{"id":1183,"date":"2020-03-25T20:28:46","date_gmt":"2020-03-25T20:28:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1183"},"modified":"2020-03-25T20:28:46","modified_gmt":"2020-03-25T20:28:46","slug":"o-invisivel-bate-a-porta-crise-economica-deflagrada-pelo-novo-coronavirus-evidencia-tradicao-escravocrata-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1183","title":{"rendered":"O invis\u00edvel bate \u00e0 porta: crise econ\u00f4mica deflagrada pelo novo coronav\u00edrus evidencia tradi\u00e7\u00e3o escravocrata do Brasil"},"content":{"rendered":"<h1 id=\"page-title\" class=\"title\">O invis\u00edvel bate \u00e0 porta: crise econ\u00f4mica deflagrada pelo novo coronav\u00edrus evidencia tradi\u00e7\u00e3o escravocrata do Brasil, denunciam pesquisadores da UFF<\/h1>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fecharam escolas e universidades. Teatros, cinemas, casas de show. Praias, parques p\u00fablicos e alguns dos acessos \u00e0 cidade. As pessoas se recolheram para dentro de casas e quase j\u00e1 n\u00e3o se pode mais ouvir barulhos nas cal\u00e7adas, antes movimentadas e apinhadas de gente. Ainda assim, de tempos em tempos, se escuta o rangido de alguma moto atravessando a avenida em alta velocidade. S\u00e3o eles: os entregadores de servi\u00e7os por delivery. Passam pelos condom\u00ednios deixando refei\u00e7\u00f5es sem que ningu\u00e9m os veja, pois assim \u00e9 mais \u201cseguro\u201d \u2013 invis\u00edveis, como o v\u00edrus que todos passaram a temer.<\/p>\n<p>Esse poderia ser o trecho de algum livro de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica fantasiado por um escritor no passado remoto da humanidade; pelo contr\u00e1rio, retrata de forma crua a mudan\u00e7a abrupta que se instaurou, em escala planet\u00e1ria, nos modos de organiza\u00e7\u00e3o da vida em sociedade, desde a emerg\u00eancia da pandemia do COVID-19 no mundo.<\/p>\n<p>No Brasil, em especial, que tem buscado se adaptar a essa nova realidade, mais recentemente em compara\u00e7\u00e3o com outras na\u00e7\u00f5es, tem chamado a aten\u00e7\u00e3o de pesquisadores uma quest\u00e3o, dentre tantas outras emergentes no momento, sobre as desigualdades estruturais que est\u00e3o na base da nossa organiza\u00e7\u00e3o social e que sinalizam para como temos, at\u00e9 agora, vivenciado essa situa\u00e7\u00e3o de crise.<\/p>\n<p>O entregador do delivery que chega \u00e0s nossas casas, se expondo \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o e sem receber um adicional de insalubridade por isso, por exemplo, \u00e9 uma pe\u00e7a-chave para a compreens\u00e3o desse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Convidados a abrir uma discuss\u00e3o com a comunidade universit\u00e1ria e a sociedade civil sobre o assunto, os professores Roberto Kant de Lima, Pedro Heitor Barros Geraldo, Fabio Reis Mota, Frederico Policarpo e Fl\u00e1via Medeiros, respectivamente coordenador e pesquisadores do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos da UFF \u2013 INCT-InEAC, assim como o professor do Departamento de Economia da Universidade, Ruy Afonso de Santacruz Lima, desenvolveram algumas reflex\u00f5es em torno do tema.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Nas sociedades normalizadas, a previsibilidade \u00e9 uma caracter\u00edstica essencial do funcionamento do mercado e a imprevisibilidade atual abala profundamente seus fundamentos. J\u00e1 no Brasil, onde o imprevisto \u00e9 a regra, e o mercado n\u00e3o funciona como nas sociedades ocidentais mais avan\u00e7adas, seria a solidariedade (como descrito no recente discurso da chanceler alem\u00e3 Angela Merkel), que poderia alargar esse horizonte de previs\u00e3o poss\u00edvel. &#8211;\u00a0Equipe do INCT-InEAC<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>De acordo com o grupo de pesquisadores do INCT-InEAC, \u201ca pandemia torna expl\u00edcita nossa tradi\u00e7\u00e3o escravocrata ao colocar em risco pessoas e setores mais vulner\u00e1veis da sociedade que hoje se encontram numa condi\u00e7\u00e3o ainda mais prec\u00e1ria e perigosa quanto ao seu direto ao trabalho, bem como sua seguran\u00e7a sanit\u00e1ria, j\u00e1 que milh\u00f5es de trabalhadores e trabalhadoras s\u00e3o obrigados de forma desumana a cumprirem suas jornadas de trabalho, inclusive sem as prote\u00e7\u00f5es sociais e sanit\u00e1rias necess\u00e1rias nesse momento de crise\u201d.<\/p>\n<p>Essa precariza\u00e7\u00e3o progressiva das condi\u00e7\u00f5es de trabalho est\u00e3o relacionadas, como descreve o professor Ruy Santacruz, ao fen\u00f4meno de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, que t\u00eam atra\u00eddo muitas pessoas para empregos sem carteira assinada e que constitui uma tend\u00eancia em todo o mundo, em especial no Brasil. De acordo com o economista, embora condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho n\u00e3o\u00a0 sejam exatamente uma novidade no pa\u00eds, o aumento do desemprego muito aceleradamente desde 2013 gerou as condi\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o de uma grande massa de trabalhadores informais, a exemplo dos entregadores de delivery.<\/p>\n<p>O processo de \u2018uberiza\u00e7\u00e3o\u2019 do trabalho no Brasil, explicam os professores do INCT-InEAC, \u201cn\u00e3o vem associado ao desenvolvimento dos direitos de cidadania, do exerc\u00edcio do trabalho livre e aut\u00f4nomo, mas, pelo contr\u00e1rio, acentua a precariedade dos direitos trabalhistas e das rela\u00e7\u00f5es entre patr\u00e3o e empregado, tornando essa forma ainda algo mais perversa que a da escravid\u00e3o. Isso porque no sistema escravocrata o Senhor devia, por direito e interesse, assegurar a vida e um relativo bem-estar para a sobreviv\u00eancia de sua propriedade, de seus escravos. Nessa escravid\u00e3o contempor\u00e2nea, esses prestadores de servi\u00e7o s\u00e3o colocados em uma situa\u00e7\u00e3o de total desamparo, com a inexist\u00eancia de seguran\u00e7a trabalhista por parte de seus empregadores e da prote\u00e7\u00e3o do Estado quanto ao exerc\u00edcio de seus direitos\u201d, enfatizam.<\/p>\n<p>N\u00e3o haveria, ent\u00e3o, \u201cuma estrutura jur\u00eddica para garantir um m\u00ednimo de direitos comuns a todos os diferentes cidad\u00e3os, mas um conjunto de privil\u00e9gios atribu\u00eddos a certos segmentos da sociedade, sejam eles detentores do capital ou trabalhadores. Essa naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade jur\u00eddica \u00e9 express\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es culturais de uma sociedade hierarquizada e, portanto, tamb\u00e9m refer\u00eancia e suporte para sua reprodu\u00e7\u00e3o. A pandemia coloca em evid\u00eancia mais uma vez a naturaliza\u00e7\u00e3o das desigualdades estruturais de nossa sociedade em seus diferentes n\u00edveis\u201d.<\/p>\n<p>Com esse abismo de condi\u00e7\u00f5es de vida separando a massa de trabalhadores informais das classes m\u00e9dias e das elites, s\u00e3o tamb\u00e9m muito distantes entre si as possibilidades de viv\u00eancia e supera\u00e7\u00e3o desse per\u00edodo de crise por parte desses grupos sociais. De acordo com a equipe de pesquisadores, \u201cas chamadas medidas restritivas de circula\u00e7\u00e3o e a necessidade de praticarmos um \u2018isolamento social\u2019 coloca o foco na suposi\u00e7\u00e3o de que todos temos o exerc\u00edcio de um direito m\u00ednimo \u00e0 moradia, o que n\u00e3o \u00e9 verdadeiro. O problema habitacional no Brasil faz com que nos deparemos com infraestruturas urbanas altamente precarizadas, como por exemplo, as das denominadas favelas ou \u2018comunidades\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Em contraste, \u201cos segmentos superiores da sociedade, al\u00e9m de poder ficar no conforto de suas casas, podem deslocar-se para as casas de campo e veraneio, se &#8220;isolar&#8221; com suas fam\u00edlias. Claro que com toda a estrutura de empregados e servi\u00e7os \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, mostrando a total falta de solidariedade e de compaix\u00e3o com a situa\u00e7\u00e3o com os trabalhadores dom\u00e9sticos\u201d, destacam.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os pesquisadores mencionam as dificuldades impostas \u00e0s mulheres nessa nova conforma\u00e7\u00e3o social, como a sobrecarga do trabalho dom\u00e9stico por parte das m\u00e3es que tomam conta sozinhas dos filhos. Como efeito perverso desse confinamento, destaca-se o aumento do registro de casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica e de feminic\u00eddios, \u201co que nos faz refletir sobre as condi\u00e7\u00f5es sociais e emocionais que definem o \u2018lar\u2019 e a casa, ambientes vinculados aos pap\u00e9is sociais das mulheres e que se tornam o principal terreno para a emerg\u00eancia dos conflitos\u201d.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m outro fator ressaltado pelos pesquisadores que torna essa situa\u00e7\u00e3o de crise ainda mais dram\u00e1tica para os trabalhadores informais: a falta de confian\u00e7a nas autoridades p\u00fablicas. Somada \u00e0 falta de prote\u00e7\u00e3o no trabalho, gera-se uma significativa limita\u00e7\u00e3o da difus\u00e3o de pol\u00edticas restritivas compreens\u00edveis para a sociedade. Isso provocaria o descumprimento dessas pol\u00edticas, \u201cseja por necessidade, seja pela arrog\u00e2ncia daqueles que se acham acima da lei e das regras, comum aos segmentos superiores de nossa sociedade. Para complexificar mais ainda o problema, essas medidas se tornaram objeto de disputa pol\u00edtica, em um governo federal que se alimenta de crises para fortalecer-se no poder e ocultar seus eventuais descaminhos\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com o professor de economia Ruy Santacruz, caberia, frente a esse cen\u00e1rio, a ado\u00e7\u00e3o em car\u00e1ter de urg\u00eancia por parte do governo de medidas como \u201caumentar o n\u00famero de fam\u00edlias atendidas pelo Bolsa Fam\u00edlia, dobrar o seu valor, criar um mecanismo de renda extra para trabalhadores aut\u00f4nomos, suspender o pagamento de \u00e1gua, luz, g\u00e1s e aluguel para trabalhadores de baixa renda (medidas j\u00e1 adotadas pelo governo franc\u00eas), suspender cobran\u00e7a de impostos das empresas para evitar que lancem m\u00e3o de demiss\u00f5es em massa, conceder cr\u00e9dito subsidiado para capital de giro das empresas, entre outras coisas\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>J\u00e1 os pesquisadores do INCT-InEAC apontam para a necessidade de estabelecer uma ponte com os pol\u00edticos profissionais, que seriam capazes de articular os atores sociais indispens\u00e1veis para coordenar as a\u00e7\u00f5es coletivas. \u201cEsperemos que os senadores, deputados, vereadores, prefeitos e governadores possam estar \u00e0 altura deste desafio de articular as a\u00e7\u00f5es com o apoio de outras inst\u00e2ncias estatais, como o judici\u00e1rio e os operadores do direito. Afinal, precisaremos dominar a l\u00f3gica burocr\u00e1tica operada pelos juristas para acelerar processos de aquisi\u00e7\u00e3o de bens e legitimar medidas emergenciais. A\u00e7\u00f5es da sociedade civil s\u00e3o tamb\u00e9m importantes, mas necessitam de apoio e coordena\u00e7\u00e3o por parte do Estado. O aparato estatal \u00e9 capilarizado e poderia distribuir melhor os recursos dessas iniciativas\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Em tom de grande preocupa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de esperan\u00e7a, a equipe concluiu dizendo que: \u201co futuro depende de nossas decis\u00f5es, que produziremos coletivamente agora. Os indicadores comparativos existentes n\u00e3o s\u00e3o positivos. Ainda precisamos avaliar os impactos das medidas sanit\u00e1rias restritivas e n\u00e3o sabemos se somos suficientemente solid\u00e1rios para evitar uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria. Devemos considerar que nosso mundo \u00e9 feito de crises. Vivemos em crises sistem\u00e1ticas, pois essa foi a op\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social que a sociedade ocidental escolheu. Progn\u00f3sticos para o futuro costumam ser proje\u00e7\u00f5es de eventos passados mas, aparentemente, este \u00e9 um evento \u2013 e um v\u00edrus \u2013 com caracter\u00edsticas desconhecidas. Nas sociedades normalizadas, a previsibilidade \u00e9 uma caracter\u00edstica essencial do funcionamento do mercado e a imprevisibilidade atual abala profundamente seus fundamentos. J\u00e1 no Brasil, onde o imprevisto \u00e9 a regra, e o mercado n\u00e3o funciona como nas sociedades ocidentais mais avan\u00e7adas, seria a solidariedade (como descrito no recente discurso da chanceler alem\u00e3 Angela Merkel), que poderia alargar esse horizonte de previs\u00e3o poss\u00edvel. Ent\u00e3o, quem sabe iremos acentuar ainda mais nosso fechamento para o outro, com o refor\u00e7o de ideologias nacionalistas e territorialistas \u2013 pautadas pela ideia de que \u201cfarinha pouco, meu pir\u00e3o primeiro\u201d \u2013 ou, pelo contr\u00e1rio, iremos produzir um sentido de universalidade da humanidade que confira \u00e0s pr\u00e1ticas sociais um outro modo de fazer a sociedade, fundada na compreens\u00e3o de que somos uma coletividade planet\u00e1ria. Mas isso, s\u00f3 o futuro nos dir\u00e1\u201d, concluem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1182\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"958\" height=\"542\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-scaled.jpg 2560w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-300x170.jpg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-1024x580.jpg 1024w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-768x435.jpg 768w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-1536x870.jpg 1536w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-2048x1159.jpg 2048w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/delivery-1568x888.jpg 1568w\" sizes=\"auto, (max-width: 958px) 100vw, 958px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O invis\u00edvel bate \u00e0 porta: crise econ\u00f4mica deflagrada pelo novo coronav\u00edrus evidencia tradi\u00e7\u00e3o escravocrata do Brasil, denunciam pesquisadores da UFF \u00a0 Fecharam escolas e universidades. 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