{"id":380,"date":"2018-01-15T09:42:00","date_gmt":"2018-01-15T09:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=380"},"modified":"2018-01-15T09:42:00","modified_gmt":"2018-01-15T09:42:00","slug":"o-que-jovens-e-policiais-da-periferia-de-brasilia-tem-a-dizer-uma-analise-sociologica-sobre-identidades-representacoes-e-violencias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=380","title":{"rendered":"O QUE JOVENS E POLICIAIS DA PERIFERIA DE BRAS\u00cdLIA T\u00caM A DIZER? UMA AN\u00c1LISE SOCIOL\u00d3GICA SOBRE IDENTIDADES, REPRESENTA\u00c7\u00d5ES E VIOL\u00caNCIAS."},"content":{"rendered":"<p>O site do InEAC reproduz aqui o artigo &#8220;O que jovens e policiais da periferia de Bras\u00edlia t\u00eam a dizer? Uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica sobre identidades, representa\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias.&#8221; da antrop\u00f3loga Hayd\u00e9e Caruso, professora na Universidade de Bras\u00edlia. Investigadora visitante do ICS-UL e pesquisadora vinculada ao INCT InEAC . O artigo saiu publicado no blog Life Research group da Universidade de Lisboa. <a href=\"https:\/\/liferesearchgroup.wordpress.com\/2018\/01\/11\/o-que-jovens-e-policiais-da-periferia-de-brasilia-tem-a-dizer-uma-analise-sociologica-sobre-identidades-representacoes-e-violencias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/liferesearchgroup.wordpress.com\/2018\/01\/11\/o-que-jovens-e-polici&#8230;<\/a><br \/>&#8220;O que jovens e policiais da periferia de Bras\u00edlia t\u00eam a dizer? Uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica sobre identidades, representa\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel observar uma cidade, sua vida cotidiana, sua cultura local, seu ritmo e os personagens que por ela vivem e circulam por v\u00e1rias perspectivas, eu diria por m\u00faltiplas janelas. Uma das janelas que abri para compreender sociologicamente a din\u00e2mica citadina mostra-me os encontros e desencontros que marcam a rela\u00e7\u00e3o entre os jovens e policiais. Uso a palavra encontro de modo figurado, no sentido de colocar minha lupa sobre a possibilidade concreta de atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia junto a um de seus p\u00fablicos priorit\u00e1rios: os jovens.<\/p>\n<p>Neste caso, minha aposta concentra-se na ideia de que o contato, por vezes marcado por colis\u00f5es entre a pol\u00edcia e seus p\u00fablicos, num determinado contexto emp\u00edrico, pode ser revelador sobre as bases estruturais da rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e uma dada Sociedade.<\/p>\n<p>A partir do interesse em problematizar o lugar da Pol\u00edcia em sociedades desiguais e com uma fr\u00e1gil democracia, como a brasileira, \u00e9 que passei a me ocupar em realizar pesquisas emp\u00edricas que pudessem colocar luz sobre os dilemas e desafios enfrentados pela Pol\u00edcia, enquanto uma das institui\u00e7\u00f5es estatais de controle social, \u201cmais vistas e pouco conhecidas\u201d, apesar de ser \u201cum fato inevit\u00e1vel da vida moderna\u201d. (Reiner, 2004, p.83).<\/p>\n<p>Portanto, parto da ideia de que uma cidade pode ser decifrada tamb\u00e9m por aquilo que ela revela cotidianamente, a partir das abordagens que a pol\u00edcia faz em determinados grupos e n\u00e3o em outros, da sua presen\u00e7a num bairro, numa pra\u00e7a, quadra, escola\u2026 enfim, pelas experimenta\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias que cidad\u00e3os e policiais est\u00e3o imersos e que resulta num exerc\u00edcio de autoridade e alteridade permanente.<\/p>\n<p>Dito isso, resolvi realizar, entre 2013 e 2016, pesquisa emp\u00edrica na cidade de Ceil\u00e2ndia, localizada h\u00e1 30km da capital do Brasil e que possui mais de 400 mil habitantes.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma cidade qualquer no contexto da periferia de Bras\u00edlia. Seu nome traz a marca de sua distin\u00e7\u00e3o e vale aqui, em breves palavras, contar que o prefixo CEI remete a Campanha de Erradica\u00e7\u00e3o de Invas\u00f5es, promovida pelo governo nos anos de 1970, no intuito de retirar da nova capital e \u00edcone de cidade modernista, os que vieram de toda parte do Brasil para constru\u00ed-la, mas que n\u00e3o \u201ccabiam\u201d neste projeto de modernidade. Aqueles que se tornaram indesej\u00e1veis invasores e que permaneceram em canteiros de obras transformados em moradias irregulares foram \u201cconvencidos\u201d a ganhar um lote nesta nova cidade. (Andrade, 2007; Ribeiro, 2008; Tavares, 2009; Paviani; 2010; Barbosa, 2016)<\/p>\n<p>Passados mais de quarenta anos desde sua cria\u00e7\u00e3o, Ceil\u00e2ndia \u00e9, ao mesmo tempo, aus\u00eancia e resist\u00eancia. Territ\u00f3rio marcado simbolicamente pela aus\u00eancia (ou insufici\u00eancia) de pol\u00edticas p\u00fablicas, pelo descaso, abandono, precariedade e perigo traduzido em algumas \u00e1reas e em alguns corpos. \u00c9 simultaneamente palco de enorme resist\u00eancia, por meio da for\u00e7a de sua cena cultural, especialmente com o Hip Hop; da atua\u00e7\u00e3o de coletivos juvenis, de mulheres e de tantos outros atores sociais que se orgulham de serem Ceilandenses e que, por isso, de l\u00e1 n\u00e3o desejam sair.<\/p>\n<p>Durante o trabalho de campo, foi poss\u00edvel refletir sobre as vis\u00f5es de mundo dos agentes policiais que l\u00e1 atuam acerca de suas pr\u00e1ticas profissionais e as representa\u00e7\u00f5es em torno de suas a\u00e7\u00f5es voltadas para os jovens, bem como entender o que pensam esses mesmos jovens sobre a pol\u00edcia. Minha proposta consistiu em mapear quem s\u00e3o e o que pensam, levando em conta os elementos sociais, econ\u00f4micos, culturais e \u00e9tnico-raciais que norteiam essa rela\u00e7\u00e3o. Como num jogo de espelhos, a an\u00e1lise das narrativas dos distintos interlocutores visou explorar como os jovens veem a pol\u00edcia, como essa os enxerga e classifica, e como se veem mutuamente.<\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias dimens\u00f5es exploradas, uma chamou aten\u00e7\u00e3o pelo fato de que os policiais e jovens, quase sempre, estavam no mesmo momento et\u00e1rio, todavia essa condi\u00e7\u00e3o de ser um jovem policial pareceu trazer uma incompatibilidade em si. Explico o porqu\u00ea. \u00c9 como se, uma vez policial, mesmo que ainda jovem, fosse condi\u00e7\u00e3o suficiente para impossibilitar qualquer poss\u00edvel vincula\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria com outros jovens a serem policiados, protegidos e\/ou controlados.<\/p>\n<p>A farda \u2013 como uma segunda pele para o policial \u2013 o separa simbolicamente das poss\u00edveis brechas de reconhecimento junto ao seu p\u00fablico, o que refor\u00e7a diuturnamente a ideia de um n\u00f3s-policiais contra ou em combate a esses outros-inimigos.<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar esse argumento, foi interessante notar que al\u00e9m de idades semelhantes, muitos jovens e policiais possu\u00edam origens \u00e9tnicas e geogr\u00e1ficas parecidas e, por vezes, compartilhavam de uma mesma est\u00e9tica visual, gostos musicais e estilos de vida; entretanto essas poss\u00edveis semelhan\u00e7as n\u00e3o t\u00eam sido suficientes para construir intera\u00e7\u00f5es que resulte no exerc\u00edcio da autoridade e n\u00e3o da arbitrariedade; que privilegie a garantia de direitos e n\u00e3o a sua exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Tampouco entre os pr\u00f3prios jovens, as din\u00e2micas interativas deixam de ser marcadas por m\u00faltiplas viol\u00eancias. Ceil\u00e2ndia aparece nos dados oficiais como a cidade com o maior n\u00famero absoluto de homic\u00eddios do Distrito Federal, especialmente entre jovens, do sexo masculino e negros, mesmo que esses n\u00fameros estejam em queda desde 2012. Neste caso, os jovens est\u00e3o entre as principais v\u00edtimas e os principais autores. E se for um jovem negro, a probabilidade de ser uma v\u00edtima fatal \u00e9 3,37 vezes maior do que um jovem branco, considerando os dados de todo o Distrito Federal (Fonte: IVJ- Viol\u00eancia e Desigualdade Racial 2017).<\/p>\n<p>Portanto, enfrentar tal realidade, seja no contexto local investigado, como em n\u00edvel nacional, tem sido pauta constante das manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de diversos grupos sociais, institui\u00e7\u00f5es civis, universidades e, sobretudo, movimentos negros e de jovens no sentido de chamar aten\u00e7\u00e3o para a escalada de mortes que insistem em ser invisibilizadas na agenda de interven\u00e7\u00e3o estatal[1].<\/p>\n<p>Aproveito ainda para contar um pouco mais sobre as estrat\u00e9gias adotadas para o trabalho de campo em si, o qual foi fruto de um processo coletivo de constru\u00e7\u00e3o e imers\u00e3o no terreno, reunindo pesquisadores de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que, junto comigo ou individualmente, coletaram e analisaram os dados qualitativos obtidos.<\/p>\n<p>Foram v\u00e1rias as t\u00e9cnicas de pesquisa adotadas, desde entrevistas, grupos focais e observa\u00e7\u00e3o participante em escolas p\u00fablicas e unidades policiais. Contudo, uma delas foi a mais desafiadora: a que denominei \u201crodas de conversa\u201d, onde policiais e jovens de diferentes partes do Distrito Federal foram convidados a conversar.<\/p>\n<p>Uma das rodas foi registrada e resultou no document\u00e1rio Jovens e Policiais: um di\u00e1logo poss\u00edvel? Em poucas palavras, a experi\u00eancia olho no olho propiciou um di\u00e1logo incomum, ou melhor, criou um espa\u00e7o de fala e escuta entre atores reiteradamente colocados em campos opostos em que um representa o Estado, ainda constru\u00eddo, em oposi\u00e7\u00e3o aos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A possibilidade de uma conversa desprovida de um roteiro pr\u00e9-determinado de quest\u00f5es e respostas oficiais, em que jovens e policiais expuseram suas vis\u00f5es sobre a vida, suas fragilidades, anseios e medos revelou tanto pelo que foi dito, como tamb\u00e9m pelo que n\u00e3o foi dito \u2013 mas esteve presente nas entrelinhas e nos olhares entrecruzados: as v\u00e1rias feridas que continuam abertas numa sociedade marcada pelo seu passado colonial e escravocrata, que insiste em manter alguns mais iguais que outros, demonstrando que a ideia de uma sociedade livre e plural, ainda, faz parte de um longo percurso a cumprir.<\/p>\n<p>[1] Vale conferir a Campanha \u201cJovem Negro Vivo\u201d da Anistia Internacional \u2013 Brasil. Ver em <a href=\"https:\/\/anistia.org.br\/campanhas\/jovemnegrovivo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/anistia.org.br\/campanhas\/jovemnegrovivo\/<\/a> e a a\u00e7\u00e3o do Governo Federal Plano Juventude Viva em <a href=\"http:\/\/www.juventude.gov.br\/juventudeviva\/o-plano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.juventude.gov.br\/juventudeviva\/o-plano<\/a><\/p>\n<p>Como citar este artigo: Caruso, Haud\u00e9e (2018) O que jovens e policiais da periferia de Bras\u00edlia t\u00eam a dizer? Uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica sobre identidades, representa\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias. Life Research Group Blog, ICS-Lisboa, <a href=\"https:\/\/liferesearchgroup.wordpress.com\/2018\/01\/11\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">https:\/\/liferesearchgroup.wordpress.com\/2018\/01\/11<\/a> 11 de janeiro 2018 (Acedido a xx\/xx\/xx)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do InEAC reproduz aqui o artigo &#8220;O que jovens e policiais da periferia de Bras\u00edlia t\u00eam a dizer? Uma an\u00e1lise sociol\u00f3gica sobre identidades, representa\u00e7\u00f5es e viol\u00eancias.&#8221; da antrop\u00f3loga Hayd\u00e9e Caruso, professora na Universidade de Bras\u00edlia. Investigadora visitante do ICS-UL e pesquisadora vinculada ao INCT InEAC . O artigo saiu publicado no blog Life&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=380\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">O QUE JOVENS E POLICIAIS DA PERIFERIA DE BRAS\u00cdLIA T\u00caM A DIZER? 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