{"id":2037,"date":"2022-12-22T01:29:08","date_gmt":"2022-12-22T01:29:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2037"},"modified":"2022-12-22T01:29:08","modified_gmt":"2022-12-22T01:29:08","slug":"universidade-da-policia-ou-policia-da-universidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2037","title":{"rendered":"UNIVERSIDADE DA POL\u00cdCIA OU POL\u00cdCIA DA UNIVERSIDADE?"},"content":{"rendered":"<p>Disponibilizamos em nosso site o artigo\u00a0UNIVERSIDADE DA POL\u00cdCIA OU POL\u00cdCIA DA UNIVERSIDADE? escrito pela pesquisadora\u00a0<em>P\u00e1ris Borges Barbosa<\/em> (Policial rodovi\u00e1ria federal, mestre e doutoranda do PPGSD\/UFF;\u00a0 pesquisadora do INCT\/InEAC e da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo e ativista da RENOSP LGBTQIA+) . O artigo foi publicado no\u00a0site Fonte Segura (F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica).\u00a0<a href=\"https:\/\/fontesegura.forumseguranca.org.br\/universidade-da-policia-ou-policia-da-universidade\/?utm_campaign=Fonte+Segura+167&amp;utm_content=Universidade+da+Pol%C3%ADcia+ou+Pol%C3%ADcia+da+Universidade%3F+-+Fonte+Segura+%281%29&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=EmailMarketing&amp;utm_term=Fonte+Segura+-+edi%C3%A7%C3%A3o+167+-+cadastrados\">https:\/\/fontesegura.forumseguranca.org.br\/universidade-da-policia-ou-policia-da-universidade\/?utm_campaign=Fonte+Segura+167&amp;utm_content=Universidade+da+Pol%C3%ADcia+ou+Pol%C3%ADcia+da+Universidade%3F+-+Fonte+Segura+%281%29&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=EmailMarketing&amp;utm_term=Fonte+Segura+-+edi%C3%A7%C3%A3o+167+-+cadastrados<\/a><\/p>\n<p>Confira o artigo abaixo:<\/p>\n<h1>UNIVERSIDADE DA POL\u00cdCIA OU POL\u00cdCIA DA UNIVERSIDADE?<\/h1>\n<h2>CHAMO A ATEN\u00c7\u00c3O PARA QUE N\u00c3O LIMITEMOS A CR\u00cdTICA DOS ACONTECIMENTOS RECENTES ENVOLVENDO A PRF A UMA \u201cM\u00c1 GEST\u00c3O\u201d. SEJA UMA GEST\u00c3O INCOMPETENTE OU MESMO PERVERSA, ELA SOMENTE CONSEGUIR\u00c1 CAPTURAR UMA INSTITUI\u00c7\u00c3O QUANDO N\u00c3O HOUVER MECANISMOS ADEQUADOS PARA IMPEDIR ESSA CAPTURA<\/h2>\n<p>Em 2019, por meio de uma mera altera\u00e7\u00e3o de nomenclatura, o Decreto n\u00ba 9.662 transformou a Academia Nacional da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (ANPRF) na Universidade Corporativa da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal, ou, simplesmente, UniPRF. A autoproclamada universidade foi festejada pela alta gest\u00e3o da PRF como um avan\u00e7o na qualidade da forma\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento dos policiais. Mas assim como uma cadeira n\u00e3o deixa de ser uma cadeira apenas porque passamos a cham\u00e1-la de mesa, a UniPRF tamb\u00e9m n\u00e3o experimentou mudan\u00e7as ontol\u00f3gicas, em sua ess\u00eancia, apenas por trocar o letreiro que ostenta na entrada do pr\u00e9dio em que est\u00e1 sediada. Talvez esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja precisa. Afinal, ao longo dos \u00faltimos quatro anos, houve sim mudan\u00e7as importantes nos m\u00e9todos de ensino utilizados para formar e aperfei\u00e7oar os policiais, no caso, retrocessos importantes.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de uma Universidade dentro da estrutura organizacional de uma for\u00e7a policial \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de fen\u00f4meno apontado por Renato S\u00e9rgio de Lima, no qual se tenta\u00a0<a href=\"http:\/\/xn--lima%2C%20renato%20srgio%20de%20et%20al-upd.xn--%20saber%20acadmico%2C%20guerra%20cultural%20e%20a%20emergncia%20das%20cincias%20policiais%20no%20brasil-pdj7bp.xn--%20revista%20brasileira%20de%20cincias%20sociais%20[online]-xhf.%202022%2C%20v.%2037%2C%20n.%20108%20[acessado%2012%20dezembro%202022]%2C%20e3710805.xn--%20disponvel%20em%20%3Chttps-yxc\"><em>\u201creivindicar o monop\u00f3lio policial do ensino, da pesquisa e da discuss\u00e3o sobre seguran\u00e7a p\u00fablica.\u201d\u00a0<\/em><\/a>Policiais que veem com desprezo e desconfian\u00e7a a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de conhecimento a respeito de sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o profissional ambicionam poder diplomar seus pr\u00f3prios \u201ccientistas\u201d com t\u00edtulos de Mestres e Doutores e assim disputar a autoridade sobre o debate acerca da seguran\u00e7a p\u00fablica. Em discursos proferidos pelo Diretor Geral da PRF, Silvinei Vasques, \u00e9 poss\u00edvel escut\u00e1-lo dizer que:\u00a0<em>\u201cPrecisamos combater o discurso ideol\u00f3gico sobre seguran\u00e7a p\u00fablica que vem das Universidades\u201d;<\/em>\u00a0e que\u00a0<em>\u201cQuem entende de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 o policial!\u201d<\/em>. Seguindo esse racioc\u00ednio do Diretor Geral, ouvimos com frequ\u00eancia nas salas de aula da UniPRF instrutores se referirem a uma enorme gama de cientistas que estudam fen\u00f4menos relacionados a mercados il\u00edcitos, a viol\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es sociais e institucionais, a seletividade policial entre outros temas como \u201cespecialistas em seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, express\u00e3o enunciada sempre em tom de ojeriza e express\u00f5es faciais de repulsa.<\/p>\n<p>O que se viu acontecer de fato ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da UniPRF foi uma militariza\u00e7\u00e3o do ensino. No curr\u00edculo pedag\u00f3gico, disciplinas como \u201cdireitos humanos\u201d, \u201crela\u00e7\u00f5es humanas\u201d e mesmo \u201c\u00e9tica\u201d foram totalmente suprimidas ou substitu\u00eddas por algumas poucas palestras ofertadas na modalidade de ensino a dist\u00e2ncia. A supress\u00e3o desses conte\u00fados foi justificada com o argumento de que estariam presentes de forma transdisciplinar. Por\u00e9m, \u00e9 suficiente acompanhar algumas aulas para notar que o pr\u00f3prio vocabul\u00e1rio dos instrutores denuncia o oposto. Termos reificados como \u201cbandido\u201d, \u201cmala\u201d e \u201cvagabundo\u201d circulam livremente, ditos tamb\u00e9m por discentes sem que haja problematiza\u00e7\u00e3o por parte dos docentes. Por outro lado, a disciplina \u201cNo\u00e7\u00f5es de Comando e Controle\u201d chama a aten\u00e7\u00e3o para a forma como ensina os alunos a marcharem em forma e se manterem alinhados em posi\u00e7\u00e3o de sentido. A justificativa dada para a exist\u00eancia dessa disciplina \u00e9 a necessidade do aluno aprender a ter \u201cpostura de policial\u201d e \u201cvoz de comando\u201d, que seria uma forma de controlar as impress\u00f5es que seu corpo transmite. Acredito por\u00e9m que \u00e9 nos momentos de conv\u00edvio entre as aulas que o processo de militariza\u00e7\u00e3o do ensino fica mais evidente. V\u00e1rias vezes no dia, o curso inteiro entra em forma\u00e7\u00e3o para receber informa\u00e7\u00f5es da coordena\u00e7\u00e3o. Os alunos est\u00e3o sempre meticulosamente uniformizados, inclusive nos cabelos, raspados com m\u00e1quina nos homens e presos com redes e coques nas mulheres. O deslocamento das turmas entre os locais de aula \u00e9 feito sempre correndo em forma\u00e7\u00e3o de tropa, entoando versos que s\u00e3o cantados pelo \u201cxerife\u201d e repetidos em un\u00edssono pelos demais sobre honra, bravura, for\u00e7a, supera\u00e7\u00e3o, orgulho, patriotismo, f\u00e9 e outros valores. Falhas e gafes em rela\u00e7\u00e3o aos procedimentos marciais s\u00e3o \u201cpagas\u201d com flex\u00f5es de bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Apesar de se autointitular \u201cUniversidade\u201d, a UniPRF pode, com ressalvas, ser definida hoje como uma Escola de Governo. Fa\u00e7o ressalvas, pois n\u00e3o existe uma lei ou decreto pr\u00f3prio que assim a defina e portanto seu status \u00e9 sujeito a questionamento. Para garantir o reconhecimento da UniPRF como um instituto de Ci\u00eancia e Tecnologia, chegou-se a propor o envio de uma comitiva de policiais uniformizados e armados para a porta do CNPq. A fim de alcan\u00e7ar o almejado reconhecimento do MEC, e atender ao princ\u00edpio da indissociabilidade do ensino da pesquisa e da extens\u00e3o, foi criada na UniPRF uma Divis\u00e3o de Pesquisa Desenvolvimento e Inova\u00e7\u00e3o (DPDI) no final do ano de 2020, da qual fui chefe substituta. A nova divis\u00e3o de pesquisa seria a respons\u00e1vel por publicar uma revista cient\u00edfica semestral, organizar grupos de pesquisa, planejar eventos acad\u00eamicos como congressos e semin\u00e1rios, firmar parcerias com universidades p\u00fablicas para a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas de interesse m\u00fatuo, entre outras atribui\u00e7\u00f5es semelhantes a de uma Pr\u00f3-Reitoria de Pesquisa tal qual em uma Universidade P\u00fablica. N\u00e3o era poss\u00edvel, contudo, contornar as contradi\u00e7\u00f5es irreconcili\u00e1veis entre o desejo de controlar o debate sobre seguran\u00e7a p\u00fablica e ter no seio da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o uma divis\u00e3o dedicada \u00e0 leg\u00edtima produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A equipe editorial da revista cient\u00edfica logo percebeu que seu papel era somente teatral e que as decis\u00f5es editoriais seriam tomadas pela Dire\u00e7\u00e3o Geral e pela Coordena\u00e7\u00e3o da UniPRF. Assim, artigos de cientistas renomados nas \u00e1reas da Antropologia e da Sa\u00fade foram rejeitados e a revista inteira foi cancelada antes de sua primeira edi\u00e7\u00e3o. A inten\u00e7\u00e3o era publicar apenas artigos de policiais. Da mesma forma, foram cancelados convites para palestrantes externos, que iriam participar de semin\u00e1rio na UniPRF, na v\u00e9spera do evento, causando preju\u00edzos aos cofres p\u00fablicos com passagens a\u00e9reas n\u00e3o utilizadas. Um dos epis\u00f3dios mais expl\u00edcitos da coopta\u00e7\u00e3o do discurso cient\u00edfico na UniPRF se deu quando o Coordenador Geral, ao ponderar sobre a autoriza\u00e7\u00e3o para executar uma pesquisa referente \u00e0 sa\u00fade mental dos alunos, indagou desconfiado \u00e0 equipe da DPDI o que se pretendia descobrir com aquilo, ao qual n\u00e3o coube outra resposta: somente realizando a pesquisa para saber!<\/p>\n<p>Em que pese todo o exposto, chamo a aten\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o limitemos a cr\u00edtica dos acontecimentos recentes envolvendo a PRF a uma \u201cm\u00e1 gest\u00e3o\u201d. Seja uma gest\u00e3o incompetente ou mesmo perversa, ela somente conseguir\u00e1 capturar uma institui\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o h\u00e1 mecanismos adequados para impedir essa captura. No caso da UniPRF, ficou evidente que o seu desenho institucional concentrou poderes nas m\u00e3os da alta gest\u00e3o, permitindo que pessoas estranhas aos campos do ensino e da pesquisa tomassem decis\u00f5es de cunho cient\u00edfico e pedag\u00f3gico. Talvez um modo de impedir que algo assim aconte\u00e7a novamente seria elaborar para a UniPRF um regimento interno que garanta sua autonomia did\u00e1tico-cient\u00edfica e crie um Conselho de Ensino respons\u00e1vel por estabelecer diretrizes pedag\u00f3gicas, deixando para o Coordenador ou Diretor da UniPRF apenas a gest\u00e3o administrativa burocr\u00e1tica. Seria interessante reservar assentos nesse Conselho de Ensino\u00a0 para docentes e pesquisadores externos \u00e0 PRF, indicados por institui\u00e7\u00f5es dedicadas ao estudo da seguran\u00e7a p\u00fablica, como o\u00a0<em>F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/em>, o Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos e o Instituto Brasileiro de Ci\u00eancias Criminais.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre Institui\u00e7\u00e3o de Estado x Institui\u00e7\u00e3o de Governo vem sendo usada como chave de interpreta\u00e7\u00e3o para explicar casos como o da PRF. Ao se declarar que a PRF \u00e9 uma Institui\u00e7\u00e3o de Estado, espera-se que as suas pr\u00e1ticas voltem \u00e0s balizas republicanas. Contudo, assim como chamar uma cadeira de mesa n\u00e3o a torna uma mesa, a sedimenta\u00e7\u00e3o de uma Institui\u00e7\u00e3o de Estado depende de mais do que a sua mera enuncia\u00e7\u00e3o. Certamente ser\u00e3o necess\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es mais profundas do que aquelas advindas apenas da troca de gestores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2036\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/167154866063a1cef42ccb1_1671548660_3x2_md.jpg\" width=\"768\" height=\"512\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/167154866063a1cef42ccb1_1671548660_3x2_md.jpg 768w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/167154866063a1cef42ccb1_1671548660_3x2_md-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disponibilizamos em nosso site o artigo\u00a0UNIVERSIDADE DA POL\u00cdCIA OU POL\u00cdCIA DA UNIVERSIDADE? escrito pela pesquisadora\u00a0P\u00e1ris Borges Barbosa (Policial rodovi\u00e1ria federal, mestre e doutoranda do PPGSD\/UFF;\u00a0 pesquisadora do INCT\/InEAC e da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo e ativista da RENOSP LGBTQIA+) . 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