{"id":1675,"date":"2021-11-03T21:46:55","date_gmt":"2021-11-03T21:46:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1675"},"modified":"2021-11-03T21:46:55","modified_gmt":"2021-11-03T21:46:55","slug":"iniciacao-cientifica-na-escola-publica-desafios-e-perspectivas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1675","title":{"rendered":"Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas"},"content":{"rendered":"<p>O site do INCT\/INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas&#8221;, escrito pelo antrop\u00f3logo Marcos Ver\u00edssimo, pesquisador vinculado ao INCT\/INEAC. O artigo foi publicado no BLOG CI\u00caNCIA E MATEM\u00c1TICA do jornal O Globo &#8211;\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/iniciacao-cientifica-na-escola-publica-desafios-e-perspectivas.html\">https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/iniciacao-cientifica-na-escola-publica-desafios-e-perspectivas.html<\/a>\u00a0<\/p>\n<p>Confira abaixo o artigo de Marcos Ver\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h1><strong>Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas<\/strong><\/h1>\n<p dir=\"ltr\">Marcos Verissimo<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cNa hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em import\u00e2ncia e gravidade ao da educa\u00e7\u00e3o\u201d. A afirma\u00e7\u00e3o contida nesta frase parece bastante atual em seu conte\u00fado, e por isso soaria veross\u00edmil que sua origem fossem as p\u00e1ginas dos jornais de ontem ou anteontem, ou o discurso de algum pol\u00edtico do alto de seu palanque, ou at\u00e9 mesmo que tivesse sido pichada nos muros da cidade, como forma de den\u00fancia. Acontece que, a despeito de sua atualidade, a frase \u00e9 de 1932, e abre o\u00a0\u201cManifesto dos Pioneiros da Educa\u00e7\u00e3o Nova\u201d, libelo assinado por intelectuais de destaque na \u00e9poca, a exemplo de An\u00edsio Teixeira, Afr\u00e2nio Peixoto e Roquette Pinto, entre outros.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00a0<\/p>\n<div>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 in\u00fatil ficar especulando se as raz\u00f5es da perman\u00eancia do\u00a0problema, ap\u00f3s todas estas d\u00e9cadas, estariam na inefici\u00eancia do esp\u00edrito reformista de gera\u00e7\u00f5es distintas de gestores educacionais ou no conhecido cinismo de nossos pol\u00edticos profissionais, ou na (des)organiza\u00e7\u00e3o de ambos. Fato \u00e9 que reformas continuam a ser propostas, bem como a ser ou n\u00e3o implementadas na pr\u00e1tica, e os discursos assim estruturados continuam a angariar votos, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita do espectro pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 1949, o soci\u00f3logo brit\u00e2nico Thomas Marshall, proferiu uma confer\u00eancia na Universidade de Cambridge \u2013 posteriormente transcrita e publicada \u2013 na qual afirma, em suma, que os respons\u00e1veis legais de crian\u00e7as em idade escolar deveriam ser obrigados pelo Estado a matricul\u00e1-los na escola. Seria Marshall um comunista? N\u00e3o! Muito pelo contr\u00e1rio. Marshall era um liberal e, segundo seu ponto de vista, era necess\u00e1ria a universaliza\u00e7\u00e3o do acesso dos futuros cidad\u00e3os a um sistema de ensino capaz de muni-los de compet\u00eancias sociais e profissionais m\u00ednimas que os colocariam em p\u00e9 de igualdade com os de sua gera\u00e7\u00e3o na competi\u00e7\u00e3o por bens escassos na sociedade de consumo e pelas posi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis no mercado de trabalho.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Dito de outra maneira, para usar uma met\u00e1fora esportiva, o que legitima a meritocracia liberal \u00e9 o fato de que o jogo come\u00e7a empatado, zero a zero, e o acesso universalizado \u00e0 escola \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica de promo\u00e7\u00e3o da igualdade de oportunidades para que os sujeitos assim formatados possam competir na economia liberal, a\u00ed sim desigualando-se pelo m\u00e9rito no mercado. Lembrando que Marshall tem a sociedade inglesa como base de seu trabalho. No Brasil, por outro lado, onde a urg\u00eancia da import\u00e2ncia da escola, da valoriza\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio, s\u00e3o mais fortes como discurso do que como pr\u00e1tica e pol\u00edtica p\u00fablica, o resultado das pol\u00edticas educacionais est\u00e1 distante de ser a garantia de que o jogo v\u00e1 come\u00e7ar empatado para os educandos a\u00ed formados. Bastante distante.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">S\u00e3o conhecidas as quest\u00f5es estruturais que fazem com que o estudante formado na escola p\u00fablica comece a partida que \u00e9 sua vida tendo j\u00e1 que virar o jogo, em desvantagem. Al\u00e9m disso, se observarmos,\u00a0in loco, as formas pelas quais os conflitos s\u00e3o administrados nos espa\u00e7os escolares da rede p\u00fablica brasileira, veremos, n\u00e3o a reafirma\u00e7\u00e3o de valores igualit\u00e1rios e o estabelecimento e atualiza\u00e7\u00e3o de consensos que balizem a media\u00e7\u00e3o das futuras contendas. Ao contr\u00e1rio, recentes etnografias realizadas em espa\u00e7os escolares por pesquisadores do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (INCT-InEAC), da UFF, t\u00eam demonstrado que o educando aprende a\u00ed a valorizar mais os argumentos de autoridade do que a autoridade dos argumentos. Ou seja, para navegar socialmente nos espa\u00e7os escolares ter\u00e1 que aprender que cada macaco deve ficar no seu galho, e que\u00a0\u201cmanda quem pode, obedece quem tem ju\u00edzo\u201d, entre outras li\u00e7\u00f5es que carregar\u00e1 para a vida.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00c9 para um sistema p\u00fablico de ensino assim configurado que se dirige a mais recente proposta de reforma do Ensino M\u00e9dio em bases nacionais, que teve origem nos tempos em que Michel Temer ocupou a presid\u00eancia da rep\u00fablica, e traz v\u00e1rios pontos controversos. Sua implementa\u00e7\u00e3o gradual tem data para come\u00e7ar, no in\u00edcio do ano letivo de 2022, e h\u00e1 ainda muita indefini\u00e7\u00e3o e incerteza. A discuss\u00e3o democr\u00e1tica do tema tem sido feita nas escolas e casas legislativas. Representa\u00e7\u00f5es sindicais docentes tamb\u00e9m j\u00e1 se manifestaram. Uma das controv\u00e9rsias de mais relevo \u00e9 o fato de que na grade de Ensino M\u00e9dio proposta, das atuais disciplinas presentes em todos os tr\u00eas anos deste seguimento, apenas matem\u00e1tica e l\u00edngua portuguesa manter\u00e3o esta regularidade. Todas as outras seriam obrigatoriamente ofertadas apenas no primeiro ano, e depois dilu\u00eddas, a depender ainda da escolha pela \u00e1rea das ci\u00eancias que cada escola pode optar em dar \u00eanfase. Grande parte da carga hor\u00e1ria dos segundo e terceiro anos seria de atividades optativas que v\u00e3o desde cursos ofertados \u00e0 dist\u00e2ncia, ou por institui\u00e7\u00f5es particulares, at\u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o de projetos de vida ou a participa\u00e7\u00e3o em laborat\u00f3rios de pesquisa multidisciplinares.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Claro que a diminui\u00e7\u00e3o da carga hor\u00e1ria votada para o estudo das ci\u00eancias humanas pode ser um golpe duro na forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os cr\u00edticos e aut\u00f4nomos, e que projetos como estes, n\u00e3o raro, descambam em verdadeiros\u00a0sacos de maldades. Contudo, talvez seja o momento de propor formas inovadoras e n\u00e3o conformadas de exercer o magist\u00e9rio no Ensino M\u00e9dio. Digo isso com base na experi\u00eancia do Laborat\u00f3rio Escolar de Pesquisa e Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (LEPIC), sediado no Col\u00e9gio Estadual Walter Orlandini, na cidade de S\u00e3o Gon\u00e7alo, e vinculado ao INCT-InEAC. Temos apoio do CNPq e da FAPERJ, por meio da concess\u00e3o de bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica para estudantes da rede p\u00fablica de ensino. Ali, estudantes se socializam nas pr\u00e1ticas de pesquisa em redes internacionais de pesquisadores, e professores universit\u00e1rios v\u00e3o \u00e0 escola p\u00fablica, n\u00e3o s\u00f3 para falar de suas pesquisas, mas para ouvir e orientar os pesquisadores iniciantes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2020, ano em que as escolas p\u00fablicas ficaram fechadas por conta da pandemia desde o m\u00eas de mar\u00e7o at\u00e9 o final do ano letivo, os pesquisadores iniciantes do LEPIC e de outras dez escolas estaduais distribu\u00eddas em diferentes munic\u00edpios fluminenses, participaram de projeto de Feira de Ci\u00eancias realizado pelo INCT-InEAC, com apoio do CNPq, que culminou com a produ\u00e7\u00e3o do podcast\u00a0Conflitos e Di\u00e1logos: Pesquisas Escolares, contendo 20 epis\u00f3dios dispon\u00edveis no Spotfy e outros tocadores (<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/show\/14Uf9Rr1SYOktOGnHBrwKu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-auth=\"NotApplicable\" data-linkindex=\"22\">https:\/\/open.spotify.com\/show\/14Uf9Rr1SYOktOGnHBrwKu<\/a>). Ali, ao mesmo tempo em que se habituavam a se expressar em p\u00fablico, apresentam o resultado de seu trabalho orientado, aprendido na escola e financiado por ag\u00eancias institucionais de fomento \u00e0 pesquisa e ao desenvolvimento da ci\u00eancia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Talvez o melhor tratamento para o antigo\u00a0problema nacional da educa\u00e7\u00e3o\u00a0passe, ao menos em parte, por levar a s\u00e9rio a inclus\u00e3o de atividades orientadas de pesquisa no Ensino M\u00e9dio como pr\u00e1tica docente poss\u00edvel a professores para isso qualificados. Assim estaremos estimulando e desenvolvendo desde cedo o senso cr\u00edtico e a reflexividade dos alunos e pavimentando os caminhos acidentados entre a escola p\u00fablica e a universidade p\u00fablica, onde poder\u00e3o se preparar adequadamente para um futuro profissional com horizontes mais amplos.\u00a0<\/p>\n<div>Marcos Verissimo \u00e9 antrop\u00f3logo, professor de sociologia da Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia \u2013 Instituto de estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (INCT-InEAC \u2013\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ineac.uff.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-auth=\"NotApplicable\" data-linkindex=\"23\">www.ineac.uff.br<\/a>), coordenador do Laborat\u00f3rio Escolar de Pesquisa e Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (LEPIC).<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1674\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/100836820160314capa_171151_21.jpg\" width=\"500\" height=\"299\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/100836820160314capa_171151_21.jpg 500w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/100836820160314capa_171151_21-300x179.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do INCT\/INEAC reproduz aqui o artigo &#8220;Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas&#8221;, escrito pelo antrop\u00f3logo Marcos Ver\u00edssimo, pesquisador vinculado ao INCT\/INEAC. O artigo foi publicado no BLOG CI\u00caNCIA E MATEM\u00c1TICA do jornal O Globo &#8211;\u00a0https:\/\/blogs.oglobo.globo.com\/ciencia-matematica\/post\/iniciacao-cientifica-na-escola-publica-desafios-e-perspectivas.html\u00a0 Confira abaixo o artigo de Marcos Ver\u00edssimo. \u00a0 Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=1675\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na Escola P\u00fablica: desafios e perspectivas<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1674,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1675","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1675\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1674"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}