{"id":1329,"date":"2020-10-05T23:09:10","date_gmt":"2020-10-05T23:09:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1329"},"modified":"2020-10-05T23:09:10","modified_gmt":"2020-10-05T23:09:10","slug":"policia-e-racismo-ha-solucao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1329","title":{"rendered":"Pol\u00edcia e racismo: h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>O site do INCT INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;<strong>Pol\u00edcia e racismo: h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o ?&#8221;, <\/strong>escrito pela soci\u00f3loga e pesquisadora do Ineac\u00a0Jacqueline Sinhoretto (UFSCAR) e<strong>\u00a0<\/strong>publicado na coluna Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica de O Globo\u00a0 &#8211; https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/policia-e-racismo-ha-solucao.html<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edcia e racismo: h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Em 2020, o aumento da viol\u00eancia policial foi registrado em estat\u00edstica e filmagens, e foi objeto de uma decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal que proibiu o estado do Rio de Janeiro de realizar opera\u00e7\u00f5es em favelas durante a quarentena da pandemia. O tema do racismo na a\u00e7\u00e3o policial se imp\u00f4s ao debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>Uma equipe de pesquisa trabalhou, durante tr\u00eas anos, dados sobre desigualdades raciais produzidas em abordagens policiais, nas pris\u00f5es em flagrante e nas mortes cometidas em a\u00e7\u00f5es das pol\u00edcias em S\u00e3o Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, entre 2008 e 2017. Os resultados da pesquisa\u00a0Policiamento Ostensivo e Rela\u00e7\u00f5es Raciais\u00a0s\u00e3o contundentes.<br \/>Os policiais associam pessoas negras a atitudes \u201csuspeitas\u201d. A propor\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es em flagrante de pessoas negras em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s brancas chega a ser at\u00e9 quatro vezes maior (ponderando o n\u00famero de brancos e negros na popula\u00e7\u00e3o). As pessoas negras s\u00e3o alvo mais frequente de uso letal da for\u00e7a. A depender do ano e do distrito, a chance matem\u00e1tica de uma pessoa negra ser morta pela pol\u00edcia \u00e9 de 3 a 7 vezes maior do que a chance de um branco receber o mesmo tratamento. Esse quadro foi obtido por meio de dados oficiais de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, pois a defici\u00eancia das estat\u00edsticas dificulta fazer o acompanhamento em todos os estados.<br \/>Em geral, o leigo interpreta esses dados como indicadores de que pessoas negras cometem mais crimes, por isso a pol\u00edcia as prende e mata com maior frequ\u00eancia. Os dados n\u00e3o sustentam essa conclus\u00e3o, pois os crimes mais violentos ocorrem em \u00e1reas da cidade e em hor\u00e1rios que n\u00e3o s\u00e3o os mesmos em que as a\u00e7\u00f5es policiais mais violentas acontecem. Ou seja, olhando os dados, com os quais as pr\u00f3prias pol\u00edcias executam seu planejamento, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deduzir que a viol\u00eancia da pol\u00edcia seja uma resposta necess\u00e1ria \u00e0 viol\u00eancia do crime. Ela \u00e9 uma decis\u00e3o de a\u00e7\u00e3o policial sobre o n\u00edvel de for\u00e7a que ir\u00e1 usar contra a atitude considerada \u201csuspeita\u201d. Foi isso que dezenas de policiais entrevistados explicaram aos pesquisadores sobre a pr\u00e1tica do policiamento.<br \/>Podemos concluir que policiais s\u00e3o racistas porque \u00e9 deles a decis\u00e3o de parar uma pessoa ou de usar a for\u00e7a letal numa ocorr\u00eancia, e que eles tomam essa decis\u00e3o com uma facilidade tr\u00eas vezes maior quando veem uma pessoa negra? Sim e n\u00e3o. Os pr\u00f3prios policiais explicam que boa parte do seu trabalho \u00e9 baseado na busca ativa de atitudes suspeitas. Quando explicam o que seriam essas atitudes, a grande maioria dos policiais descreve caracter\u00edsticas corporais, de vestimenta, de gestual, de modo de andar e olhar, e at\u00e9 de cortar o cabelo. Dessa forma, n\u00e3o s\u00e3o atitudes impessoais que eles procuram, mas tipos f\u00edsicos considerados afeitos ao crime. Dito de outra forma, o trabalho policial depende fundamentalmente de estere\u00f3tipos sobre o corpo e caracter\u00edsticas culturais forjadas pelo racismo.<br \/>Antes de concluir que a culpa \u00e9 dos maus policiais, \u00e9 preciso interrogar o que fazem as organiza\u00e7\u00f5es policiais para evitar que esse olhar discriminat\u00f3rio dos profissionais da seguran\u00e7a reproduza o racismo da sociedade brasileira. Muito pouco. Os cursos preparat\u00f3rios n\u00e3o discutem diretamente os efeitos perversos do uso da for\u00e7a letal ou da filtragem racial, que v\u00e3o desde o constrangimento sist\u00eamico das pessoas negras em sua liberdade de ir e vir, \u00e0 experi\u00eancia de ser v\u00edtima da brutalidade policial; da desconfian\u00e7a sistem\u00e1tica na rela\u00e7\u00e3o pol\u00edcia-sociedade, at\u00e9 a impunidade de pessoas brancas que cometem crimes sem se tornarem alvo da vigil\u00e2ncia das guarni\u00e7\u00f5es. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a maioria dos processados por homic\u00eddio \u00e9 de brancos \u2013 que n\u00e3o s\u00e3o geralmente considerados suspeitos.<br \/>As pol\u00edcias n\u00e3o ensinam outros m\u00e9todos de como fazer o trabalho preventivo sem que os policiais tenham que usar o olhar sobre o corpo como \u00fanica base de sua decis\u00e3o de intervir. Mesmo a tecnologia de informa\u00e7\u00e3o empregada na a\u00e7\u00e3o policial est\u00e1 baseada em identificar corpos e rostos suspeitos e destac\u00e1-los da multid\u00e3o. Mapas criminol\u00f3gicos, c\u00e2meras, tablets e celulares s\u00e3o apoios tecnol\u00f3gicos ao velho m\u00e9todo de \u201creconhecer\u201d as marcas da mente criminosa no corpo. A diferen\u00e7a entre o que se fazia no tempo das teorias do racismo cient\u00edfico \u00e9 que os aparatos tecnol\u00f3gicos de hoje custam muito mais dinheiro aos cofres p\u00fablicos.<br \/>Os policiais negros ouvidos pela pesquisa sabem que o m\u00e9todo \u00e9 discriminat\u00f3rio e violento. Eles contam situa\u00e7\u00f5es em que s\u00e3o parados em blitzes de tr\u00e2nsito dirigindo os carros que seus sal\u00e1rios podem comprar, mas que n\u00e3o s\u00e3o comuns nas camadas sociais de que s\u00e3o origin\u00e1rios. Contam do receio que sentem das situa\u00e7\u00f5es em que seus colegas em servi\u00e7o podem considerar suspeito um negro dirigir um bom carro. Os policiais nascidos nas periferias tamb\u00e9m apontam o erro de achar que a roupa defina o comportamento criminoso, por se tratar da express\u00e3o cultural da juventude das periferias. Uma policial contou como se sente quando seus colegas decidem parar pessoas pela roupa que est\u00e3o usando, pois aquela roupa \u201cmarcada\u201d \u00e9 a que tamb\u00e9m usam seus irm\u00e3os e primos, jovens negros das periferias.<br \/>Os policiais tamb\u00e9m afirmam o orgulho de participar de uma corpora\u00e7\u00e3o que emprega profissionais negros e favorece sua ascens\u00e3o social, por meio do concurso p\u00fablico. Para profissionais negros que se tornam comandantes de \u00e1rea, que t\u00eam a oportunidade de estudar, de participar de espa\u00e7os de delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a profiss\u00e3o policial foi o caminho seguro de obter respeito e melhoria de vida para sua fam\u00edlia. Como um policial negro poderia admitir, sem media\u00e7\u00f5es, que essa corpora\u00e7\u00e3o que o acolheu e o incentivou reproduz o racismo?<br \/>Problemas complexos n\u00e3o t\u00eam respostas simples. Os policiais hoje s\u00e3o parte ativa da pol\u00edtica do pa\u00eds, querem sair da posi\u00e7\u00e3o de quem apenas cumpre ordens para participarem das decis\u00f5es sobre os rumos da sociedade, com milhares de candidaturas pelo pa\u00eds. Assim como os policiais n\u00e3o s\u00e3o passivos diante das quest\u00f5es sociais, a sociedade tem o direito de participar das decis\u00f5es que afetam o direito \u00e0 vida segura, a igualdade de tratamento e o combate aos abusos da a\u00e7\u00e3o policial.<br \/>O STF reconheceu a urg\u00eancia e a gravidade da viol\u00eancia policial, cujas consequ\u00eancias s\u00e3o cru\u00e9is e perversas para toda a popula\u00e7\u00e3o, em especial negra. Policiais e pol\u00edcias t\u00eam um papel diante da injusti\u00e7a hist\u00f3rica que produz o racismo. \u00c9 a hora de discutirmos a s\u00e9rio quais s\u00e3o os objetivos das pol\u00edcias e os seus limites, seus custos e seus resultados. \u00c9 necess\u00e1rio debater abertamente como eliminar a filtragem racial e democratizar os padr\u00f5es de policiamento. O fato de o racismo ser sist\u00eamico obriga a todos n\u00f3s da gera\u00e7\u00e3o presente ao compromisso de derrot\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para conhecer a pesquisa acesse:\u00a0www.gevac.ufscar.br<br \/>Jacqueline Sinhoretto, soci\u00f3loga, professora da UFSCar, pesquisadora do INCT-InEAC e do CNPq<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1328\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/jac2750x400.jpg\" width=\"750\" height=\"400\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/jac2750x400.jpg 750w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/jac2750x400-300x160.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do INCT INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;Pol\u00edcia e racismo: h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o ?&#8221;, escrito pela soci\u00f3loga e pesquisadora do Ineac\u00a0Jacqueline Sinhoretto (UFSCAR) e\u00a0publicado na coluna Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica de O Globo\u00a0 &#8211; https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/policia-e-racismo-ha-solucao.html Pol\u00edcia e racismo: h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o? 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