{"id":2177,"date":"2023-09-07T13:55:11","date_gmt":"2023-09-07T13:55:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2177"},"modified":"2023-09-07T13:55:11","modified_gmt":"2023-09-07T13:55:11","slug":"politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos-espaco-publico-e-resistencias-dos-povos-tradicionais-de-matriz-africana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2177","title":{"rendered":"Pol\u00edtica de terreiros e pol\u00edtica para terreiros: viola\u00e7\u00f5es, reconhecimento de direitos, espa\u00e7o p\u00fablico e resist\u00eancias dos \u201cpovos tradicionais de matriz africana\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Reproduzimos aqui o artigo\u00a0<em>artigo &#8221; Pol\u00edtica de terreiros e pol\u00edtica para terreiros: viola\u00e7\u00f5es, reconhecimento de direitos, espa\u00e7o p\u00fablico e resist\u00eancias dos \u201cpovos tradicionais de matriz africana\u201d , escrito pela antrop\u00f3loga Ana Paula Mendes de Miranda (UFF &#8211; INCT\/INEAC) publicado no site da\u00a0Funda\u00e7\u00e3o Heinrich B\u00f6ll , organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alem\u00e3 sem fins lucrativos:\u00a0<a href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos\">https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos\u00a0<\/a>\u00a0. O artigo\u00a0 faz parte do\u00a0Webdossi\u00ea\u00a0Religi\u00e3o, democracia e extrema direita .<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><em>Pol\u00edtica de terreiros e pol\u00edtica para terreiros: viola\u00e7\u00f5es, reconhecimento de direitos, espa\u00e7o p\u00fablico e resist\u00eancias dos \u201cpovos tradicionais de matriz africana\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<footer class=\"article__meta before-teaser-image\">\u00a0<\/p>\n<div class=\"content-authors field--name-field-authors\"><span class=\"content-authors__byline\">por\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/person\/ana-paula-mendes-de-miranda\" hreflang=\"pt-br\">Ana Paula Mendes de Miranda<\/a><\/div>\n<\/footer>\n<figure>\n<article class=\"media media--type-image media--view-mode-image-and-licence-article-main-image\" data-view-mode=\"image_and_licence_article_main_image\" data-show-licence-link=\"1\" data-has-licence=\"1\" data-licence-id=\"6455\" data-licence-creator=\"Laycer Thomaz\/C\u00e2mara dos Deputados\" data-licence-licence=\"cc-by-4\" data-licence-realname=\"&amp;lt;a class=&amp;quot;licence-link&amp;quot; rel=&amp;quot;license&amp;quot; target=&amp;quot;_blank&amp;quot; href=&amp;quot;http:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by\/4.0\/deed.de&amp;quot;&amp;gt;CC-BY 4.0&amp;lt;\/a&amp;gt;\" data-licence-url=\"\" data-licence-image=\"https:\/\/br.boell.org\/sites\/default\/files\/styles\/3d2_small\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?h=3fd7e85e&amp;itok=DzjK6DMh\" data-once=\"boell-copyright-link\">\n<div class=\"blazy blazy--nojs blazy--field blazy--field-media-image blazy--field-media-image--image-and-licence-article-main-image field field--name-field-media-image field--type-image field--label-hidden field__item\" data-blazy=\"\">\n<div class=\"media media--blazy media--image media--responsive\"><picture><source srcset=\"\/sites\/default\/files\/styles\/var_medium\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=ERrZ1eid 640w, \/sites\/default\/files\/styles\/var_desktop\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=y5L5Elr5 980w, \/sites\/default\/files\/styles\/var_larger\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=7VnAAy6a 1220w\" type=\"image\/jpeg\" media=\"all and (min-width: 760px)\" sizes=\"100vw\" \/><source srcset=\"\/sites\/default\/files\/styles\/var_tiny\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=NMMAlsBW 160w, \/sites\/default\/files\/styles\/var_small\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=nM0fOV0j 320w, \/sites\/default\/files\/styles\/var_medium\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=ERrZ1eid 640w, \/sites\/default\/files\/styles\/var_desktop\/public\/2023-08\/21-05-2014-laycer-tomaz.jpg?itok=y5L5Elr5 980w\" type=\"image\/jpeg\" sizes=\"100vw\" \/><\/picture><\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/figure>\n<p>Religi\u00e3o e pol\u00edtica n\u00e3o s\u00e3o propriamente um tema novo no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro, mas essa imbrica\u00e7\u00e3o tem se acentuado com uma nuance fortemente conservadora desde o processo de\u00a0<em>impeachment\u00a0<\/em>da ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff, em 2016, que argumentou que est\u00e1vamos diante de \u201cuma viol\u00eancia no Brasil contra a verdade, contra a democracia e contra o Estado democr\u00e1tico de direito\u201d (Dilma Rousseff, 18 de abril,\u00a0<em>apud<\/em>\u00a0M\u00fcller e Pozobon, 2017: 14). Tal argumento foi interpretado como um golpe \u201cmidi\u00e1tico-pol\u00edtico-jur\u00eddico\u201d, financiado pela elite econ\u00f4mica brasileira (Proner, 2016), o que leva a crer em tramas conspirat\u00f3rias que cabe na ideia de \u201cprojeto de poder\u201d. Infelizmente, a realidade \u00e9 mais complexa que a fic\u00e7\u00e3o, por isso essa express\u00e3o \u2013 \u201cprojeto de poder\u201d<a id=\"_ftnref1\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0\u2013 mais atrapalha do que nos ajuda a pensar quando se trata de analisar a atua\u00e7\u00e3o de uma direita conservadora e evang\u00e9lica. Os \u00faltimos anos trouxeram v\u00e1rias demonstra\u00e7\u00f5es emp\u00edricas de que se est\u00e1 diante de a\u00e7\u00f5es que buscam produzir a supremacia de um determinado grupo social (Gramsci, 2000), a partir da articula\u00e7\u00e3o do \u201cdom\u00ednio\u201d com uma \u201cdire\u00e7\u00e3o intelectual e moral\u201d. O problema est\u00e1 no uso generalizado da express\u00e3o, ao falar em um projeto de poder muitas vezes se oculta quais as rea\u00e7\u00f5es que existem a ele, criando assim um imagin\u00e1rio conspirat\u00f3rio de que n\u00e3o h\u00e1 qualquer possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o. Expor a racionalidade do plano \u00e9 apenas uma parte de uma an\u00e1lise processual, h\u00e1 que se acompanhar a execu\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancias, t\u00e3o bem representadas nas frases \u201cfaltou combinar com os russos\u201d<a id=\"_ftnref2\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0e \u201ca gente combinamos de n\u00e3o morrer (&#8230;). O combinado era o enfrentamento\u201d, de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo (2016).<\/p>\n<p>Como salientam Jacqueline Muniz e F\u00e1tima Cecchetto (2021) a l\u00f3gica autorit\u00e1ria e excludente que temos experimentado na pol\u00edtica brasileira \u00e9 anterior ao \u201cgolpe pol\u00edtico-policial-jur\u00eddico\u201d e se caracteriza por v\u00e1rios modos de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de medos, que funcionam para uma aceita\u00e7\u00e3o coletiva e passiva da \u201csubordina\u00e7\u00e3o dos direitos sociais e civis \u00e0s raz\u00f5es restritivas, discriminat\u00f3rias e excludentes de (in)seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 na chave do \u201cregime do medo\u201d que se deve compreender como a religi\u00e3o assumiu o controle da agenda das elei\u00e7\u00f5es presidenciais, em 2018, por meio de um protagonismo \u201cterrivelmente\u201d crist\u00e3o. Mesmo reconhecendo-se que n\u00e3o se est\u00e1 diante de processos uniformes (Almeida, 2017), a reuni\u00e3o de evang\u00e9licos de muitos matizes aos cat\u00f3licos, que ocultam suas fragmenta\u00e7\u00f5es em uma aparente unidade, teve como resultado a produ\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica nos moldes da \u201cf\u00e9 cega, faca amolada\u201d (Muniz e Cecchetto 2019), que em nome de \u201cDeus\u201d, da \u201cfam\u00edlia\u201d e da \u201cp\u00e1tria\u201d se apresenta como a \u201cnova onda conservadora\u201d. Assim, foi paralisada a constru\u00e7\u00e3o em andamento de uma pol\u00edtica democr\u00e1tica, que valorizava a manifesta\u00e7\u00e3o plural das diferen\u00e7as no espa\u00e7o p\u00fablico, revelando nuances de pol\u00edticas \u201ccristofascistas\u201d<a id=\"_ftnref3\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, que lidam de forma bin\u00e1ria e excludente com os povos tradicionais \u2013 associados \u00e0s pr\u00e1ticas mal\u00e9ficas (demonizadoras<a id=\"_ftnref4\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>), num ide\u00e1rio inspirado na supremacia branca estadunidense.<\/p>\n<p>A mistura de imperativos teol\u00f3gicos e doutrin\u00e1rios com um projeto pol\u00edtico de na\u00e7\u00e3o, sob o lema de campanha \u201cBrasil acima de tudo. Deus acima de todos\u201d, representou que os discursos de \u00f3dio e as a\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas de destrui\u00e7\u00e3o tivessem consequ\u00eancias diretas no agravamento de discrimina\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s moralidades n\u00e3o crist\u00e3s, aos saberes e pr\u00e1ticas dos afrodescendentes e dos ind\u00edgenas, bem como na produ\u00e7\u00e3o de uma forma contempor\u00e2nea de neocoloniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, discursiva e territorial. Ao mesmo tempo que inventaram \u201cpovos eleitos\u201d e ressuscitaram a teoria do branqueamento no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o do vice-presidente, Hamilton Mour\u00e3o (PRTB), um homem heteroidentificado como \u201cpardo\u201d, de que o Brasil herdou a \u201cindol\u00eancia\u201d dos \u00edndios e a \u201cmalandragem\u201d dos africanos, \u00e9 um exemplo de como essa forma de fazer pol\u00edtica recusa a alteridade, em nome de Jesus, e mistura os discursos nacionalista e supremacista, com a defesa de uma ordem imposta pela for\u00e7a e pelo medo. Se pensarmos bem, n\u00e3o h\u00e1 nada de muito novo nesse front. O tal \u201cprojeto de poder\u201d \u00e9 uma \u201cvelha roupa colorida\u201d<a id=\"_ftnref5\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, um passado de verde e amarelo, que j\u00e1 n\u00e3o nos serve mais. Melhor dizendo, n\u00e3o serve para aqueles que sabem que as rela\u00e7\u00f5es de cidadania n\u00e3o podem funcionar segundo a m\u00e1xima \u201cj\u00e1 lhe dei liberdade, n\u00e3o lhe dou ousadia\u201d. Afinal \u00e9 apenas a partir da ousadia pol\u00edtica que se pode superar os s\u00e9culos de opress\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica no \u201ccampo\u201d afro-brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>A consagra\u00e7\u00e3o da categoria \u201cpovos e\u00a0 comunidades tradicionais de matriz africana\u201d ocorreu a primeira vez com o lan\u00e7amento da primeira edi\u00e7\u00e3o do \u201cPlano Nacional de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana\u201d, em 2013, \u201cdefinidos como grupos que se organizam a partir dos valores civilizat\u00f3rios e da cosmovis\u00e3o trazidos para o pa\u00eds por africanos para c\u00e1 transladados durante o sistema escravista, o que possibilitou um cont\u00ednuo civilizat\u00f3rio africano no Brasil, constituindo territ\u00f3rios pr\u00f3prios caracterizados pela viv\u00eancia comunit\u00e1ria, pelo acolhimento e pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0 comunidade\u201d (SEPPIR, 2013: 12). O documento foi resultado de uma luta coletiva que expandiu o reconhecimento estatal a partir das conquistas iniciadas com a Constitui\u00e7\u00e3o Federal e o Decreto n. 6.040\/2007 (BRASIL, 2007), instrumentos jur\u00eddicos que possibilitaram a garantia de direitos a grupos culturalmente diferenciados no espa\u00e7o p\u00fablico, sendo o \u00faltimo voltado essencialmente aos quilombolas e povos ind\u00edgenas. Negar a dimens\u00e3o religiosa tinha o objetivo de destacar a dimens\u00e3o da pol\u00edtica e da cultura.<\/p>\n<p>Mariana Morais (2021) salientou que a constru\u00e7\u00e3o dessa categoria tinha a inten\u00e7\u00e3o de substituir o uso de express\u00f5es que destacam o car\u00e1ter \u201creligioso\u201d (povo de santo\/povo de ax\u00e9) das pr\u00e1ticas consideradas pelos afrorreligiosos como \u201ctradicionais\u201d de origem africana e caracterizar as viola\u00e7\u00f5es n\u00e3o mais como intoler\u00e2ncia religiosa, mas sim \u201cracismo religioso\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio refletir sobre o paradoxo que se coloca diante da rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e a pol\u00edtica neste contexto. A religi\u00e3o \u00e9 questionada pelos afrorreligiosos como uma estrat\u00e9gia ocidental que n\u00e3o d\u00e1 conta da complexidade dos modos de vida tradicionais, da\u00ed a necessidade de produzir novas nomenclaturas. Por\u00e9m, a religi\u00e3o se torna um qualificador v\u00e1lido quando se trata de caracterizar as viola\u00e7\u00f5es que t\u00eam sofrido, delimitando o tipo de racismo<a id=\"_ftnref6\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0que se verifica quando as agress\u00f5es s\u00e3o dirigidas \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es de \u201cmatrizes africanas\u201d<a id=\"_ftnref7\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. O esfor\u00e7o \u00eamico de caracterizar a exist\u00eancia de uma pluralidade de grupos<a id=\"_ftnref8\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0e de descrever as agress\u00f5es sofridas s\u00e3o uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 naturaliza\u00e7\u00e3o do racismo, que caracteriza as a\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a e justi\u00e7a, que atomizam as situa\u00e7\u00f5es, na l\u00f3gica do cada caso \u00e9 um caso, resultando na maior cole\u00e7\u00e3o de casos isolados que se pode imaginar&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a emerg\u00eancia da categoria\u00a0<em>racismo religioso\u00a0<\/em>precisa ser compreendida, como um contraponto pol\u00edtico \u00e0\u00a0<em>intoler\u00e2ncia religiosa\u00a0<\/em>(Miranda, 2012, 2018), que n\u00e3o \u00e9 considerado um termo adequado pela afromilit\u00e2ncia porque seria associada a uma concep\u00e7\u00e3o liberal, de fundamento crist\u00e3o, que camuflaria ainda mais o j\u00e1 \u201cinvisibilizado\u201d racismo \u00e0 brasileira (Cardoso de Oliveira, L. 2004). \u00c9 assim que se tem constitu\u00eddo a luta pol\u00edtica por meio da estrat\u00e9gia de caracteriza\u00e7\u00e3o dos povos e comunidades tradicionais de matriz africana como \u201cv\u00edtimas\u201d<a id=\"_ftnref9\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0de viola\u00e7\u00f5es em todos os direitos \u2013 sociais, pol\u00edticos, econ\u00f4micos e culturais \u2013 para apontar que o primeiro eixo de demandas \u00e9 a garantia de direitos.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica contempor\u00e2nea tem se dedicado a lidar com a rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica, a partir de uma reivindica\u00e7\u00e3o de que as marcas da matriz africana sejam reconhecidas no espa\u00e7o p\u00fablico\/na esfera p\u00fablica de modo a contrastar com as estrat\u00e9gias desenvolvidas pelos grupos crist\u00e3os, cuja ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 distinta, e que passou tamb\u00e9m a reivindicar-se como um movimento negro evang\u00e9lico, de contribui\u00e7\u00e3o cultural para a forma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira. Vagner Silva (2017) analisa que a emerg\u00eancia desse movimento n\u00e3o representou a supera\u00e7\u00e3o da demoniza\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es afro-brasileiras. A ideia de uma \u201cheran\u00e7a negra\u201d, vinculada \u00e0 ancestralidade de etnias vindas de \u00c1frica e \u00e0s pr\u00e1ticas tradicionais presentes nas religi\u00f5es afro-brasileiras, segue sendo representada por grupos racistas como uma desqualifica\u00e7\u00e3o, ou como uma apropria\u00e7\u00e3o, no caso do \u201cbolinho de Jesus\u201d que \u00e9 usado para apagar o acaraj\u00e9 como uma comida votiva de orix\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Entre uma pol\u00edtica de terreiros e uma pol\u00edtica para terreiros<\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da categoria \u201cpol\u00edtica de terreiros\u201d (Miranda, 2021) surgiu em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es\u00a0de pesquisadores brasileiros de que os \u201cterreiros n\u00e3o se organizam\u201d (mais um julgamento moral, que propriamente uma conclus\u00e3o a partir de pesquisas emp\u00edricas<a id=\"_ftnref10\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>), que \u00e9 repetida por alguns religiosos sem experi\u00eancia de milit\u00e2ncia em movimentos sociais e\/ou partid\u00e1rios, cuja representa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a pol\u00edtica \u00e9 algo fora da vida religiosa, e n\u00e3o parte dela como defendem os afrorreligiosos.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de terreiros \u00e9 um esfor\u00e7o de apresentar como foi\/tem sido constru\u00edda a luta do movimento afrorreligioso pela garantia dos seus direitos, seja no que tange \u00e0 pr\u00e1tica religiosa, seja em rela\u00e7\u00e3o aos direitos pol\u00edticos. As estrat\u00e9gias adotadas pelos afrorreligiosos est\u00e3o orientadas pela valoriza\u00e7\u00e3o dos saberes tradicionais<a id=\"_ftnref11\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, constru\u00eddos de forma comunit\u00e1ria e progressiva, nos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, com destaque para o fortalecimento da identidade negra, da ancestralidade, da valoriza\u00e7\u00e3o da natureza, da produ\u00e7\u00e3o de m\u00eddia pr\u00f3pria. A mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda a partir de moralidades e \u00e9ticas presentes nos terreiros, que orientam o processo de interlocu\u00e7\u00e3o e de intera\u00e7\u00e3o entre os sujeitos que compartilham de valores religiosos e pol\u00edticos afro-orientados.<\/p>\n<p>Quando se analisa os trabalhos sobre os \u201cnovos movimentos sociais\u201d um dos aspectos ressaltados \u00e9 que eles revelam modos de associa\u00e7\u00e3o coletiva de grupos \u201cmarginais\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es de normalidade sociocultural (Touraine 1989). No caso dos afrorreligiosos penso ser importante ressaltar que s\u00e3o influenciados por tradi\u00e7\u00f5es afrocentradas, que conflitam com as diretrizes do colonialismo e consequ\u00eancias da \u201cinvisibilidade\u201d branca (Cardoso 2008; Feres Junior 2015), principalmente no que se refere \u00e0 supremacia branca\u00a0 no plano jur\u00eddico-pol\u00edtico, que \u00e9 o foco neste artigo. Os afrorreligiosos t\u00eam buscado constituir formas de a\u00e7\u00e3o direta, voltadas aos problemas que os afligem, orientados por moralidades pr\u00f3prias, mas que n\u00e3o costumavam ser interpretadas como formas leg\u00edtimas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por se contrapor aos modelos hegem\u00f4nicos (a \u201cuniversalidade\u201d branca e o modelo classista que prevaleceu nos movimentos sociais).<\/p>\n<p>Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o trabalho de Mello, Vogel, Barros (2019) que interpretaram as formas de mobiliza\u00e7\u00e3o e luta pol\u00edtica dos terreiros como estrat\u00e9gias de reivindica\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia no espa\u00e7o p\u00fablico, fortalecendo os modos singulares de viv\u00eancias, que funcionaram como enfrentamento \u00e0 hegemonia do empreendimento colonial do Brasil. A dimens\u00e3o da religiosidade de matrizes africana \u00e9 pensada por esses autores como uma via pol\u00edtica de resist\u00eancia quando analisam a ida do ia\u00f4 \u00e0 missa, tal como foram os \u201cquilombos\u201d e as mortes por banzo. As tr\u00eas manifesta\u00e7\u00f5es seriam express\u00f5es de uma desobedi\u00eancia civil no espa\u00e7o p\u00fablico, que colocava em xeque a hegemonia crist\u00e3. Cada uma a seu modo revelam os campos de for\u00e7as na constitui\u00e7\u00e3o de uma sociedade urbana e seus limites no reconhecimento de demandas por direitos.<\/p>\n<p>O preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o dirigidos aos terreiros possuem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e por isso demandariam a\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Al\u00e9m das situa\u00e7\u00f5es cotidianas de agress\u00f5es e viola\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios tipos, h\u00e1 uma agenda sendo constru\u00edda pelos afrorreligiosos que podem e devem ser analisadas em profundidade, do mesmo modo como podem configurar uma agenda de milit\u00e2ncia, do que precisa ser monitorada e cobrada politicamente.<\/p>\n<p>Ser instigada a pensar na interse\u00e7\u00e3o entre religi\u00f5es\/democracia\/extrema direita provoca uma resposta imediata:\u00a0 diante de uma \u201cvida social ativa\u201d (Abu-Lughod, 2010) s\u00f3 se pode pensar sobre o exerc\u00edcio de direitos a partir da identifica\u00e7\u00e3o de como as redes de sociabilidade dos sujeitos envolvidos e os meios t\u00e9cnico-pol\u00edticos se articulam e produzem efeitos. Como parte desses sujeitos, fazendo uso de conhecimentos t\u00e9cnico-pol\u00edticos, est\u00e1 o\/a antrop\u00f3logo\/a cujo desafio profissional n\u00e3o se limita \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de conhecimentos, mas constantemente desafiada a responder \u00e0s demandas de interven\u00e7\u00f5es (Cardoso de Oliveira, R., \u00a02004). Assumir um lado, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 apenas reconhecer-se como parte envolvida, mas \u00e9 manter-se atento e cr\u00edtico \u00e0s responsabilidades do pesquisador diante dos compromissos \u00e9tico-pol\u00edticos quando se atua em contextos de pluralidade e democracia. Assumir-se como militante \u00e9 apenas a primeira parte da tarefa, que delimita as fronteiras das representa\u00e7\u00f5es de si e dos outros na busca da constru\u00e7\u00e3o do comum e de uma vida p\u00fablica democr\u00e1tica. O desafio segue quando se est\u00e1 diante das intera\u00e7\u00f5es sociais, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 neutralidade efetiva diante de valores e pr\u00e1ticas. As nossas escolhas n\u00e3o se d\u00e3o no mundo ideal, mas a partir de situa\u00e7\u00f5es concretas, que representam alternativas poss\u00edveis e v\u00e1lidas num dado momento e lugar.<\/p>\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o de uma agenda pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Dentre as a\u00e7\u00f5es de expans\u00e3o de\u00a0<em>advocacy<\/em>\u00a0voltadas ao racismo, destaco o caso do Recurso Extraordin\u00e1rio 494601 ao Supremo Tribunal Federal (STF), no qual se discutia a validade da Lei estadual 12.131\/2004 (RS), sobre se o sacrif\u00edcio de animais em ritos religiosos \u00e9 constitucional. Mesmo n\u00e3o tendo sido citado expressamente o termo racismo pelas(os) ministras(os) do STF, a decis\u00e3o foi considerada hist\u00f3rica ao tratar da viol\u00eancia contra as matrizes africana como uma das facetas do \u201cracismo estrutural\u201d (Hoshino, Bueno 2019). N\u00e3o \u00e9 uma mera curiosidade a controv\u00e9rsia que envolve o abate ritual para as cerim\u00f4nias do candombl\u00e9 e os efeitos que t\u00eam no campo religioso e pol\u00edtico (Oro, Carvalho, Scuro, 2017; Miranda, Almeida, 2022). \u00c9 sabido que, mesmo antes de \u201cpassar a boiada\u201d, a legisla\u00e7\u00e3o ambiental j\u00e1 vinha sido utilizada para atacar os terreiros.<\/p>\n<p>Esse exemplo deixa evidente como a\u00a0exist\u00eancia de legisla\u00e7\u00f5es antidiscriminat\u00f3rias e voltadas para pol\u00edticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa n\u00e3o asseguram a transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica jur\u00eddica (Rahier 2019), que em toda a Am\u00e9rica Latina, ainda se orienta por pr\u00e1ticas burocr\u00e1ticas e sociais que funcionam para neutralizar de forma significativa as decis\u00f5es jur\u00eddicas e administrativas antirracistas, j\u00e1 que os valores e cren\u00e7as coloniais continuam orientando as elites brancas e brancas-mesti\u00e7as<a id=\"_ftnref12\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<p>Penso que uma das chaves importantes para entender a resist\u00eancia \u00e0s pautas dos afrorreligiosos est\u00e1 na \u201ctradicional\u201d estrat\u00e9gia de coloniza\u00e7\u00e3o &#8211; a demoniza\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es afro-brasileiras. Pelo que vejo por a\u00ed n\u00e3o sa\u00edmos dos moldes da inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma constata\u00e7\u00e3o que tenho feito, ao longo da pesquisa, e que talvez ajudasse como uma estrat\u00e9gia discursiva, em termos de pol\u00edtica p\u00fablica, \u00e9 o modo pelo qual a discuss\u00e3o internacional sobre crimes de \u00f3dio (Miranda, 2023 \u2013 no prelo), cujo termo n\u00e3o existe na legisla\u00e7\u00e3o brasileira, pode auxiliar na explicita\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o do racismo. Do modo como a legisla\u00e7\u00e3o internacional conceitua o crime de \u00f3dio o destaque \u00e9 a dimens\u00e3o coletiva do fen\u00f4meno. A a\u00e7\u00e3o ocorre entre indiv\u00edduos, mas a motiva\u00e7\u00e3o para a agress\u00e3o est\u00e1 associada ao fato de que o agressor discrimina \/ tem \u00f3dio ao que o grupo representa. N\u00e3o se trata aqui de acreditar que a legisla\u00e7\u00e3o muda a vida magicamente, muito longe disso, mas de pensar como no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas a estrat\u00e9gia de trabalho passa por produzir nomina\u00e7\u00f5es. O \u00f3dio \u00e9 a mola mestra da extrema direita, explicitar que uma agress\u00e3o a uma comunidade tradicional \u00e9 motivada pelo \u00f3dio \u00e9 um modo de tentar frear essa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o do mandato Lula \/ Alckmin celebra a \u201cvolta\u201d da democracia, mas n\u00e3o me parece suficiente para frear a pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o implantada pelos governos Temer e Bolsonaro, at\u00e9 porque a efic\u00e1cia de suas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 vinculada a eles, mas a modos de governar anteriores a eles, que seguem fazendo sentido para alguns e produzindo efeitos sobre todos. Embora at\u00e9 o momento meus interlocutores dizem que desejam e esperam mudan\u00e7as (eu tamb\u00e9m!), seguem c\u00e9ticos em termos de garantias aos direitos dos povos de terreiro.<\/p>\n<p>Para concluir gostaria de retomar alguns pontos, em termos do que significa pensar uma rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00f5es \u2013 as afro-brasileiras \/ de matriz africana \u2013 a implanta\u00e7\u00e3o da democracia, sempre vista como vulner\u00e1vel, e a dita extrema direita no Brasil. N\u00e3o se trata de encontrar solu\u00e7\u00f5es, mas de pensar em intersec\u00e7\u00f5es. Fazer proje\u00e7\u00f5es est\u00e1 fora das minhas possibilidades anal\u00edticas, mas apontar algumas dimens\u00f5es prospectivas \u00e9 um risco que pretendo correr.<\/p>\n<ol>\n<li>H\u00e1 um reconhecimento de a\u00e7\u00f5es e iniciativas isoladas que funcionam como motrizes para seguir na luta, mas seguem longe de uma efetiva\u00e7\u00e3o. A transforma\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio passaria pela constru\u00e7\u00e3o de formas inovadoras de lidar com a rela\u00e7\u00e3o entre a propriedade (geralmente individual de uso coletivo) e as isen\u00e7\u00f5es de impostos asseguradas apenas aos templos crist\u00e3os, por exemplo.<\/li>\n<li>A explicita\u00e7\u00e3o dos conflitos de modo violento e numa escala progressiva est\u00e1 diretamente relacionada \u00e0 resposta de grupos reacion\u00e1rios e conservadores, que sempre geriram a pol\u00edtica nacional e n\u00e3o gostaram de ver pol\u00edticas sendo transformadas e produzindo efeitos, em termos de inclus\u00e3o, tais como no caso das cotas nas universidades. O mesmo se pode dizer em termos de acesso aos direitos territoriais, que segue sendo o problema-chave no pa\u00eds. Invadir os terreiros por raz\u00f5es pol\u00edtico-financeiras \u00e9 uma estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o, a destrui\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o religiosa \u00e9 consequ\u00eancia.\n<p>A emerg\u00eancia do \u201ctraficante evang\u00e9lico\u201d \/ \u201ctraficrente\u201d \/ \u201cmilicrente\u201d \u00e9 parte de uma pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas que serve a interesses maiores, nos quais o medo \u00e9 a forma de assegurar a domina\u00e7\u00e3o. Permitir a constru\u00e7\u00e3o de igrejas evang\u00e9licas dentro de pres\u00eddios, como ocorreu no Rio de Janeiro, n\u00e3o \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o meramente proselitista. \u00c9 uma estrat\u00e9gia inerente ao projeto de poder da IURD, com objetivos claros. Esses mesmos pres\u00eddios obrigam um pai \/ m\u00e3e de santo a ser submetido a revista \u00edntima. Diante desses fatos n\u00e3o se pode dizer que o Estado laico funciona, porque assegurou a assist\u00eancia religiosa. \u00c9 preciso rediscutir esses limites. A an\u00e1lise que fiz, com Jacqueline Muniz, Rosiane Rodrigues e Fausto Cafezeiro (2022), sobre a distribui\u00e7\u00e3o dos ataques \/atentados em rela\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio ocupado pelo dom\u00ednio armado (tr\u00e1fico\/mil\u00edcia) mostra como a dimens\u00e3o espacial \u00e9 relevante para compreender esse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Nos terreiros a sacralidade (o ax\u00e9) est\u00e1 plantada, literalmente, no territ\u00f3rio que necessita ser preparado para que o sagrado aconte\u00e7a. O que \u00e9 totalmente distinto da rela\u00e7\u00e3o de nuclea\u00e7\u00e3o das igrejas evang\u00e9licas-pentecostais, caracterizada pela individualiza\u00e7\u00e3o do sagrado e dispers\u00e3o no espa\u00e7o. Os impactos que ambas possuem na circula\u00e7\u00e3o do lugar s\u00e3o distintos, os efeitos dos deslocamentos for\u00e7ados dos terreiros \u00e9 muito mais complexo do que a mudan\u00e7a de uma igreja.<\/p>\n<\/li>\n<li>Quando se trata de pol\u00edticas p\u00fablicas estamos no mundo da ambival\u00eancia. As pol\u00edcias e os \u00f3rg\u00e3os do Judici\u00e1rio tanto podem defender quanto acusar\/atacar os terreiros. Os afrorreligiosos sabem muito bem disso e jogam com os recursos que possuem, o que implica inclusive em negociar diretamente com os pr\u00f3prios agressores. Por\u00e9m, isso n\u00e3o os livra de se assustarem ou se indignarem quando os pr\u00f3prios agentes p\u00fablicos fazem essa recomenda\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cv\u00e1 conversar com o traficante para manter o terreiro aberto\u201d. A reprivatiza\u00e7\u00e3o do conflito, pelo poder p\u00fablico, que implantou a evangeliza\u00e7\u00e3o como pol\u00edtica, colabora para uma descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. Repensar e reconstruir as rela\u00e7\u00f5es com os poderes p\u00fablicos \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o urgente e necess\u00e1ria, em especial, nas \u00e1reas da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a e justi\u00e7a.<\/li>\n<li>Em menos de 15 anos, no Rio de Janeiro, os conflitos entre religiosos de matriz africana e evang\u00e9licos deixaram de ser um problema das rela\u00e7\u00f5es de proximidade e passaram a envolver confrontos predat\u00f3rios pela hegemonia armada de espa\u00e7os populares por traficantes e\/ou milicianos, que se apresentam como membros de igrejas pentecostais e criadores de \u201cex\u00e9rcitos\u201d religiosos para a constru\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o de seguidores de Jesus. Isso tem resultado num reenquadramento das discuss\u00f5es no campo da seguran\u00e7a p\u00fablica e da justi\u00e7a, no sentido de analisar o fen\u00f4meno da criminalidade violenta dirigida a terreiros tomando como ponto de partida que se est\u00e1 diante de \u201chist\u00f3ria particular do conhecimento e do poder\u201d (Asad, 2016, p. 278) que favorece modos de exerc\u00edcio (i)legal e (i)leg\u00edtimo de poder em suas formas particulares de apropria\u00e7\u00e3o conformam s\u00edmbolos e experi\u00eancias religiosas nas favelas e periferias, mais uma vez tentando impedir a pot\u00eancia do \u201cpensamento nag\u00f4\u201d e a refunda\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds crist\u00e3o e embranquecido, ao menos na ret\u00f3rica.\n<p>N\u00e3o se trata apenas de um modo de governar que alia crime (pol\u00edtica) e religi\u00e3o, orientado por uma l\u00f3gica miliciana e alicer\u00e7ado pela \u201cbatalha espiritual\u201d (Silva, 2007). O fen\u00f4meno tem favorecido a consolida\u00e7\u00e3o de uma agenda de costumes (Vital da Cunha &amp; Lopes, 2013) e o aumento dos atentados contra minorias de g\u00eanero, religiosas e raciais no pa\u00eds. Tamb\u00e9m tem possibilitado a constru\u00e7\u00e3o de carreiras pol\u00edtico-eleitorais de car\u00e1ter extremista (Vital da Cunha, Lopes e Lui, 2013), marcadas por propostas expansionistas fundadas em narrativas m\u00edtico-pol\u00edticas que podem corresponder tanto \u00e0 nega\u00e7\u00e3o como \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o de certo projeto de na\u00e7\u00e3o &#8211; projeto est\u00e9tico-pol\u00edtico que articula valores religiosos com outros atributos de poder, principalmente a teatraliza\u00e7\u00e3o b\u00e9lica de uma masculinidade viril.<\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<p>Pol\u00edtica e religi\u00e3o como formas imbricadas, juntas e misturadas do poder-saber-agir e seus expedientes de distribui\u00e7\u00e3o de coer\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o propriamente uma novidade. A novidade \u00e9 a (re)configura\u00e7\u00e3o das fronteiras entre o sagrado e o profano na produ\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as e processos de subordina\u00e7\u00e3o concebidos e vividos. No caso que me coube analisar identifico que estamos diante de uma vivifica\u00e7\u00e3o de (neo)cruzadas pol\u00edtico-religiosas contra as religi\u00f5es de matriz africana apoiadas em uma moral econ\u00f4mico-racial que permite negociar cren\u00e7as, vidas, votos, bens e servi\u00e7os p\u00fablicos nos territ\u00f3rios populares. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 suficiente pensar na solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica de tirar a religi\u00e3o da vida p\u00fablica, \u00e9 preciso redefinir os limites. Essa \u00e9 a demanda dos movimentos afrorreligiosos, cujas lideran\u00e7as h\u00e1 s\u00e9culos resistem \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es, demoniza\u00e7\u00f5es, expuls\u00f5es, agress\u00f5es f\u00edsicas, ofensas morais. Eles pretendem seguir resistindo enquanto o projeto (neo)colonial seguir atuando de modo cartesiano e bin\u00e1rio. A religi\u00e3o transpassa a pol\u00edtica, encantando-a, e a pol\u00edtica atravessa a religi\u00e3o, desencantando-a. A cren\u00e7a na modernidade nos faz querer uma separa\u00e7\u00e3o de dom\u00ednios que efetivamente n\u00e3o existe, a complexidade do universo cosmol\u00f3gico de matriz africana tem muito a nos ensinar sobre isso.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>ABU-LUGHOD, Lila.\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">The Active Social Life of Muslim Human Rights. A plea for ethnography, not polemic, with cases from Egypt and Palestine.\u00a0<strong>Journal of Middle East Women\u2019s Studies<\/strong>, v. 6, n. 1, p. 1-45, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">ALMEIDA, Ronaldo.\u00a0<\/span>A onda quebrada &#8211; evang\u00e9licos e conservadorismo.\u00a0<strong>Cadernos Pagu<\/strong>, v. 50, 2017, e175001.<\/p>\n<p>ASAD, Talal. O conceito de tradu\u00e7\u00e3o cultural na antropologia social brit\u00e2nica. In: CLIFFORD, James e MARCUS, George (orgs). A escrita da cultura. Po\u00e9tica e pol\u00edtica da etnografia. Rio de Janeiro: Pap\u00e9is Selvagens\/Editora da UERJ, p. 207- 236.<\/p>\n<p>BRASIL.\u00a0<strong>Decreto n. 6.040,<\/strong>\u00a0de 7 de fevereiro de 2007. Bras\u00edlia, DF: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2007. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2007\/decreto\/d6040.htm\">http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2007\/decreto\/d6040.htm<\/a>, acesso em 28\/06\/2023.<\/p>\n<p>CAMPOS, Luiz Augusto. O racismo como sobreviv\u00eancia: Muniz Sodr\u00e9 e a escravid\u00e3o. Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/colunistas\/2023\/O-racismo-como-sobreviv%C3%AAncia-Muniz-Sodr%C3%A9-e-a-escravid%C3%A3o\">https:\/\/www.nexojornal.com.br\/colunistas\/2023\/O-racismo-como-sobreviv%C\u2026<\/a>, acesso em 28\/06\/2023.<\/p>\n<p>CARDOSO, Louren\u00e7o. 2008.\u00a0<strong>O branco \u201cinvis\u00edvel\u201d:<\/strong>\u00a0um estudo sobre a emerg\u00eancia da branquitude nas pesquisas sobre as rela\u00e7\u00f5es raciais no Brasil (Per\u00edodo: 1957 &#8211; 2007). Disserta\u00e7\u00e3o em Sociologia, Faculdade de Economia, Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>CARDOSO DE OLIVEIRA, Lu\u00eds Roberto. Racismo, direitos e cidadania.\u00a0<strong>Estudos avan\u00e7ados<\/strong>, v. 18, n. 50, p. 81-93, 2004.<\/p>\n<p>CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. O Mal-Estar da \u00c9tica na Antropologia Pr\u00e1tica\u201d. V\u00cdCTORA, Ceres et al (Org).\u00a0<strong>Antropologia e \u00c9tica<\/strong>. O debate Atual no Brasil. Rio de Janeiro, ABA\/EdUFF, 2004, p.21-32.<\/p>\n<p>EVARISTO, Concei\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Olhos d\u2019\u00e1gua<\/strong>. 1 ed. Rio de Janeiro: Pallas\/Funda\u00e7\u00e3o Biblioteca Nacional, 2016.<\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">FASSIN, Didier. Beyond good and evil? Questioning the anthropological discomfort.\u00a0\u00a0<strong>Anthropological Theory<\/strong>, v. 8, n. 4, p. 333\u2013344, 2008.<\/span><\/p>\n<p>FERES J\u00daNIOR, Jo\u00e3o. A atualidade do pensamento de Guerreiro Ramos: branquidade e na\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Caderno CRH<\/strong>, v. 28, n. 73, p. 111-125, 2015.<\/p>\n<p>FERNANDES, Rubem Cesar (coord.).\u00a0<strong>Novo Nascimento<\/strong>: Os Evang\u00e9licos em Casa, na Igreja e na Pol\u00edtica. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.<\/p>\n<p>HOSHINO<strong>,\u00a0<\/strong>Thiago A. P.; BUENO, Winnie. 2019.\u00a0<strong>RE 494601<\/strong>: o reconhecimento do racismo religioso? Dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jusdh.org.br\/2019\/04\/04\/re-494601-o-reconhecimento-do-racismo-religioso\/\">http:\/\/www.jusdh.org.br\/2019\/04\/04\/re-494601-o-reconhecimento-do-racismo-religioso\/<\/a>. Acesso em 10 de abril de 2019.<\/p>\n<p>GOMES, Edlaine de Campos; OLIVEIRA, Lu\u00eds Cl\u00e1udio de. Mem\u00f3rias documentadas do grupo \u201cTradi\u00e7\u00e3o dos Orix\u00e1s\u201d: rea\u00e7\u00f5es, resist\u00eancia e resson\u00e2ncias afro-brasileiras dos anos 1980.\u00a0<strong>Religi\u00e3o &amp; Sociedade<\/strong>, v. 41, n. 3, p. 25\u201350,<strong>\u00a0<\/strong>2021.<\/p>\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Racismo e sexismo na cultura brasileira.\u00a0<strong>Revista Ci\u00eancias Sociais Hoje<\/strong>, 2, p. 223-244, 1984.<\/p>\n<p>GRAMSCI, Antonio.\u00a0<strong>Cadernos do C\u00e1rcere<\/strong>. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2000.<\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">HEYWARD, Carter.\u00a0<strong>Saving Jesus from Those who are Right<\/strong><em>:<\/em>\u00a0Rethinking what it Means to be Christian.\u00a0<\/span>Minneapolis: Fortress Press, 1999.<\/p>\n<p>MELLO, Marco Ant\u00f4nio da Silva; VOGEL, Arno; BARROS, Jos\u00e9 Fl\u00e1vio da Silva de. 2019. Por que IA\u00d4 tem de ir \u00e0 missa? O desafio do santu\u00e1rio e o enigma da romaria afro-brasileira. In: A. P. M. de Miranda et al (org.).\u00a0<strong>As cren\u00e7as na igualdade<\/strong>. Rio de Janeiro: Autografia, p. 135-187.<\/p>\n<p>MIRANDA, Ana Paula Mendes de. A for\u00e7a de uma express\u00e3o: intoler\u00e2ncia religiosa, conflitos e demandas por reconhecimento de direitos no Rio de Janeiro.\u00a0<strong>Comunica\u00e7\u00f5es do ISER<\/strong>, v. 66, p. 60 &#8211; 73, 2012.<\/p>\n<p>__________. Intoler\u00e2ncia religiosa e discrimina\u00e7\u00e3o racial: duas faces de um mesmo problema p\u00fablico? In: SOUZA LIMA, Antonio Carlos de et al (org.)\u00a0<strong>A antropologia e a esfera p\u00fablica no Brasil:<\/strong>\u00a0Perspectivas e Prospectivas sobre a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia no seu 60\u00ba Anivers\u00e1rio.1 ed. Rio de Janeiro: E-papers \/ ABA publica\u00e7\u00f5es, 2018, p. 329-363.<\/p>\n<p>__________. A &#8216;Pol\u00edtica dos Terreiros&#8217; contra o Racismo Religioso e as Pol\u00edticas &#8216;Cristofascistas&#8217;.\u00a0<strong><span lang=\"es-419\" xml:lang=\"es-419\">Debates do Ner<\/span><\/strong><span lang=\"es-419\" xml:lang=\"es-419\">, v.40, p. 1- 27, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"es-419\" xml:lang=\"es-419\">__________.\u00a0<\/span><span lang=\"ES-AR\" xml:lang=\"ES-AR\">\u201cCr\u00edmenes de odio\u201d: \u00bfuna nueva estrategia para el enfrentamiento del racismo en Brasil?. In: SOUZA LIMA, Antonio Carlos et al (orgs.).\u00a0<strong>Antropolog\u00eda del Estado y de las organizaciones de gobernanza<\/strong>: miradas desde Argentina, Brasil, Chile y M\u00e9xico, 2023 \u2013 no prelo.<\/span><\/p>\n<p>MIRANDA, Ana Paula Mendes de; ALMEIDA, Rosiane Rodrigues de. \u201cA galinha da religi\u00e3o de preto\u201d e o reconhecimento de direitos: controv\u00e9rsias e mobiliza\u00e7\u00f5es dos povos tradicionais de terreiro em defesa da soberania alimentar e do enfrentamento ao racismo.\u00a0<strong>Religi\u00e3o &amp; Sociedade,\u00a0<\/strong>v. 42, n. 2, p. 43\u201365,<strong>\u00a0<\/strong>2022.<\/p>\n<p>__________; BONIOLO, Roberta Machado. \u201cEm p\u00fablico, \u00e9 preciso se unir\u201d: conflitos, demandas e estrat\u00e9gias pol\u00edticas entre religiosos de matriz afro-brasileira na cidade do Rio de Janeiro.\u00a0<strong>Religi\u00e3o &amp; Sociedade<\/strong>, v. 37, n. 2, p. 86\u2013119, 2017.<\/p>\n<p>MIRANDA, Ana Paula Mendes de; MUNIZ, Jacqueline de Oliveira; ALMEIDA, Rosiane Rodrigues de; CAFEZEIRO, Fausto. Terreiros sob ataque? A governan\u00e7a criminal em nome de Deus e as disputas do dom\u00ednio armado no Rio de Janeiro.\u00a0<strong>Revista Dilemas IFCS-UFRJ<\/strong>, v.15, p. 619 &#8211; 650, 2022.<\/p>\n<p>MORAIS, Mariana Ramos de. \u201cPovos e comunidades tradicionais de matriz africana\u201d no combate ao \u201cracismo religioso\u201d: a presen\u00e7a afro-religiosa na Pol\u00edtica Nacional de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade. Racial.\u00a0<strong>Religi\u00e3o &amp; Sociedade<\/strong>, v. 41, n. 3, p. 51\u201374, 2021.<\/p>\n<p>M\u00dcLLER, Kauane Andressa; POZOBON, Rejane de Oliveira. Estrat\u00e9gias argumentativas do impeachment: an\u00e1lise dos argumentos acionados pela Presidenta Dilma Rousseff.\u00a0<strong>Revista Anagrama<\/strong>, ano 11, v. 1, p. 1-17, 2017.<\/p>\n<p>MUNIZ, Jacqueline de Oliveira. F\u00e9 cega, Facas amoladas &#8211; Regime do medo e pr\u00e1ticas de exce\u00e7\u00e3o.\u00a0<strong>Boletim Revista do Instituto Baiano de Direito Processual Penal<\/strong>, Ano 2, n. 6, p.7-9, dezembro de 2019.<\/p>\n<p>__________; CECCHETTO, F\u00e1tima Regina. Inseguran\u00e7a p\u00fablica: exce\u00e7\u00e3o como rotina, excepcionalidade como o normal no Rio de Janeiro, Brasil.\u00a0<strong>Ci\u00eancia &amp; Sa\u00fade Coletiva<\/strong>, v. 26, n. 10, pp. 4635-4644, 2021.<\/p>\n<p>ORO, Ari Pedro; CARVALHO, Erico Tavares de; SCURO, Juan. O Sacrif\u00edcio de Animais nas Religi\u00f5es Afro-Brasileiras: uma pol\u00eamica recorrente no Rio Grande do Sul.\u00a0<strong>Religi\u00e3o &amp; Sociedade,\u00a0<\/strong>v. 37, n. 2, p. 229\u201353, 2017.<\/p>\n<p>PRONER, Carol et al. (Orgs.)\u00a0<strong>A resist\u00eancia ao golpe de 2016<\/strong>.\u00a0<span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Bauru: Canal 6, 2016.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">RAHIER, Jean Muteba. Evaluating the usefulness of contemporary ethnoracial law for Afrodescendants in Latin America through the examination of court cases and the appreciation of the state\u2019s processual nature.\u00a0<strong>Latin American and Caribbean Ethnic Studies<\/strong>, v. 14, n. 3, p. 215-233, 2019.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">RIOS, Flavia.\u00a0<\/span>O protesto negro no Brasil contempor\u00e2neo (1978-2010).\u00a0<strong>Lua Nova: Revista de Cultura e Pol\u00edtica<\/strong>, n. 85, p. 41\u201379, 2012.<\/p>\n<p>SECRETARIA DE POL\u00cdTICAS DE PROMO\u00c7\u00c3O DA IGUALDADE RACIAL &#8211; SEPPIR.\u00a0<strong>I Plano Nacional de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana<\/strong>. Bras\u00edlia, 2013.<\/p>\n<p>Silva, Vagner Gon\u00e7alves da (ed.).\u00a0<strong>Intoler\u00e2ncia Religiosa<\/strong><em>:\u00a0<\/em>impactos do neopentecostalismo no campo-religioso brasileiro<em>.<\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: EDUSP, 2007.<\/p>\n<p>SILVA, Vagner Gon\u00e7alves da. Religi\u00e3o e identidade cultural negra: afro-brasileiros, cat\u00f3licos e evang\u00e9licos.\u00a0<strong><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">Afro-\u00c1sia<\/span><\/strong><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">, n. 56, p. 83-128, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"EN-US\" xml:lang=\"EN-US\">S\u00d6LLE, Dorothee.\u00a0<strong>Beyond Mere Obedience<\/strong>: Reflections on a Christian Ethic for the Future.\u00a0<\/span>Minneapolis: Augsburg Publishing House, 1970.<\/p>\n<p>TOURAINE, Alain. 1989. Os novos conflitos sociais. Para evitar mal-entendido\u201d.\u00a0<strong>Lua Nova<\/strong>, 17: 5-18.<\/p>\n<p>VERGER, Pierre. 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Rio de Janeiro: Heinrich B\u00f6ll Stiftung; ISER, 2013.<\/p>\n<div>\u00a0<\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn1\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0O livro \u201cUm plano de poder\u201d, de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, com a colabora\u00e7\u00e3o do jornalista Carlos Oliveira, revela as estrat\u00e9gias de constru\u00e7\u00e3o de um \u201cprojeto divino de na\u00e7\u00e3o\u201d, que passa pela participa\u00e7\u00e3o direta dos evang\u00e9licos na pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn2\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>\u00a0Varia\u00e7\u00e3o livre do questionamento que Garrincha teria feito ao treinador Vicente Feola, durante a copa de 1958.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn3\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0O termo classifica pol\u00edticas p\u00fablicas e sociais que, em nome do cristianismo, excluem os grupos minorit\u00e1rios (Heyward 1999) Ver tamb\u00e9m S\u00f6lle (1970).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn4\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0Ver Fernandes (1998).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn5\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>\u00a0Composi\u00e7\u00e3o de Antonio Carlos Belchior e interpretada por Elis Regina, no \u00e1lbum Alucina\u00e7\u00e3o (POLY- GRAM 1976).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn6\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0Sobre uma discuss\u00e3o sobre os tipos de racismo ver Campos (2023).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn7\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0A express\u00e3o no plural foi utilizada durante o Semin\u00e1rio Territ\u00f3rios das Matrizes Africanas no Brasil \u2013 Povos Tradicionais de Terreiro, 2011, realizado pela SEPPIR.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn8\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u00a0S\u00e3o consideradas como tradi\u00e7\u00f5es espalhadas no pa\u00eds: Baba\u00e7u\u00ea; Batuque; Cabula; Candombl\u00e9 Jeje; Candombl\u00e9 Ketu; Candombl\u00e9 Angola; Candombl\u00e9 de Caboclo; Catimb\u00f3; Culto aos egunguns; Encantaria; Jurema; Omoloc\u00f4; Pajelan\u00e7a; Quimbanda; Tambor de Mina; Terec\u00f4; Tor\u00e9; Umbanda; Xamb\u00e1; Xang\u00f4.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn9\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>\u00a0Trata-se de uma categoria altamente controversa que n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel discutir no \u00e2mbito deste artigo.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn10\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>\u00a0Ver Miranda e Boniolo (2017).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn11\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0Os princ\u00edpios civilizat\u00f3rios que orientam a diversidade dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana s\u00e3o a senioridade, a ancestralidade, a viv\u00eancia comunit\u00e1ria, a circularidade, a oralidade e a vis\u00e3o transgeracional.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a id=\"_ftn12\" href=\"https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0A categoria branco-mesti\u00e7o \u00e9 utilizada pelo autor para designar aqueles que invisibilizam e negam as diferen\u00e7as \u00e9tnico-raciais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2176\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/21052014laycertomaz_1.jpg\" width=\"1220\" height=\"800\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/21052014laycertomaz_1.jpg 1220w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/21052014laycertomaz_1-300x197.jpg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/21052014laycertomaz_1-1024x671.jpg 1024w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/21052014laycertomaz_1-768x504.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1220px) 100vw, 1220px\" \/><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reproduzimos aqui o artigo\u00a0artigo &#8221; Pol\u00edtica de terreiros e pol\u00edtica para terreiros: viola\u00e7\u00f5es, reconhecimento de direitos, espa\u00e7o p\u00fablico e resist\u00eancias dos \u201cpovos tradicionais de matriz africana\u201d , escrito pela antrop\u00f3loga Ana Paula Mendes de Miranda (UFF &#8211; INCT\/INEAC) publicado no site da\u00a0Funda\u00e7\u00e3o Heinrich B\u00f6ll , organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alem\u00e3 sem fins lucrativos:\u00a0https:\/\/br.boell.org\/pt-br\/2023\/08\/18\/politica-de-terreiros-e-politica-para-terreiros-violacoes-reconhecimento-de-direitos\u00a0\u00a0. O artigo\u00a0 faz parte&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2177\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">Pol\u00edtica de terreiros e pol\u00edtica para terreiros: viola\u00e7\u00f5es, reconhecimento de direitos, espa\u00e7o p\u00fablico e resist\u00eancias dos \u201cpovos tradicionais de matriz africana\u201d<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2176,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2177"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2177\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2176"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}