{"id":2298,"date":"2024-03-31T22:32:36","date_gmt":"2024-03-31T22:32:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2298"},"modified":"2024-03-31T22:32:36","modified_gmt":"2024-03-31T22:32:36","slug":"a-guerra-contra-gaza-genocidio-geopolitica-e-antropologia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=2298","title":{"rendered":"A Guerra Contra Gaza: Genoc\u00eddio, Geopol\u00edtica e Antropologia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"font-Lora ago_art_tlt\">A Guerra Contra Gaza: Genoc\u00eddio, Geopol\u00edtica e Antropologia<\/h1>\n<p class=\"ago_art_author\">Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto<\/p>\n<p class=\"ago_art_author mb-4\">27.03.2024<\/p>\n<p class=\"ago_art_author mb-4\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"ago_art_author mb-4\"><label class=\"art_bold_agora txt-body-margem\">Resumo<\/label><\/p>\n<div class=\"art_rev_resume txt-body-margem\">\n<p>A ofensiva militar perpetrada por Israel contra Gaza desde outubro de 2023 reposicionou a \u201cquest\u00e3o palestina\u201d no centro do debate pol\u00edtico global. Cerca de 32.000 civis, mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o de 2,2 milh\u00f5es de habitantes do territ\u00f3rio, foram mortos pelos bombardeios e ofensivas terrestres do ex\u00e9rcito israelense, com mulheres e crian\u00e7as constituindo quase dois ter\u00e7os das v\u00edtimas. O n\u00famero de feridos j\u00e1 ultrapassa 74.000. No momento, cerca 1.9 milh\u00f5es de pessoas, cerca de 85% da popula\u00e7\u00e3o de Gaza, est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de deslocamento for\u00e7ado e ref\u00fagio em uma estreita faixa ao redor de Rafah. Esse territ\u00f3rio \u00e9 alvo de constantes bombardeios israelenses, sendo o objetivo declarado da pr\u00f3xima fase da ofensiva militar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div>A sec\u00e7\u00e3o Antropologia Urgente consiste em artigos em jeito de ensaio curto sobre tem\u00e1ticas prementes no duplo \u00e2mbito de uma antropologia da urg\u00eancia e de uma antropologia dos afectos, mas igualmente que marquem agendas p\u00fablicas ou que exploram realidades e fen\u00f3menos invisibilizados.\u00a0<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>A ofensiva militar perpetrada por Israel contra Gaza desde outubro de 2023 reposicionou a \u201cquest\u00e3o palestina\u201d no centro do debate pol\u00edtico global. Cerca de 32.000 civis, mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o de 2,2 milh\u00f5es de habitantes do territ\u00f3rio, foram mortos pelos bombardeios e ofensivas terrestres do ex\u00e9rcito israelense, com mulheres e crian\u00e7as constituindo quase dois ter\u00e7os das v\u00edtimas. O n\u00famero de feridos j\u00e1 ultrapassa 74.000. No momento, cerca 1.9 milh\u00f5es de pessoas, cerca de 85% da popula\u00e7\u00e3o de Gaza, est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de deslocamento for\u00e7ado e ref\u00fagio em uma estreita faixa ao redor de Rafah. Esse territ\u00f3rio \u00e9 alvo de constantes bombardeios israelenses, sendo o objetivo declarado da pr\u00f3xima fase da ofensiva militar.<\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div>\n<p>Foto de\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@chuttersnap\">CHUTTERSNAP<\/a>\u00a0no Unsplash.<\/p>\n<p>A ofensiva militar perpetrada por Israel contra Gaza desde outubro de 2023 reposicionou a \u201cquest\u00e3o palestina\u201d no centro do debate pol\u00edtico global. Cerca de 32.000 civis, mais de 1% da popula\u00e7\u00e3o de 2,2 milh\u00f5es de habitantes do territ\u00f3rio, foram mortos pelos bombardeios e ofensivas terrestres do ex\u00e9rcito israelense, com mulheres e crian\u00e7as constituindo quase dois ter\u00e7os das v\u00edtimas. O n\u00famero de feridos j\u00e1 ultrapassa 74.000<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. No momento, cerca 1.9 milh\u00f5es de pessoas, cerca de 85% da popula\u00e7\u00e3o de Gaza, est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de deslocamento for\u00e7ado e ref\u00fagio em uma estreita faixa ao redor de Rafah. Esse territ\u00f3rio \u00e9 alvo de constantes bombardeios israelenses, sendo o objetivo declarado da pr\u00f3xima fase da ofensiva militar.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em 7 de outubro de 2023 combatentes do Hamas e de outros grupos armados palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0atravessaram a barreira fortificada que cercava Gaza, atacando cidades, kibutzim e um festival de m\u00fasica eletr\u00f4nica pr\u00f3ximos \u00e0 fronteira. O ataque deixou 1139 mortos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0e 253 ref\u00e9ns, civis e militares, foram levados para Gaza<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Al\u00e9m do tragicamente alto n\u00famero de v\u00edtimas, foi a primeira vez, desde 1948, que grupos armados palestinos atacaram e controlaram, mesmo que temporariamente, por\u00e7\u00f5es significativas do territ\u00f3rio de Israel. A opera\u00e7\u00e3o militar israelense subsequente foi apresentada como uma resposta ao ataque organizado e liderado pelo Hamas. Por\u00e9m, desde seu in\u00edcio, a ofensiva militar israelense tinha como alvo n\u00e3o apenas a estrutura militar, institucional ou pol\u00edtica do Hamas, mas o conjunto da popula\u00e7\u00e3o de Gaza.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A infraestrutura civil de Gaza tamb\u00e9m tem sido um alvo constante de bombardeiros indiscriminados e opera\u00e7\u00f5es militares israelenses, os quais destru\u00edram a grande maioria das resid\u00eancias, escolas, universidades, mesquitas, igrejas e hospitais do territ\u00f3rio. As condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia foram afetadas, com cortes ou restri\u00e7\u00f5es severas ao acesso a eletricidade, combust\u00edvel, \u00e1gua pot\u00e1vel, medicamentos e comida. Embora Gaza seja o epicentro da viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o palestina, o ex\u00e9rcito e os colonos israelenses realizam cotidianamente diversos ataques contra civis na Cisjord\u00e2nia, provocando centenas de mortos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo institui\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias da ONU, como a UNRWA, foram alvo de intensa campanha visando seu desmantelamento, o que em parte ocorreu, apesar de n\u00e3o haver evid\u00eancias corroborando as acusa\u00e7\u00f5es de Israel<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Os sucessivos deslocamentos da popula\u00e7\u00e3o, a amplitude da destrui\u00e7\u00e3o, o colapso da ordem p\u00fablica, o bloqueio da ajuda humanit\u00e1ria e ataques a pessoas em busca de comida por parte de Israel levaram a uma situa\u00e7\u00e3o de fome generalizada, insalubridade, alta mortalidade e desnutri\u00e7\u00e3o infantil, ampliando a cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria para n\u00edveis imposs\u00edveis de serem revertidos em curto prazo e que ter\u00e3o efeitos dur\u00e1veis na popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Apesar de sua dimens\u00e3o catastr\u00f3fica, a Guerra contra Gaza se inscreve na longa hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o colonial dos territ\u00f3rios palestinos por parte de Israel. Gaza e a Cisjord\u00e2nia, foram conquistadas militarmente por Israel em 1967 e submetidas a um projeto de controle militar de suas popula\u00e7\u00f5es e coloniza\u00e7\u00e3o judaica de seus territ\u00f3rios. A constru\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o de assentamentos judaicos em territ\u00f3rio palestino foi tolerada e incentivada por sucessivos governos de Israel. Atualmente existem entre 600.000 e 700.000 colonos israelenses na Cisjord\u00e2nia e em Jerusal\u00e9m Oriental<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Gaza \u00e9 o resultado dessa hist\u00f3ria, tendo sua composi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica sido completamente alterada pelo influxo de refugiados que fugiam dos ataques militares, massacres e expuls\u00f5es que configuraram a \u201climpeza \u00e9tnica\u201d da Palestina durante o processo de cria\u00e7\u00e3o de Israel em 1947-1948<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. O territ\u00f3rio tamb\u00e9m foi alvo da constru\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias judaicas ap\u00f3s 1967. Os efeitos da ocupa\u00e7\u00e3o israelense sempre foram sentidos de forma mais aguda no contexto de pobreza, desemprego e superpopula\u00e7\u00e3o presentes em Gaza. N\u00e3o por acaso a primeira Intifada, a revolta civil contra a ocupa\u00e7\u00e3o israelense, come\u00e7ou em 1987 no campo de refugiados de Jabaliya, no norte de Gaza, antes de se espalhar pelos territ\u00f3rios palestinos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O Hamas<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0surgiu no mesmo ano, no contexto da repress\u00e3o militar israelense \u00e0 Intifada, quando o ramo da Irmandade Mu\u00e7ulmana em Gaza rompeu com a posi\u00e7\u00e3o oficial da organiza\u00e7\u00e3o de recusa da luta armada e adotou um nacionalismo religioso palestino centrado na \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d de toda a Palestina hist\u00f3rica<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>. \u00a0Os Acordos de Oslo entre Israel e a OLP, assinados em 1993, visavam a cria\u00e7\u00e3o negociada de um Estado palestino nos territ\u00f3rios ocupados. Por\u00e9m, os acordos n\u00e3o previam nenhum dispositivo que obrigasse Israel a cumprir com o que era acordado nas negocia\u00e7\u00f5es e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) foi criada sob ocupa\u00e7\u00e3o israelense do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Essas contradi\u00e7\u00f5es permitiram ao Hamas construir seu capital pol\u00edtico, oferecendo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o servi\u00e7os que a ANP n\u00e3o podia ou tinha condi\u00e7\u00f5es de oferecer, como cl\u00ednicas, escolas e coleta de lixo. Al\u00e9m disso, as a\u00e7\u00f5es armadas, que inclu\u00edam frequentes atentados suicidas contra alvos militares e civis israelenses eram apresentadas como retalia\u00e7\u00f5es \u00e0 constante viol\u00eancia do ex\u00e9rcito e dos colonos israelenses contra os palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Em 2005 o governo israelense retirou os 8.500 colonos judeus de Gaza, devido ao alto custo econ\u00f4mico e militar de mant\u00ea-los, transferindo-os para a Cisjord\u00e2nia, onde a coloniza\u00e7\u00e3o judaica se intensificou.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em 2006 o Hamas transformou o capital pol\u00edtico acumulado em uma vit\u00f3ria nas elei\u00e7\u00f5es legislativas palestinas. No entanto, press\u00f5es e san\u00e7\u00f5es internacionais capitaneadas por Israel contra a participa\u00e7\u00e3o do Hamas no governo levaram \u00e0 paralisia do governo. Em 2007 as tens\u00f5es sobre a reparti\u00e7\u00e3o do poder entre a Fatah, partido pol\u00edtico que controlava a ANP, e o Hamas escalaram para um confronto armado, com a Cisjord\u00e2nia ficando sob controle da Fatah e Gaza sob o controle do Hamas. Desde ent\u00e3o Israel imp\u00f4s um bloqueio a\u00e9reo, terrestre e mar\u00edtimo a Gaza, impedindo a sa\u00edda de pessoas e limitando a entrada de bens, inclusive alimentos, no territ\u00f3rio<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Como resultado disso boa parte da popula\u00e7\u00e3o dependia de ajuda humanit\u00e1ria para viver antes da guerra<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Periodicamente, ataques de foguetes por parte do Hamas, geralmente \u201cem resposta\u201d a a\u00e7\u00f5es de Israel contra os palestinos, eram acompanhados de ataques militares israelenses. O maior desses confrontos foi o de 2014, quando 2.251 palestinos foram mortos pelos bombardeios israelenses<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>. A corrente guerra se inscreve nessa sucess\u00e3o de confrontos armados anteriores.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>O avan\u00e7o da coloniza\u00e7\u00e3o israelense desde os Acordos de Oslo e a constru\u00e7\u00e3o do \u201cmuro de separa\u00e7\u00e3o\u201d levaram \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o espacial da Cisjord\u00e2nia e ao confinamento da sua popula\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rios ex\u00edguos. A intensifica\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o nos territ\u00f3rios ocupados, a implementa\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o discriminat\u00f3ria e a degrada\u00e7\u00e3o dos direitos civis da popula\u00e7\u00e3o \u00e1rabe palestina em Israel levaram a Human Rights Watch, em 2021, e a Amnesty International, em 2022, a publicarem documentos acusando Israel dos crimes de apartheid, opress\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o contra os palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o, embora amplamente conhecida e documentada, foi tolerada pela comunidade internacional por d\u00e9cadas. Diante da permissividade internacional, Israel investiu na invisibiliza\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos palestinos. A ocupa\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia dela resultante foram configuradas por Israel como um problema a ser gerenciado, oferecendo o horizonte de uma ilus\u00f3ria solu\u00e7\u00e3o de \u201cdois Estados\u201d, inviabilizada pelas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es israelenses. Os chamados \u201cAcordos de Abra\u00e3o\u201d levaram ao estabelecimento, em 2020, de rela\u00e7\u00f5es entre Israel e os Emirados \u00c1rabes Unidos, Bahrein, Sud\u00e3o e Marrocos, com apoio norte-americano. A possibilidade da Ar\u00e1bia Saudita assinar um acordo semelhante em 2023 consolidaria a marginaliza\u00e7\u00e3o dos palestinos na geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio, situa\u00e7\u00e3o que foi revertida com os ataques de 7 de outubro e os eventos que os sucederam.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A Guerra contra Gaza recolocou a quest\u00e3o palestina no centro da pol\u00edtica internacional, implodindo a ideia que ela poderia ser ignorada ou simplesmente gerenciada indefinidamente dentro do\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0da ocupa\u00e7\u00e3o. A dimens\u00e3o do conflito e sua import\u00e2ncia simb\u00f3lica fizeram com que praticamente todos os pa\u00edses tivessem que se posicionar a respeito. Essa mobiliza\u00e7\u00e3o internacional revelou, consolidou e aprofundou mudan\u00e7as na configura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Estados Unidos, Alemanha, Fran\u00e7a e Reino Unido declararam apoio total \u00e0s a\u00e7\u00f5es militares de Israel, evocando o \u201cdireito \u00e0 defesa\u201d deste, ignorando completamente o contexto da ocupa\u00e7\u00e3o e do bloqueio a Gaza e abandonando toda defer\u00eancia ao direito internacional. Os Estados Unidos enviaram quantidades massivas de armas a Israel e, juntamente com o Reino Unido, vetaram sucessivas propostas de cessar fogo apresentadas ao Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Alemanha, \u00c1ustria e Fran\u00e7a proibiram manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3-Palestina e trataram a solidariedade de suas popula\u00e7\u00f5es de origem \u00e1rabe e\/ou mu\u00e7ulmana com os palestinos como manifesta\u00e7\u00f5es de antissemitismo.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em todos esses pa\u00edses o apoio dos governos \u00e0 ofensiva militar israelense se deu apesar de protestos que expressavam a oposi\u00e7\u00e3o de parte significativa da popula\u00e7\u00e3o a essa posi\u00e7\u00e3o.\u00a0 Em paralelo a isso, a mem\u00f3ria do holocausto e o perigo do antissemitismo foram instrumentalizados pelo governo de Israel para deslegitimar e silenciar cr\u00edticas \u00e0s suas a\u00e7\u00f5es. Membros do governo israelense emitiam comunicados com claro teor genocida, dando inten\u00e7\u00e3o aniquiladora aos incessantes atos de viol\u00eancia e desumanizando suas v\u00edtimas, declarando que os palestinos eram \u201canimais humanos\u201d e que o objetivo da ofensiva militar seria \u201celiminar Gaza da face da terra\u201d<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Diante desse quadro, outro bloco de pa\u00edses se configurou com posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u00e0 brutalidade do ataque militar israelense e ao n\u00famero excessivamente elevado de v\u00edtimas civis. Alguns desses pa\u00edses, como a R\u00fassia e a China, j\u00e1 eram atores tradicionais da cena internacional e viram no conflito uma chance de avan\u00e7ar seus interesses ao confrontarem a duplicidade dos pa\u00edses ocidentais, que instrumentalizam ou ignoram as leis internacionais segundo seus interesses, colocando-se como improv\u00e1veis defensores da legisla\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria internacional na ONU.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por outro lado, diferentes pa\u00edses emergiram como representantes do chamado \u201cSul Global\u201d, buscando afirmar-se como atores relevantes em um universo geopol\u00edtico em recomposi\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o do Brasil, com cr\u00edticas contundentes a Israel, refletiu o descontentamento desses pa\u00edses com a impunidade de d\u00e9cadas de viola\u00e7\u00f5es dos diretos dos palestinos e da legisla\u00e7\u00e3o internacional por parte do Estado israelense. Alguns pa\u00edses passaram do discurso \u00e0 a\u00e7\u00e3o: a Bol\u00edvia rompeu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Israel; Col\u00f4mbia e Chile suspenderam acordos e retiraram seus embaixadores. A \u00c1frica do Sul foi mais al\u00e9m, usando seu capital pol\u00edtico como antiga v\u00edtima do apartheid para acusar Israel do crime de genoc\u00eddio junto \u00e0 Corte Internacional de Justica<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a>, em Haia.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Esses \u201cblocos\u201d que se configuraram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra n\u00e3o s\u00e3o de forma alguma homog\u00eaneos, pois a hist\u00f3ria e as quest\u00f5es internas de cada pa\u00eds informam seu posicionamento. Assim, a \u00cdndia adotou uma posi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel a Israel, pois o atual governo composto por nacionalistas hindus v\u00ea os mu\u00e7ulmanos, tanto na pr\u00f3pria \u00cdndia, quanto no Oriente M\u00e9dio, com hostilidade. Por outro lado, Irlanda, B\u00e9lgica, Vaticano, Espanha e Portugal adotaram posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas a Israel e contr\u00e1rias \u00e0 suspens\u00e3o da ajuda aos palestinos por parte da Uni\u00e3o Europeia. A guerra contra Gaza desencadeou recomposi\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, gerando novas alian\u00e7as, divis\u00f5es e centros de poder nas arenas internacionais.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Diante desse contexto, a antropologia, como disciplina comprometida com valores \u00e9ticos de respeito aos direitos e \u00e0 dignidade de todos os grupos humanos, n\u00e3o poderia ficar indiferente. Efetivamente, todas as principais organiza\u00e7\u00f5es profissionais da disciplina se pronunciaram a respeito da cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria em Gaza. Por\u00e9m, \u00e9 interessante notar que a \u201cgeografia da solidariedade\u201d tendeu a inverter-se em rela\u00e7\u00e3o ao campo pol\u00edtico, com posi\u00e7\u00f5es firmes de condena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es de Israel por parte de antropologias \u201ccentrais\u201d e declara\u00e7\u00f5es cautelosas vindas do \u201cSul Global\u201d.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em outubro de 2023 a American Anthropological Association (AAA) lan\u00e7ou uma nota na qual ela se solidarizava com as v\u00edtimas do ataque de 7 de outubro ao mesmo tempo que chamava aten\u00e7\u00e3o para o contexto da ocupa\u00e7\u00e3o israelense e das d\u00e9cadas de \u201c<em>viol\u00eancia estrutural e cotidiana imposta pelo governo israelense `a popula\u00e7\u00e3o palestina<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. A nota tamb\u00e9m condenava as medidas punitivas contra a popula\u00e7\u00e3o civil e o clima de intimida\u00e7\u00e3o nas universidades norte-americanas. A AAA j\u00e1 havia aderido ao BDS (Boicot Divestment, Sanctions), movimento de boicote a institui\u00e7\u00f5es israelenses visando o fim da ocupa\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o dos palestinos, em julho de 2023<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a>, ap\u00f3s uma equipe de antrop\u00f3logos ter produzido um documento detalhando a participa\u00e7\u00e3o das universidades israelenses na ocupa\u00e7\u00e3o, repress\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o dos palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em outubro a European Association of Social Anthropologists (EASA) emitiu uma nota ainda mais contundente, condenando \u201c<em>a viol\u00eancia perpetrada pelo Estado de Israel contra os civis de Gaza<\/em>\u201d, assim como \u201c<em>a representa\u00e7\u00e3o genocida dos palestinos como culpados, \u2018animais humanos\u2019 e merecedores de puni\u00e7\u00e3o coletiva<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a>. O comunicado ainda critica o apoio da Uni\u00e3o Europeia e de governos europeus \u00e0 ofensiva israelense em viola\u00e7\u00e3o das leis internacionais e condena a persegui\u00e7\u00e3o e intimida\u00e7\u00e3o de professores e alunos que expressaram sua solidariedade com os palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a>. Desde 2018, a EASA havia decido o boicote de institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas israelenses localizadas nos territ\u00f3rios ocupados<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Em contraste com a r\u00e1pida resposta da AAA e da EASA \u00e0 cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria de Gaza, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA), permaneceu em sil\u00eancio sobre o assunto por bastante tempo. Embora uma nota tenha sido emitida condenando a tentativa de criminaliza\u00e7\u00e3o de pesquisadores que haviam se pronunciado em solidariedade aos palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a>, nenhum comunicado foi feito sobre a guerra. Em novembro de 2023, tanto o N\u00facleo de Estudos do Oriente M\u00e9dio da Universidade Federal Fluminense, quanto um grupo de antrop\u00f3logos brasileiros pesquisadores da Palestina\/palestinos, Oriente M\u00e9dio e Norte da \u00c1frica emitiram notas condenando as a\u00e7\u00f5es militares e o massacre de civis em Gaza, assim como o apartheid e a ocupa\u00e7\u00e3o israelense nos territ\u00f3rios palestinos<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>\u00a0Diante desses pronunciamentos e das demandas de um posicionamento, a ABA organizou em dezembro de 2023 o webin\u00e1rio\u00a0<em>A antropologia face ao conflito Israel X Palestina<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><strong>[26]<\/strong><\/a><\/em>, visando a constru\u00e7\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o da ABA diante do que foi definido como o \u201cdissenso\u201d de seus membros sobre o assunto. Os participantes do webin\u00e1rio, antrop\u00f3logos com pesquisa na regi\u00e3o, ressaltaram a viol\u00eancia sem limites contra civis em Gaza e, em menor escala, na Cisjord\u00e2nia e a amplitude da destrui\u00e7\u00e3o. Eles tamb\u00e9m apontaram as causas do conflito na ocupa\u00e7\u00e3o, coloniza\u00e7\u00e3o e regime de apartheid que governam a vida dos palestinos.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A nota emitida pela ABA pouco ap\u00f3s o webin\u00e1rio surpreendentemente n\u00e3o incorporou praticamente nenhuma das quest\u00f5es apontadas pelos expositores<a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a>. O t\u00edtulo da nota n\u00e3o fez nenhuma refer\u00eancia direta a Gaza e o texto ignorou totalmente o contexto da ocupa\u00e7\u00e3o israelense e o desequil\u00edbrio de for\u00e7as no conflito. O ataque do Hamas em 7 de outubro foi apresentado como como o in\u00edcio de uma \u201c<em>escalada b\u00e9lica<\/em>\u201d que levou \u00e0 \u201c<em>morte de milhares de civis palestinos vulner\u00e1veis, incluindo um grande n\u00famero de crian\u00e7as<\/em>\u201d. A nota termina com a demanda de medidas humanit\u00e1rias na \u00e1rea de conflito e um cessar fogo imediato, al\u00e9m de um vago \u201cfim da viol\u00eancia\u201d, sem refer\u00eancia \u00e0s suas causas estruturais, ou seja, o apartheid e a ocupa\u00e7\u00e3o israelense dos territ\u00f3rios palestinos.\u00a0<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A guerra contra Gaza provocou uma reconfigura\u00e7\u00e3o das arenas globais, incitando posicionamentos e moldando circuitos de solidariedade da geopol\u00edtica \u00e0 antropologia. Tragicamente esses movimentos n\u00e3o limitaram ou impediram a viol\u00eancia genocida que se abate sem cessar sobre os palestinos e que deixar\u00e1 efeitos duradouros nas gera\u00e7\u00f5es futuras. Embora n\u00e3o exista ainda nenhum horizonte para o t\u00e9rmino dessa cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria, ela certamente marca o fim do processo de \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d da quest\u00e3o palestina como um problema sem consequ\u00eancias na ordem internacional.<\/p>\n<p><strong>Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto\u00a0<\/strong>(Departamento de Antropologia, N\u00facleo de Estudos do Oriente M\u00e9dio (NEOM), Universidade Federal Fluminense).<\/p>\n<p><\/p>\n<hr \/>\n<p><\/p>\n<p><strong>Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto\u00a0<\/strong>\u00e9 Professor do Departamento de Antropologia, Coordenador do N\u00facleo de Estudos do Oriente M\u00e9dio (NEOM), Universidade Federal Fluminense.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203\">https:\/\/etnografica.cria.org.pt\/pt\/agora\/203<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Guerra Contra Gaza: Genoc\u00eddio, Geopol\u00edtica e Antropologia Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto 27.03.2024 \u00a0 Resumo A ofensiva militar perpetrada por Israel contra Gaza desde outubro de 2023 reposicionou a \u201cquest\u00e3o palestina\u201d no centro do debate pol\u00edtico global. 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