{"id":1435,"date":"2020-12-07T15:12:31","date_gmt":"2020-12-07T15:12:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1435"},"modified":"2020-12-07T15:12:31","modified_gmt":"2020-12-07T15:12:31","slug":"afinal-de-que-valem-titulos-universitarios-fora-do-mercado-academico","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1435","title":{"rendered":"Afinal, de que valem t\u00edtulos universit\u00e1rios fora do mercado acad\u00eamico?"},"content":{"rendered":"<p>Disponibilizamos aqui o artigo &#8220;AFINAL, DE QUE VALEM T\u00cdTULOS UNIVERSIT\u00c1RIOS FORA DO MERCADO ACAD\u00caMICO ?&#8221;, escrito pelos pesquisadores, vinculados ao INCT\/INEAC, Pedro Heitor Barros Geraldo, Rafael Mario Iorio Filho e Roberto Kant de Lima . O texto foi publicado no Blog Ci\u00eancia e Matem\u00e1tica do O Globo, nessa segunda feira 7\/12 , no endere\u00e7o\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/afinal-de-que-valem-titulos-universitarios-fora-do-mercado-academico.html\">https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/afinal-de-que-valem-titulos-universitarios-fora-do-mercado-academico.html<\/a><\/p>\n<p>Confira abaixo o artigo.<\/p>\n<p><strong>Afinal, de que valem t\u00edtulos universit\u00e1rios fora do mercado acad\u00eamico?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Pedro Heitor Barros Geraldo, Rafael Mario Iorio Filho e Roberto Kant de Lima N\u00e3o faz muito tempo tivemos um novo epis\u00f3dio de divulga\u00e7\u00e3o pela m\u00eddia de t\u00edtulos acad\u00eamicos fake impregnando o curr\u00edculo de pol\u00edticos e juristas em busca de fama e prest\u00edgio que lhes qualificasse em disputas por cargos no Executivo e no Judici\u00e1rio.Como todos certamente se lembram, isso tem se repetido h\u00e1 algum tempo, tendo sido um doutorado em Economia da Unicamp atribu\u00eddo \u00e0 Presidente Dilma um dos primeiros epis\u00f3dios desta leva de fake-t\u00edtulos. No entanto, os epis\u00f3dios na atual administra\u00e7\u00e3o federal apresentam maior complexidade. Ao mesmo tempo que a ci\u00eancia na universidade p\u00fablica brasileira \u00e9 desafiada pela pandemia, ela \u00e9 surpreendentemente n\u00e3o s\u00f3 negada p\u00fablica expl\u00edcita e sistematicamente por autoridades pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m objeto de cortes dr\u00e1sticos de recursos.Esquecem-se de que sem ela n\u00e3o haveria profissionais especializados de n\u00edvel superior, hoje indispens\u00e1veis \u00e0 qualidade da vida nas mais diferentes \u00e1reas p\u00fablica e privada, que v\u00e3o da sa\u00fade, \u00e0 seguran\u00e7a, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil, para apenas mencionar algumas delas. Ent\u00e3o, por que ao mesmo tempo em que se nega a relev\u00e2ncia das institui\u00e7\u00f5es que formam esses profissionais, seus graus acad\u00eamicos se tornam objeto de desejo e mesmo de vantagem para a promo\u00e7\u00e3o de trajet\u00f3rias profissionais? Ora, o Curr\u00edculo Lattes \u00e9 uma plataforma de pesquisadores brasileiros, aonde se registram os t\u00edtulos e os produtos de suas atividades. A partir de sua cria\u00e7\u00e3o na segunda metade do s\u00e9culo passado, constituem um instrumento de avalia\u00e7\u00e3o dos seus usu\u00e1rios, assim como um cart\u00e3o de visitas internacional dos pesquisadores que nele inscrevem seus curr\u00edculos. Este esfor\u00e7o institucional induzido por muitas pol\u00edticas de avalia\u00e7\u00e3o da pesquisa brasileira foi reconhecido internacionalmente numa publica\u00e7\u00e3o na revista Nature como um exemplo de \u201cboa pr\u00e1tica\u201d, criando uma comunidade virtual de pesquisadores e pol\u00edticas de incentivo ao seu uso. A normaliza\u00e7\u00e3o das formas de apresenta\u00e7\u00e3o das realiza\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas permite racionalizar o trabalho dos pesquisadores e estabelecer indicadores de m\u00e9rito acad\u00eamico compar\u00e1veis reconhecidos pelas diferentes comunidades cient\u00edficas. Todas as incont\u00e1veis avalia\u00e7\u00f5es no meio acad\u00eamico \u2013 concursos, progress\u00f5es funcionais, convites para consultorias, cargos de magist\u00e9rio, gest\u00e3o acad\u00eamica, etc., servem-se desse instrumento para localizar e para ranquear os profissionais de mesma \u00e1rea, ou mesmo de \u00e1reas distintas. Tamb\u00e9m registram suas conquistas acad\u00eamicas, os pr\u00eamios, graus e t\u00edtulos obtidos em sua trajet\u00f3ria, tendo sempre que estar articulados a financiamentos e premia\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e transparentes. Enfim, o CVLattes, como \u00e9 chamado, tornou-se um elemento constitutivo da academia e dos profissionais da pesquisa no Brasil. O CV Lattes tamb\u00e9m \u00e9 o resultado de uma maior especializa\u00e7\u00e3o da atividade de pesquisa distinguindo-a da atividade docente. Esta distin\u00e7\u00e3o da pesquisa e da doc\u00eancia foi induzida pelas pol\u00edticas articuladas de fomento \u00e0 ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o associada \u00e0s pol\u00edticas de expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria desde a metade do s\u00e9culo passado, mas especialmente entre 2002 e 2016. O soci\u00f3logo Max Weber descreveu este processo de distin\u00e7\u00e3o destas fun\u00e7\u00f5es h\u00e1 pouco mais de cem anos no contexto da universidade alem\u00e3. Esta especializa\u00e7\u00e3o do trabalho universit\u00e1rio depende de muito esfor\u00e7o individual e coletivo para produzir conhecimento orientado por m\u00e9todos de pesquisa.Esta permite ainda distinguir o que \u00e9 o ensino da ci\u00eancia das opini\u00f5es particulares dos professores que, de fato, s\u00e3o indesej\u00e1veis e sem nenhum apoio nas comunidades cient\u00edficas. Mas tamb\u00e9m permite distinguir o reconhecimento do m\u00e9rito cient\u00edfico dos usos sociais do diploma, numa sociedade hier\u00e1rquica e desigualada juridicamente como \u00e9 a nossa. Este aspecto pode ajudar a explicar o uso social inapropriado e irrespons\u00e1vel de t\u00edtulos acad\u00eamicos por alguns profissionais que, ao inv\u00e9s de distinguir o valor da ci\u00eancia enquanto um trabalho espec\u00edfico, percebem apenas seu valor para as hierarquias de seu meio profissional, sem nenhuma afinidade de significado com o do meio profissional da ci\u00eancia. Afinal, h\u00e1 \u00e1reas profissionais que, embora estejam vinculadas \u00e0s p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es \u2013 respons\u00e1veis por conferir os graus superiores aos pesquisadores, especialmente \u00e0queles que pretendem lecionar em institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias de ensino superior \u2013 n\u00e3o julgam os m\u00e9ritos de seus integrantes apenas por suas posi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas, mas tamb\u00e9m por outros crit\u00e9rios e hierarquiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de mercados profissionais. Notem que os fake-t\u00edtulos acad\u00eamicos, coincidentemente, s\u00e3o todos em \u00e1reas de ci\u00eancias sociais aplicadas, que tendem muito frequentemente a se basear, no Brasil, nas hierarquias dos mercados profissionais e nas posi\u00e7\u00f5es de poder que seus membros ocupam, \u00e0s quais emprestam pressupostos de valor e erudi\u00e7\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es de quem a seu ju\u00edzo tem poder\u2013 s\u00e3o os chamados argumentos de autoridade. Nestas \u00e1reas os crit\u00e9rios para se ranquear os saberes decorrem das posi\u00e7\u00f5es de poder estranhas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Assim, em muito diferem das afirma\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, fundadas sempre em consensos provis\u00f3rios sobre fatos, necessariamente reconhecidos e legitimados por seus pares porque fundadas na autoridade dos argumentos cient\u00edficos produzidos pelo uso adequado do m\u00e9todo cient\u00edfico. Essa atividade expressa o valor da especializa\u00e7\u00e3o do trabalho de pesquisador profissional em seus desafios de produzir conhecimento na explica\u00e7\u00e3o\/interpreta\u00e7\u00e3o dos dados da realidade e de ser profissionalmente reconhecido por viver disto. Em outras palavras, a ci\u00eancia opera na chave interpretativa do m\u00e9rito cient\u00edfico, enquanto profissionais de outros campos se apropriam dos t\u00edtulos, mas emprestando outro valor ao t\u00edtulo, exclusivamente pela honra e pela posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica que os distinguem na sociedade brasileira. N\u00e3o nos esque\u00e7amos das tradi\u00e7\u00f5es culturais portuguesas, que, diferentemente da Am\u00e9rica espanhola, n\u00e3o permitiam a cria\u00e7\u00e3o de universidades em suas Col\u00f4nias. T\u00edtulos de bachareis, portanto, eram bens raros na Col\u00f4nia e mesmo no Imp\u00e9rio do Brasil, dispon\u00edveis apenas \u00e0queles que dispusessem de significativos recursos para obt\u00ea-los. Assim, nossa educa\u00e7\u00e3o, em qualquer n\u00edvel, sempre foi associada a um sinal de excepcionalidade, de exclus\u00e3o e n\u00e3o de inclus\u00e3o como \u00e9 na sociedade liberal. Assim, este uso social do diploma universit\u00e1rio por autoridades p\u00fablicas contribui para um cont\u00ednuo desprezo pelas formas de organiza\u00e7\u00e3o profissional da ci\u00eancia no Brasil. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os diplomas s\u00e3o muito apreciados nas candidaturas \u00e0s c\u00fapulas dos poderes constitu\u00eddos, mas s\u00e3o muito pouco e mal valorizados no \u00e2mbito dos concursos p\u00fablicos que d\u00e3o acesso aos cargos p\u00fablicos, muito pouco sens\u00edveis ao trabalho e experi\u00eancia acumulada dos candidatos, ou seja, \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do seu m\u00e9rito acad\u00eamico-institucional. Por fim, se retomamos ao questionamento que intitula este artigo: \u201cafinal, de que valem t\u00edtulos universit\u00e1rios fora do mercado acad\u00eamico?\u201d Achamos que a resposta seria valem muito, pois tornam-se mais um sinal diacr\u00edtico de pura distin\u00e7\u00e3o bacharelesca, de mera honraria em uma sociedade de medalh\u00f5es, juridicamente desigual. Basta ver o costume que se tem de chamar profissionais das tradicionais carreiras \u2013 direito, medicina, engenharia \u2013 de doutores, tradi\u00e7\u00e3o algumas vezes contestada na justi\u00e7a por profissionais irritados porque seus servi\u00e7ais n\u00e3o lhes deram esse tratamento. Mais ainda, nessa avidez pela raridade de fora do mercado profissional, essas \u00e1reas tamb\u00e9m criaram no Brasil um t\u00edtulo hierarquicamente acima do doutorado, aquele de p\u00f3s-doutor, para aqueles doutores que fazem um est\u00e1gio ap\u00f3s seu doutoramento. Na \u00e1rea da ci\u00eancia faz-se v\u00e1rios p\u00f3s-doutorados, mas ningu\u00e9m se intitula p\u00f3sdoutor. Aparentemente, a ostenta\u00e7\u00e3o social de um doutorado responde a uma necessidade infinita de se desigualar de seus pares profissionais com instrumentos raros, j\u00e1 que se todos os colegas podem ser chamados de \u201cdoutores\u201d e de \u201cExcel\u00eancias\u201d, s\u00f3 seu suposto possuidor ostenta um diploma de doutor \u2013 ou de p\u00f3s-doutor &#8211; no seu curr\u00edculo Lattes&#8230;<\/p>\n<p>Pedro Heitor Barros Geraldo, Rafael Mario Iorio Filho e Roberto Kant de Lima, respectivamente pesquisadores e coordenador do Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia &#8211; Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (www.ineac.uff.br)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1434\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CHAPEUS_ACADEMIGOS.png\" width=\"900\" height=\"419\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CHAPEUS_ACADEMIGOS.png 900w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CHAPEUS_ACADEMIGOS-300x140.png 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CHAPEUS_ACADEMIGOS-768x358.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disponibilizamos aqui o artigo &#8220;AFINAL, DE QUE VALEM T\u00cdTULOS UNIVERSIT\u00c1RIOS FORA DO MERCADO ACAD\u00caMICO ?&#8221;, escrito pelos pesquisadores, vinculados ao INCT\/INEAC, Pedro Heitor Barros Geraldo, Rafael Mario Iorio Filho e Roberto Kant de Lima . 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