{"id":1566,"date":"2021-06-17T16:54:09","date_gmt":"2021-06-17T16:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1566"},"modified":"2021-06-17T16:54:09","modified_gmt":"2021-06-17T16:54:09","slug":"nota-em-homenagem-a-glaucio-ary-dillon-soares-uma-perda-um-legado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1566","title":{"rendered":"Nota em homenagem a Gl\u00e1ucio Ary Dillon Soares: uma perda, um legado"},"content":{"rendered":"<p>Nota em homenagem a Gl\u00e1ucio Ary Dillon Soares: uma perda, um legado<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mais uma triste not\u00edcia nesse contexto atual j\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Infelizmente, o professor e soci\u00f3logo Gl\u00e1ucio Ary Dillon Soares faleceu nesta segunda-feira (14\/06), aos 86 anos. Internado desde 29 de maio, por muitos fatores que fragilizavam sua sa\u00fade. Sempre muito forte, lutava contra um c\u00e2ncer agressivo diagnosticado h\u00e1 pouco mais de 25 anos. Em 2018 sofreu um AVC. E foi acometido pela COVID-19 h\u00e1 pouco tempo, fato que o levou para interna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi um grande professor e motivador n\u00e3o s\u00f3 na minha caminhada acad\u00eamica, mas de v\u00e1rios outros colegas do campo acad\u00eamico, incluindo as dezenas de seus orientandos, colegas de profiss\u00e3o e leitores dos seus trabalhos, no Brasil e no exterior. Nossa conviv\u00eancia, para al\u00e9m dos muros da universidade, se deu com muitos encontros em sua casa e no \u201cbar escrit\u00f3rio\u201d &#8211; apelido que d\u00e1vamos a uma pizzaria que ficava quase ao lado da institui\u00e7\u00e3o que ele lecionava, o Instituto de Estudos Sociais e Pol\u00edticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP\/UERJ) &#8211; sempre fazendo da sua orienta\u00e7\u00e3o um encontro quase familiar.<\/p>\n<p>Tive a honra de ser o \u00faltimo orientando dele, no mestrado e no doutorado em sociologia no IESP\/UERJ. A an\u00e1lise de fluxo de crimes, dialogando a sociologia e antropologia, foi um grande ensino e est\u00edmulo dele. Algo bem incomum e \u00edmpar \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 que gerou uma parceria entre Gl\u00e1ucio, eu e o professor, e antrop\u00f3logo, Roberto Kant de Lima, da Universidade Federal Fluminense, me proporcionando um di\u00e1logo interdisciplinar e interinstitucional. Isso foi de suma import\u00e2ncia para mim, para descontruir a normatividade e ensino doutrin\u00e1rio da minha forma\u00e7\u00e3o original em Direito, permitindo-me enxergar o campo jur\u00eddico como um fen\u00f4meno social.<\/p>\n<p>E dessa parceria foi poss\u00edvel produzir trabalhos emp\u00edricos que permitiram \u2013 e permitem \u2013 analisar o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es policiais e judiciais na administra\u00e7\u00e3o de conflitos de crimes, problematizando a forma de categoriza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o dos registros institucionais em forma de dados informatizados, a exemplo do que faz o Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) para fins de constru\u00e7\u00e3o de seus relat\u00f3rios anuais intitulados \u201cRelat\u00f3rio Justi\u00e7a em N\u00fameros\u201d. Tais registros explicitam, por exemplo, uma l\u00f3gica corporativa de gest\u00e3o dos processos judiciais, construindo-se n\u00fameros publicizados de interesse puramente interno, corporativo. Seus \u00edndices, tais como taxas de congestionamento processual, indicadores de produtividade dos magistrados e indicadores de produtividade dos servidores da \u00e1rea judici\u00e1ria ainda possuem poucos detalhes de diagn\u00f3stico, avaliando apenas o movimento quantitativo de processos judiciais, o n\u00famero de funcion\u00e1rios e or\u00e7amento dos f\u00f3runs e tribunais em cada Estado, por ano, sem considerar os tipos de demanda, as formas de administra\u00e7\u00e3o dos conflitos, o perfil das partes conflitantes e demais possibilidades de registro de micro dados. As metas corporativas quantitativas se sobressaem sobre todos os outros aspectos.<\/p>\n<p>As contribui\u00e7\u00f5es dessa nossa parceria foram muito prof\u00edcuas nesse sentido, em analisar como os registros &#8211; e os n\u00e3o registros, percebidos unicamente por meio de pesquisa etnogr\u00e1fica &#8211; quantificados pelas institui\u00e7\u00f5es judiciais podem revelar mais sobre suas pr\u00f3prias pr\u00e1ticas internas do que sobre os fatos sociais os quais essas institui\u00e7\u00f5es pretendem classificar, codificar e quantificar. Tais quest\u00f5es ainda s\u00e3o fortes empecilhos para a elabora\u00e7\u00e3o de categorias, teorias e conceitos pr\u00f3prios para o contexto brasileiro. Ainda pensamos \u201co Brasil a partir de conceitos e categorias criados para descrever fen\u00f4menos de pa\u00edses industriais; n\u00e3o pensamos a partir de conceitos elaborados para descrever fen\u00f4menos do Brasil\u201d. \u201cA isso eu chamo de colonialismo te\u00f3rico\u201d, desdobrando-se em um verdadeiro \u201ccalcanhar metodol\u00f3gico\u201d entre n\u00f3s, como j\u00e1 escreveu e sempre alertava Gl\u00e1ucio.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil enumerar e resumir todas as contribui\u00e7\u00f5es de Gl\u00e1ucio Soares para a ci\u00eancia social brasileira. Seus in\u00fameros escritos e pesquisas perpassam desde o papel das elites nas transi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, a an\u00e1lise das determinantes dos suic\u00eddios, at\u00e9 a an\u00e1lise de fluxo de homic\u00eddios dolosos no Brasil e em perspectiva comparada, dentre v\u00e1rias outras an\u00e1lises na Criminologia e na Sociologia Pol\u00edtica, atuando principalmente nos temas da viol\u00eancia, homic\u00eddios, democracia e regimes ditatoriais.<\/p>\n<p>H\u00e1 incont\u00e1veis publica\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas &#8211; em artigos, livros publicados e organizados, inclusive com importantes parcerias em coautoria &#8211; tanto para a sociologia quanto para a ci\u00eancia pol\u00edtica brasileira, como, por exemplo: \u201cO charme discreto do socialismo moreno\u201d; \u201cDois Lulas: a geografia eleitoral da reelei\u00e7\u00e3o\u201d; \u201c21 anos de autoritarismo\u201d; \u201cA democracia interrompida\u201d; \u201cO calcanhar metodol\u00f3gico da ci\u00eancia pol\u00edtica no Brasil\u201d; \u201cA criminologia e as desventura do jovem dado\u201d; \u201cAs v\u00edtimas ocultas da viol\u00eancia no Rio de Janeiro\u201d; entre muitos outros.<\/p>\n<p>Particularmente, o livro \u201cN\u00e3o Matar\u00e1s: desenvolvimento, desigualdade e homic\u00eddios\u201d foi marcante para mim. Nessa obra, Gl\u00e1ucio re\u00fane suas pesquisas e reflex\u00f5es realizadas ao longo de 40 anos de trajet\u00f3ria acad\u00eamica sobre an\u00e1lise de fluxo e determinantes das mortes violentas. A influ\u00eancia dessa publica\u00e7\u00e3o \u00e9 not\u00f3ria em minha caminhada e produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em que analisei o fluxo dos acordos ao longo das etapas da concilia\u00e7\u00e3o, transa\u00e7\u00e3o penal e Audi\u00eancia de Instru\u00e7\u00e3o e Julgamento no Juizado Especial Criminal, em minha disserta\u00e7\u00e3o de mestrado que defendi em 2014 (com publica\u00e7\u00e3o posterior em livro, em 2017); e na an\u00e1lise de fluxo e das determinantes para a investiga\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios dolosos ao longo das etapas do registro de ocorr\u00eancia policial, da instaura\u00e7\u00e3o do inqu\u00e9rito policial, da den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico, da primeira e da segunda fase do Tribunal do J\u00fari, na minha tese de doutorado, defendida em 2018.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para um pouco al\u00e9m da vida acad\u00eamica, vale mencionar que Gl\u00e1ucio mantinha um blog, h\u00e1 muitos anos, como um di\u00e1rio p\u00fablico de suas inquieta\u00e7\u00f5es, lutas, conquistas, reflex\u00f5es e percal\u00e7os n\u00e3o s\u00f3 contra o c\u00e2ncer como tamb\u00e9m perante adversidades do cotidiano, sempre com a reflex\u00e3o de um ex\u00edmio cientista social, mas com a sensibilidade de escrita de um poeta, com uma escrita l\u00edrica e compreens\u00edvel a todos. A \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o do blog foi em 23 de junho de 2020. \u00c9 emocionante, revigorante e vale a pena ser lido:\u00a0<a href=\"https:\/\/vivaavida.wordpress.com\/?fbclid=IwAR3cR0GE_A_29tIVsXpQnx86GC0bbjrFGJgw5AiJhWRpmV8cvSU9KcX-AkE\">https:\/\/vivaavida.wordpress.com<\/a> . Impressiona a quantidade de visualiza\u00e7\u00f5es que h\u00e1 nesse blog e como pessoas foram impactadas positivamente por esses escritos.<\/p>\n<p>Teremos que seguir em frente com mais esta perda, neste momento duro. Perdemos um grande mestre, cientista social e pessoa querida. Mas com um grande legado para muitos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Michel Lobo Toledo Lima.<\/p>\n<p>Soci\u00f3logo. Doutor e mestre em sociologia pelo IESP\/UERJ. Pesquisador do INCT-InEAC. Professor visitante e pesquisador de p\u00f3s-doutorado FAPERJ nota 10 no PPGD\/UVA.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1565\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/2b3f63f9c3f6c2e8092e50e76a1c79d740127f95_1200630.jpg\" width=\"1200\" height=\"630\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/2b3f63f9c3f6c2e8092e50e76a1c79d740127f95_1200630.jpg 1200w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/2b3f63f9c3f6c2e8092e50e76a1c79d740127f95_1200630-300x158.jpg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/2b3f63f9c3f6c2e8092e50e76a1c79d740127f95_1200630-1024x538.jpg 1024w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/2b3f63f9c3f6c2e8092e50e76a1c79d740127f95_1200630-768x403.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota em homenagem a Gl\u00e1ucio Ary Dillon Soares: uma perda, um legado \u00a0 \u00a0 Mais uma triste not\u00edcia nesse contexto atual j\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil.\u00a0\u00a0\u00a0 Infelizmente, o professor e soci\u00f3logo Gl\u00e1ucio Ary Dillon Soares faleceu nesta segunda-feira (14\/06), aos 86 anos. 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