resulta no cisma, nessa conforma\u00e7\u00e3o de arquip\u00e9lagos humanos, cujas rupturas tect\u00f4nicas criam separa\u00e7\u00f5es eternas e irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Esse diagn\u00f3stico, elaborado no ambiente de uma Universidade P\u00fablica, aponta &#8211; no ano em que celebramos nosso ensimesmamento\u00a0<i>\u00e0 la\u00a0<\/i>brasileira (ritualizado nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais) -, que enquanto no Brasil a tradi\u00e7\u00e3o inquisitorial, analisado por Roberto Kant de Lima, produz uma naturaliza\u00e7\u00e3o da suspei\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do Estado contra os cidad\u00e3os e destes contra si mesmos, nas sociedades capitalistas burguesas, como a francesa ou americana, por exemplo, o espraiamento nas din\u00e2micas sociais da suspei\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica produz uma disson\u00e2ncia cognitiva severa aos indiv\u00edduos preparados a agir a partir de elementos factuais, formulados pela argumenta\u00e7\u00e3o e sob os crit\u00e9rios de justifica\u00e7\u00e3o que tenham generalidade e legitimidade no espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A cisma do Brasil pode levar ao cisma do mundo?<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1172\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/0000000000-fabio-reis-mota.jpg\" alt=\"\" width=\"453\" height=\"604\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/0000000000-fabio-reis-mota.jpg 453w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/0000000000-fabio-reis-mota-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 453px) 100vw, 453px\" \/><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do INCT INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;A cisma do Brasil e o cisma do mundo&#8221;, do professor e antrop\u00f3logo F\u00e1bio Reis Mota, pesquisador vinculado ao INCT\/INEAC, publicado dia 6 de janeiro de 2020, no blog Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica, do jornal O GLOBO &#8211;\u00a0https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/cisma-do-brasil-e-o-cisma-do-mundo.html \u00a0 \u00a0 A cisma do Brasil e o cisma&hellip; 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