{"id":441,"date":"2018-02-27T13:19:51","date_gmt":"2018-02-27T13:19:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=441"},"modified":"2018-02-27T13:19:51","modified_gmt":"2018-02-27T13:19:51","slug":"em-publico-e-preciso-se-unir-conflitos-demandas-e-estrategias-politicas-entre-religiosos-de-matriz-afro-brasileira-na-cidade-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=441","title":{"rendered":"\u201cEM P\u00daBLICO, \u00c9 PRECISO SE UNIR\u201d: CONFLITOS, DEMANDAS E ESTRAT\u00c9GIAS POL\u00cdTICAS ENTRE RELIGIOSOS DE MATRIZ AFRO-BRASILEIRA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO"},"content":{"rendered":"<p>O Site do InEAC disponibiliza o link para acessar o artigo publicado na Scielo, \u201cEm p\u00fablico, \u00e9 preciso se unir\u201d: conflitos, demandas e estrat\u00e9gias pol\u00edticas entre religiosos de matriz afro-brasileira na cidade do Rio de Janeiro; produzido pelas antrop\u00f3logas Ana Paula Mendes de Miranda e Roberta Baniolo e que trata do tema Religi\u00e3o &amp; Sociedade<\/p>\n<p>O texto est\u00e1 disponivel no endere\u00e7o : <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rs\/v37n2\/0100-8587-rs-37-2-00086.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rs\/v37n2\/0100-8587-rs-37-2-00086.pdf<\/a><\/p>\n<p>RESUMO<\/p>\n<p>A cidade do Rio de Janeiro tem sido palco de conflitos e processos de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de religiosos de matriz afro-brasileira, que reivindicam pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas ao direito de expressar sua religiosidade no espa\u00e7o p\u00fablico. O objetivo deste artigo \u00e9 o de problematizar, a partir de distintas experi\u00eancias etnogr\u00e1ficas, como se d\u00e1 o processo de constru\u00e7\u00e3o de discursos relacionados \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o de direitos, envolvendo grupos cuja socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 distinta daquelas observadas entre grupos considerados mais \u201cengajados\u201d dos movimentos negros, mas cujas a\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m produzem resultados na constitui\u00e7\u00e3o de um campo pol\u00edtico que inclui a dimens\u00e3o religiosa. Neste sentido, produzimos uma reflex\u00e3o acerca dos distintos e m\u00faltiplos modos de fazer e pensar a pol\u00edtica, tomando como objeto a inven\u00e7\u00e3o de uma tecnologia de governo, deveras introjetada na vida social e nas pr\u00e1ticas profissionais, que s\u00e3o as reuni\u00f5es, e suas deriva\u00e7\u00f5es, aqui associadas a eventos p\u00fablicos. Ao trat\u00e1-las como mecanismos de governo foi poss\u00edvel analisar como os discursos acerca da cidadania s\u00e3o apresentados por seus representantes oficiais (policiais, pol\u00edticos, professores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, etc.) e apreendidos pelos religiosos de matriz afro-brasileira em dois contextos etnogr\u00e1ficos distintos, que podem ser pensados como equivalentes na medida em que engendram pr\u00e1ticas e gram\u00e1ticas pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Palavras-Chave conflitos; mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; espa\u00e7o p\u00fablico; religi\u00f5es afro-brasileiras<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nosso objetivo neste artigo \u00e9 problematizar, a partir de distintas experi\u00eancias etnogr\u00e1ficas, como se d\u00e1 o processo de constru\u00e7\u00e3o de discursos relacionados \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o de direitos, envolvendo grupos cuja socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 distinta daquelas observadas entre grupos considerados mais \u201cengajados\u201d dos movimentos negros, mas cujas a\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m produzem resultados na constitui\u00e7\u00e3o de um campo pol\u00edtico que inclui a dimens\u00e3o religiosa. O prop\u00f3sito \u00e9 produzir uma reflex\u00e3o acerca dos distintos e m\u00faltiplos modos de fazer e pensar a pol\u00edtica, tomando como objeto a inven\u00e7\u00e3o de uma tecnologia de governo, deveras introjetada na vida social e nas pr\u00e1ticas profissionais, que s\u00e3o as reuni\u00f5es, e suas deriva\u00e7\u00f5es, aqui associadas a eventos p\u00fablicos. Ao trat\u00e1-las como mecanismos de governo \u00e9 poss\u00edvel analisar como os discursos acerca da cidadania s\u00e3o apresentados por seus representantes oficiais (policiais, pol\u00edticos, professores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, etc.) e apreendidos pelos religiosos de matriz afro-brasileira em dois contextos distintos, que podem ser pensados como equivalentes.<\/p>\n<p>Em 2007 Daniel Cefa\u0457 publicou a obra Pourquoi se mobilise-t-on?. Les th\u00e9ories de l&#8217;action collective, na qual apresentava uma proposta de an\u00e1lise das mobiliza\u00e7\u00f5es coletivas destacando alguns eixos anal\u00edticos: o desenvolvimento de uma sociologia dos \u201cregimes de a\u00e7\u00e3o\u201d, a retomada da no\u00e7\u00e3o de \u201cp\u00fablico\u201d, a concep\u00e7\u00e3o das redes e das organiza\u00e7\u00f5es como arenas de experi\u00eancia e de a\u00e7\u00e3o, e uma abordagem sobre a cultura voltada \u00e0s experi\u00eancias individuais e coletivas. O autor (Cefa\u00ef 2007) narrou como a sociologia \u201cpragm\u00e1tica\u201d afetou as Ci\u00eancias Sociais na Fran\u00e7a, sem que, no entanto, atingisse a sociologia dos movimentos sociais, que se manteve presa a modelos interpretativos que tendiam a reduzir as iniciativas de mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva \u00e0s a\u00e7\u00f5es racionais, motivadas por interesses, impossibilitando compreender as complexas teias que envolvem as pessoas e os coletivos que desse processo se originam, bem como as situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o reveladas. Sua proposta pode ser resumida, ent\u00e3o, em compreender as mobiliza\u00e7\u00f5es coletivas a partir de sua constitui\u00e7\u00e3o, por diversas maneiras de envolvimento, o que pode resultar em processos coercitivos nem sempre transparentes aos atores, ocultando as dimens\u00f5es morais e afetivas que engendram esses processos.<\/p>\n<p>Embora este artigo n\u00e3o se filie \u00e0 sociologia pragm\u00e1tica, \u00e9 preciso ressaltar que essa abordagem nos inspirou, na medida em que tornou poss\u00edvel a descri\u00e7\u00e3o de algumas experi\u00eancias coletivas; no caso, processos de mobiliza\u00e7\u00f5es, conflitos e configura\u00e7\u00f5es institucionais relacionados \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de cidadania e desenvolvimento de pol\u00edticas p\u00fablicas envolvendo religiosos de matriz afro-brasileira na cidade do Rio de Janeiro. Tomaremos como foco as intera\u00e7\u00f5es com diferentes atores do poder p\u00fablico na constru\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de dispositivos de disciplinamento dos comportamentos e dos discursos1 (Foucault 1996). Tomamos como ponto de partida a an\u00e1lise de reuni\u00f5es regulares realizadas por dois grupos, a Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR) e o grupo Elos da Diversidade, que t\u00eam em comum a apresenta\u00e7\u00e3o de demandas por respeito ao direito \u00e0 liberdade religiosa e ao uso do espa\u00e7o p\u00fablico2 para a realiza\u00e7\u00e3o de suas pr\u00e1ticas religiosas. Tal escolha permite apresentar processos de aprendizado de uma gram\u00e1tica c\u00edvica que embasa a busca por direitos, cuja principal distin\u00e7\u00e3o est\u00e1 na inclus\u00e3o da dimens\u00e3o religiosa como uma vari\u00e1vel importante em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s abordagens marxistas que durante anos influenciaram os movimentos negros, que deslegitimava o tema como parte do debate p\u00fablico, assim como tamb\u00e9m deslegitimava as quest\u00f5es de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Privilegiamos a an\u00e1lise das reuni\u00f5es por considerar que favorecem uma abordagem situacional que privilegia a explicita\u00e7\u00e3o dos conflitos, ao mesmo tempo em que revela os processos de constru\u00e7\u00e3o de uma esfera p\u00fablica e das a\u00e7\u00f5es dos sujeitos respons\u00e1veis pela constru\u00e7\u00e3o dos discursos (Agier 2011; Van Velsen 1987). Constitui-se, portanto, como um lugar de discuss\u00e3o, no qual os diferentes atores t\u00eam a possibilidade de debater ideias com os demais. Construir uma \u201cpauta\u201d, com o objetivo de alcan\u00e7ar um ponto final comum, pressup\u00f5e a produ\u00e7\u00e3o de algum consenso e a exist\u00eancia de simetria entre os participantes. Caso seja bem-sucedida, a reuni\u00e3o, al\u00e9m de gerar um consenso, deve propiciar algum resultado, preferencialmente uma interven\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o e esfera p\u00fablicos. Espera-se, principalmente, estimular a presen\u00e7a do maior n\u00famero de pessoas nos atos p\u00fablicos, como um mecanismo de press\u00e3o para as demandas requeridas. Como observou Comerford (1999), no \u00e2mbito de organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores rurais, as reuni\u00f5es se configuram n\u00e3o apenas como um espa\u00e7o de tomada de decis\u00e3o, mas tamb\u00e9m de constru\u00e7\u00e3o de sociabilidades e diferentes formas de participa\u00e7\u00e3o dos seus membros.<\/p>\n<p>H\u00e1 condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se construir uma agenda comum, das quais destacamos os fatores internos, como, por exemplo, a participa\u00e7\u00e3o de representantes considerados &#8220;leg\u00edtimos&#8221;, e externos, tal como a capacidade de dar maior ou menor visibilidade aos problemas e delibera\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante esclarecer que essa simetria entre os participantes se constr\u00f3i de forma ret\u00f3rica, a partir do prest\u00edgio pessoal (Comerford 1999) dos que det\u00eam o controle sobre as decis\u00f5es e dos que se encontram numa situa\u00e7\u00e3o inferiorizada naquele dado contexto. Como isso se d\u00e1 na pr\u00e1tica \u00e9 o que pretendemos apresentar adiante.<\/p>\n<p>Os dados que orientaram nossas interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o resultados de etnografias de dezenas de reuni\u00f5es das quais participamos junto a estes dois grupos distintos3 ao longo dos anos de 2008 a 2014. A observa\u00e7\u00e3o das reuni\u00f5es possibilitou refletir quais e como as estrat\u00e9gias pol\u00edticas s\u00e3o mobilizadas pelos integrantes para promoverem suas agendas pol\u00edticas, tendo como argumentos principais a publiciza\u00e7\u00e3o do sofrimento das \u201cv\u00edtimas de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d no caso da CCIR, e a vincula\u00e7\u00e3o das \u201cdeidades\u201d4 afro-brasileiras aos elementos da natureza, pelo Elos da Diversidade, como uma forma de legitimar o uso religioso dos espa\u00e7os naturais para as pr\u00e1ticas rituais. A articula\u00e7\u00e3o entre os saberes pol\u00edtico e religioso, nos dois casos, permite-nos problematizar que a separa\u00e7\u00e3o entre esses campos \u00e9 t\u00eanue, permeando todos os processos de formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Apesar de terem din\u00e2micas e objetivos pr\u00f3prios, as reuni\u00f5es analisadas podem ser compreendidas como espa\u00e7os de constitui\u00e7\u00e3o de saberes por meio de dispositivos de regula\u00e7\u00e3o dos comportamentos e, especialmente, dos discursos dos participantes. Nossa abordagem, portanto, pretende demonstrar como a formula\u00e7\u00e3o de uma agenda pol\u00edtico-religiosa pode ser tratada como equivalente ao processo de \u201cconstru\u00e7\u00e3o da cidadania\u201d, cujo foco est\u00e1 na \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o\u201d de direitos partilhados entre os membros dos dois grupos analisados, descortinando um modo pr\u00f3prio dos religiosos de matriz afro-brasileira de participar da vida pol\u00edtica na cidade do Rio de Janeiro. Tal perspectiva permite pensar a diferencia\u00e7\u00e3o e complexidade das agendas que se unem no compartilhamento da \u201ccren\u00e7a\u201d no Estado como uma inst\u00e2ncia capaz de administrar a diferen\u00e7a e garantir o status de sujeitos pol\u00edticos aos religiosos de matriz afro-brasileira que, historicamente5, foram desqualificados pelos agentes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es dos dois grupos tornaram-se loci priorit\u00e1rios para a an\u00e1lise, uma vez que nelas eram explicitados os conflitos envolvendo os diferentes segmentos que as compunham e as estrat\u00e9gias desenvolvidas para assegurar o di\u00e1logo com os representantes do Estado &#8211; estrat\u00e9gia consagrada para garantir a legitimidade \u00e0s pautas tra\u00e7adas. Consequentemente, as reuni\u00f5es correspondiam a momentos de encontro, durante os quais todos podem falar, ouvir e ser vistos, a despeito de rivalidades e disputas presentes no campo religioso6. Nesse sentido, voltamos o nosso olhar para compreender as reuni\u00f5es como um l\u00f3cus no qual os participantes eram socializados em uma linguagem pol\u00edtica espec\u00edfica &#8211; a das demandas por direitos7, atrav\u00e9s de um sistema de aprendizagem, segundo o qual as falas e os gestos devem ser moldados, a partir de interven\u00e7\u00f5es diretas e indiretas dos demais participantes, na busca de um equil\u00edbrio entre hist\u00f3rias pessoais e discursos pol\u00edticos legitimados.<\/p>\n<p>Dentre os temas abordados julgamos relevante destacar algumas pautas importantes que comp\u00f5em o quadro sociopol\u00edtico que tem contado com a participa\u00e7\u00e3o de diversas lideran\u00e7as religiosas de matriz afro-brasileira: o debate sobre a\u00e7\u00f5es afirmativas nas universidades e concursos p\u00fablicos; o reconhecimento de identidades quilombolas; a luta pela implanta\u00e7\u00e3o da Lei 10.639\/2003; a constru\u00e7\u00e3o do Estatuto da Igualdade Racial; movimentos de den\u00fancia contra o genoc\u00eddio da juventude negra; repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e humanit\u00e1ria para os negros; cr\u00edtica ao pensamento euroc\u00eantrico; al\u00e9m da intoler\u00e2ncia religiosa.<\/p>\n<p>A delimita\u00e7\u00e3o desta agenda permite identificar quais s\u00e3o os temas que esses sujeitos utilizam para delimitar o campo do que pode ser considerado como o \u201cpol\u00edtico\u201d em contraste ao que n\u00e3o \u00e9, sendo deslocado para o campo do \u201creligioso\u201d. Considerado um terreno pantanoso, tudo o que se referia aos ritos era objeto de grande controv\u00e9rsia, na medida em que poderia representar a preval\u00eancia das concep\u00e7\u00f5es de um dado grupo em detrimento de outros. A possibilidade de consenso somente parecia poss\u00edvel no que se referia, portanto, quando o \u201cpol\u00edtico\u201d pudesse ser \u201centendido como pot\u00eancia de institui\u00e7\u00e3o de capacidades e de direitos (do lado do Estado) e como pot\u00eancia de agir em acordo (do lado do p\u00fablico)\u201d (Cefa\u0457, 2009: 17).<\/p>\n<p>Mas o afastamento do \u201creligioso\u201d n\u00e3o era absoluto nas reuni\u00f5es. A escolha das datas e locais era, na maioria das vezes, justificada por meio de consultas aos or\u00e1culos (b\u00fazios, opel\u00e9, cartas, etc.). Havia tamb\u00e9m os pedidos feitos aos Orix\u00e1s e Entidades, os quais se n\u00e3o fossem atendidos, colocariam em risco o sucesso das atividades. Buscava-se, assim, assegurar o \u201dax\u00e9\u201d, categoria nativa que informa \u201ca energia que anima a vida, que tamb\u00e9m \u00e9 o princ\u00edpio que estrutura as rela\u00e7\u00f5es entre homens e deuses\u201d. Era este o sentido de cumprir com as \u201cobriga\u00e7\u00f5es\u201d. Tratava-se de administrar o plano dos sentimentos (n\u00e3o irritar as divindades), o que resultava em distintas experi\u00eancias e viv\u00eancias religiosas. Todas seriam bem-vindas, desde que n\u00e3o se impusesse um modelo \u00fanico. Era o encantamento da pol\u00edtica p\u00fablica (Boniolo, 2014), ou seja, uma articula\u00e7\u00e3o de saberes t\u00e9cnico-cient\u00edficos dos representantes do Estado \u00e0 magia, associada \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o humanos, das a\u00e7\u00f5es dos religiosos. Essas a\u00e7\u00f5es imprimiram marcas na cidade, seja na cria\u00e7\u00e3o de um calend\u00e1rio pr\u00f3prio de eventos, seja na presen\u00e7a dos eb\u00f3s8 na paisagem da Floresta da Tijuca. Cada qual a seu modo revelou articula\u00e7\u00f5es entre os dom\u00ednios secular e religioso constitutivos de espa\u00e7os e esferas p\u00fablicas de embate e aproxima\u00e7\u00e3o do \u201cpol\u00edtico\u201d e do \u201creligioso\u201d.<\/p>\n<p>Na luta com Xang\u00f4, Ians\u00e3 e Ob\u00e1: a uni\u00e3o improv\u00e1vel em torno de uma causa &#8211; o combate \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa<\/p>\n<p>Todas as quartas-feiras, por volta das 16 horas, pessoas de diferentes credos chegavam \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Umbandista do Brasil (CEUB), no bairro do Est\u00e1cio, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Por ser pr\u00f3ximo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4, o centro esp\u00edrita tem uma localiza\u00e7\u00e3o valorizada, pois assegura que os religiosos se desloquem com mais facilidade. As lideran\u00e7as iam chegando aos poucos, mas nem sempre era f\u00e1cil identificar a que grupo pertenciam. No port\u00e3o havia apenas um elemento que anunciava o centro esp\u00edrita: um pequeno cartaz com o nome do templo e os dias das consultas espirituais. Para entrar era preciso tocar a campainha e se identificar pelo interfone.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es ocorriam no terra\u00e7o, que fica no terceiro e \u00faltimo andar do pequeno pr\u00e9dio. As cadeiras de pl\u00e1stico ficavam dispostas de frente para a mesa principal, organizadas em cinco fileiras com cerca de seis assentos. A disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00f3veis para a reuni\u00e3o remetia a uma sala de aula, mas o que ocorreria ali era um evento de outra ordem. Tratava-se da reuni\u00e3o da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR), cuja convoca\u00e7\u00e3o ocorria via correio eletr\u00f4nico pelo secret\u00e1rio da CEUB que acumulava a fun\u00e7\u00e3o voluntariamente na CCIR.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-134\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/prim.png\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"274\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/prim.png 370w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/prim-300x222.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><\/p>\n<p>Em geral, a reuni\u00e3o funcionava como um espa\u00e7o de compartilhamento de comunicados, coment\u00e1rios e de constru\u00e7\u00e3o coletiva de documentos a serem divulgados pela CCIR, bem como a divulga\u00e7\u00e3o de \u201ccasos de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d9 em diferentes estados do Brasil e na cidade do Rio de Janeiro. Sempre se notava a presen\u00e7a de uma equipe de apoio, composta pelo secret\u00e1rio e outros integrantes que atuavam como colaboradores.<\/p>\n<p>A ambienta\u00e7\u00e3o favorecia que o espa\u00e7o da fala ficasse sob controle dos componentes da mesa. A din\u00e2mica se assemelhava a de uma assembleia, na qual se discutiam e\/ou resolviam certas quest\u00f5es, do mesmo modo que se tra\u00e7avam estrat\u00e9gias pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o sobre os casos de \u201cintoler\u00e2ncia\u201d recebidos. Os participantes podiam variar durante os eventos, mas havia um grupo que estava sempre presente e assegurava o funcionamento da Comiss\u00e3o que, apesar do nome, n\u00e3o possu\u00eda nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o formalizada, fato que era valorizado positivamente pelo \u201cinterlocutor\u201d. No seu entendimento, essa estrutura representava uma postura receptiva a todos os grupos religiosos.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o era conduzida pelo interlocutor, que era respons\u00e1vel pela representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do grupo perante a sociedade. Era ele quem iniciava e encerrava as atividades, controlava o tempo das falas, fazia os contatos com os pol\u00edticos e com a imprensa. Nas rela\u00e7\u00f5es cotidianas, notamos que havia um esfor\u00e7o de construir uma imagem de que ele teria uma fun\u00e7\u00e3o apaziguadora entre os diversos grupos que compunham a Comiss\u00e3o. Ele se apresentava como um articulador que tinha como principal instrumento o uso da palavra. Uma de suas principais preocupa\u00e7\u00f5es era a prud\u00eancia dos participantes da Comiss\u00e3o diante de qualquer situa\u00e7\u00e3o do dia a dia. Seu tom de voz era quase sempre sereno e incentivava a todos que se acalmassem antes de qualquer posicionamento diante de eventos pol\u00eamicos. Seu papel era, em tese, de porta-voz e n\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. No entanto, observamos que os pap\u00e9is se misturavam constantemente e revelavam conflitos junto aos demais integrantes.<\/p>\n<p>A necessidade de parecer imparcial n\u00e3o era, em nossa percep\u00e7\u00e3o, uma estrat\u00e9gia, mas sim um recurso pol\u00edtico para ocultar as assimetrias entre os componentes da Comiss\u00e3o. Este fato era importante porque revelava como se dava o conv\u00edvio (ou conflito) entre diferentes hierarquias religiosas, uma vez que o \u2018interlocutor\u2019 da CCIR era entendido como representante p\u00fablico das religi\u00f5es afro-brasileiras apesar de ser um sacerdote \u201cmais novo\u201d. V\u00e1rios componentes da CCIR possu\u00edam mais tempo de inicia\u00e7\u00e3o nos cultos afro-brasileiros e n\u00e3o aceitavam a ideia de serem \u201cchefiados\u201d por algu\u00e9m mais novo no \u201csanto\u201d. A hierarquia dos sujeitos era revelada em algumas situa\u00e7\u00f5es, a partir de rela\u00e7\u00f5es invis\u00edveis aos pesquisadores, j\u00e1 que na maior parte do tempo n\u00e3o era poss\u00edvel se identificar naquele espa\u00e7o, pela aus\u00eancia de signos lit\u00fargicos, os cargos hier\u00e1rquicos dos participantes. A sociabilidade era marcada por uma rela\u00e7\u00e3o entre sujeitos mediada pela rela\u00e7\u00e3o com o sagrado. No entanto, invertia-se o sentido popular do termo religi\u00e3o (religare) que, no plano do discurso era acionado para legitimar o valor da liga\u00e7\u00e3o do humano com o divino, para ser transportado a outro sentido, o da demarca\u00e7\u00e3o de distin\u00e7\u00f5es entre \u201chomens e deuses\u201d (Agamben 2007: 66) ou entre os pr\u00f3prios integrantes do grupo.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es seguiam razoavelmente a mesma din\u00e2mica e dura\u00e7\u00e3o, sendo comum o ingresso de participantes atrasados. Participavam da reuni\u00e3o os integrantes da CCIR, convidados ou religiosos que apenas apareciam para relatar situa\u00e7\u00f5es de \u201cintoler\u00e2ncia\u201d com o intuito de buscar orienta\u00e7\u00e3o dos membros da CCIR. No que se refere \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos participantes pelo espa\u00e7o, observamos que n\u00e3o era pr\u00e9-definida, eles chegavam e sentavam-se aleatoriamente. O mesmo n\u00e3o se observava em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cinterlocutor\u201d, \u00e0 dirigente da CEUB, ao secret\u00e1rio e aos representantes de organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas (delegado, promotor, etc.). Estes ficavam equidistantes, distribu\u00eddos diante da plateia. Dentre os representantes de organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, a presen\u00e7a mais constante era a da representa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, o que \u00e9 compreens\u00edvel porque havia a necessidade de assegurar o registro dos casos de intoler\u00e2ncia nas delegacias. Esta era uma das metas priorit\u00e1rias do grupo.<\/p>\n<p>Quando foi criada, em 2008, a Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa cobrava das autoridades que os direitos de \u201cliberdade religiosa\u201d fossem assegurados sob a forma de planos (estadual e nacional) e cartas-compromisso com candidatos aos cargos eletivos. Num primeiro momento, a \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d era apresentada por alguns membros como uma forma de racismo. Essa era a posi\u00e7\u00e3o defendida, principalmente, pelos integrantes dos movimentos negros que dela participavam. A defesa da articula\u00e7\u00e3o de parcerias com outras religi\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, para garantir que os pleitos da CCIR fossem atendidos, acabou se tornando uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica do grupo, que progressivamente foi deixando de ser majoritariamente da umbanda e do candombl\u00e9, para assumir uma configura\u00e7\u00e3o diferenciada. Essa transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deu tranquilamente. Ao contr\u00e1rio, foi fruto de v\u00e1rios debates p\u00fablicos acalorados, que resultaram no afastamento de muitos membros, principalmente aqueles ligados aos movimentos negros, que deixaram de participar da Comiss\u00e3o. Por sua vez, esta passou a contar com outros grupos (judeus, mu\u00e7ulmanos, cat\u00f3licos, anglicanos, batistas, entre outros). Tamb\u00e9m eram presen\u00e7a constante as ONGs, como o Projeto Legal10 e o Centro de Articula\u00e7\u00e3o de Popula\u00e7\u00f5es Marginalizadas (CEAP)11, os ciganos e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, geralmente ligadas \u00e0 defesa de direitos humanos. Essa diversidade de representa\u00e7\u00f5es era classificada de duas formas: os \u201cmembros\u201d, que correspondiam a todos que frequentavam as reuni\u00f5es e os eventos regularmente, e os \u201cparceiros\u201d, que eram os que apoiavam as atividades, mesmo sem estarem presentes. Acompanhamos semanalmente as reuni\u00f5es no per\u00edodo de 2008 a 201112, a fim de compreendermos como a Comiss\u00e3o selecionava e assistia os \u201ccasos de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d que chegavam ao conhecimento dos seus membros e os encaminhava aos representantes do poder p\u00fablico, em especial, a Pol\u00edcia Civil e o Minist\u00e9rio P\u00fablico. Estes integravam o grupo como convidados da CCIR, com o prop\u00f3sito de que as \u201cv\u00edtimas\u201d recebessem um \u201ctratamento adequado\u201d por parte dessas institui\u00e7\u00f5es (Boniolo 2011; Miranda 2010, 2012; Pinto 2011; Riscado 2014).<\/p>\n<p>Na din\u00e2mica das reuni\u00f5es, ap\u00f3s a discuss\u00e3o de todos os itens da pauta, o \u201cinterlocutor\u201d convidava, quando havia alguma \u201cv\u00edtima\u201d presente, para que esta ficasse de p\u00e9 diante dos presentes e contasse em pormenores o que havia ocorrido. Era considerada v\u00edtima pelos membros da CCIR toda pessoa que tivesse sofrido algum \u201cato de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d, tais como xingamentos, amea\u00e7as e agress\u00f5es motivados por quest\u00f5es religiosas, ainda que a religi\u00e3o n\u00e3o fosse o motivo do desentendimento entre os envolvidos.<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas e a emo\u00e7\u00e3o na descri\u00e7\u00e3o das viol\u00eancias vividas e os coment\u00e1rios de indigna\u00e7\u00e3o dos demais membros marcavam essa etapa da reuni\u00e3o. No entanto, nem sempre era consensual que a hist\u00f3ria narrada se tratava mesmo de um \u201cato de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d perante os integrantes da CCIR. Diversas perguntas eram direcionadas \u00e0 v\u00edtima para esclarecer as d\u00favidas que a hist\u00f3ria suscitara, desde a rela\u00e7\u00e3o com o suposto agressor at\u00e9 o tratamento recebido nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Era constante a preocupa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao registro do fato na pol\u00edcia, seguido pela preocupa\u00e7\u00e3o de que tivesse havido a \u201ccorreta\u201d tipifica\u00e7\u00e3o do registro de ocorr\u00eancia, isto \u00e9, se o mesmo fora tipificado segundo a Lei Ca\u00f313.<\/p>\n<p>Em meados de 2010, M\u00f4nica14, funcion\u00e1ria de um banco privado na cidade do Rio de Janeiro, contou em detalhes a todos os membros da CCIR o que ocorrera no ambiente de trabalho. No decorrer da hist\u00f3ria, chorava relembrando os momentos em que fora hostilizada por uma colega de trabalho, que a chamava de macumbeira, \u201caquela que jogava pozinho na mesa dos outros\u201d. Ao final, disse que registrou a ocorr\u00eancia na delegacia. No entanto, afirmou que o documento fora tipificado como \u201camea\u00e7a\u201d, e n\u00e3o como \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d. Assim que terminou de falar, o interlocutor da Comiss\u00e3o perguntou se algu\u00e9m possu\u00eda alguma pergunta. Em seguida, destacou que havia uma disputa pessoal nesse caso, no qual a pessoa a estigmatizava, chamando-a de macumbeira. Aconselhou que o sindicato dos banc\u00e1rios procurasse o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) e que chamassem o banco para uma conversa. Achou, tamb\u00e9m, prudente que a CCIR marcasse uma reuni\u00e3o com a dire\u00e7\u00e3o do banco para ouvir \u201ca outra parte\u201d, antes de tomar qualquer atitude.<\/p>\n<p>Semanas depois, foi enviado um e-mail comunicando que os membros da CCIR encontrar-se-iam com o procurador do MPT com o objetivo de oficializar a primeira den\u00fancia de \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d no ambiente de trabalho. A mensagem informava ainda que representantes do banco haviam sido convidados a comparecer \u00e0 reuni\u00e3o semanal da CCIR. Na breve descri\u00e7\u00e3o que se seguia aos compromissos da CCIR, constava o informe de que M\u00f4nica acusava o banco e uma colega da mesma ag\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o religiosa. Na mensagem, Monica aparece como \u201cv\u00edtima\u201d e afirmava que sofrera uma amea\u00e7a e uma agress\u00e3o verbal por parte de uma colega evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Assim que M\u00f4nica chegou \u00e0 Comiss\u00e3o, o interlocutor achou prudente conversar com os representantes do banco antes de formalizar uma acusa\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m duvidava da hist\u00f3ria contada por M\u00f4nica, mas precisavam decidir sobre como agir. Isso inclu\u00eda discutir com o delegado da Pol\u00edcia Civil as possibilidades da retipifica\u00e7\u00e3o do registro de ocorr\u00eancia e recorrer aos conhecidos que pudessem ajudar no caso. No decorrer das semanas, a hist\u00f3ria deixou de ser apenas entre M\u00f4nica e a colega de trabalho e passou a envolver tamb\u00e9m o banco. Entretanto, precisavam agir com precau\u00e7\u00e3o &#8211; atitude requerida pelo interlocutor diante de qualquer circunst\u00e2ncia. M\u00f4nica aos poucos foi se tornando v\u00edtima de um ato de discrimina\u00e7\u00e3o religiosa praticado por uma colega de trabalho, cuja religi\u00e3o servia para dar visibilidade \u00e0 pauta dos integrantes da CCIR.<\/p>\n<p>O caso de M\u00f4nica ilustra a import\u00e2ncia do espa\u00e7o da reuni\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de discursividade (Foucault 1996). O \u201cinterlocutor\u201d, uma das lideran\u00e7as do grupo, era considerado uma pessoa qualificada para dialogar com outros atores dado o seu passado em movimentos sociais e pol\u00edtica partid\u00e1ria. Al\u00e9m disso, ele era capaz de acalmar os integrantes da CCIR nos momentos de exalta\u00e7\u00e3o e incentivar que estivessem presentes em todas as convoca\u00e7\u00f5es feitas. Cabia ao \u201cinterlocutor\u201d estar presente em todos estes momentos, j\u00e1 que a maioria dos integrantes da Comiss\u00e3o n\u00e3o se julgava com as compet\u00eancias necess\u00e1rias para conversar com os representantes de outras institui\u00e7\u00f5es, p\u00fablicas ou privadas, porque n\u00e3o dominavam os c\u00f3digos nem as categorias destes ambientes. Eram, portanto, \u201cexclu\u00eddos\u201d do debate. N\u00e3o bastava \u201cexigir\u201d, mas saber como faz\u00ea-lo: como falar, quando falar e com quem falar foram capacidades adquiridas pelo interlocutor ao longo de sua trajet\u00f3ria como militante no movimento negro e, agora, na \u201cluta contra a intoler\u00e2ncia religiosa\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, uma das estrat\u00e9gias da CCIR para mobilizar mais pessoas \u201ccontra a intoler\u00e2ncia religiosa\u201d era fazer com que \u201cas pessoas acreditassem na exist\u00eancia da intoler\u00e2ncia\u201d, como explicava o interlocutor. Por isso, uma das atividades desenvolvidas pela CCIR era estimular o registro policial como preconceito ou discrimina\u00e7\u00e3o religiosa. Caso o registro n\u00e3o fosse feito pelos policiais, os integrantes da CCIR se articulavam para retornar \u00e0 delegacia com a pessoa a quem foi dirigida a agress\u00e3o para pressionar pelo registro alternativo. Nesses casos era comum a divulga\u00e7\u00e3o do ato nas m\u00eddias e redes sociais.<\/p>\n<p>Nessas circunst\u00e2ncias, o interlocutor pedia a todos que trajassem as vestimentas religiosas para dar visibilidade \u00e0s demandas dos religiosos. Os membros da Comiss\u00e3o compareciam antes do hor\u00e1rio marcado e esperavam do lado de fora junto com a v\u00edtima e seus familiares, que tanto poderiam ser a \u201cfam\u00edlia de santo\u201d como seus parentes biol\u00f3gicos. Quando o interlocutor chegava, ele e a v\u00edtima entravam para conversar com o delegado. A imprensa era chamada, pelos pr\u00f3prios integrantes da CCIR, que enfatizavam a import\u00e2ncia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o dos eventos, a fim de funcionar como mais um instrumento para cobrar das autoridades respostas \u00e0s agress\u00f5es.<\/p>\n<p>Por vezes, quando o registro j\u00e1 havia sido realizado, o delegado que acompanhava a Comiss\u00e3o entrava em contato com o encarregado do caso para conversar sobre a forma como o documento fora feito. Segundo ele, muitos policiais desconheciam a Lei Ca\u00f3 pela mesma n\u00e3o ter sido inclu\u00edda no sistema15 da Delegacia Legal16, comprometendo o enquadramento dos delitos. Ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es nas delegacias, era comum retornar-se \u00e0s reuni\u00f5es para avaliar o andamento do caso ou seguir com a constru\u00e7\u00e3o de pautas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a din\u00e2mica da reuni\u00e3o passou por muitas altera\u00e7\u00f5es, mas foi poss\u00edvel identificar alguns momentos constantes:<\/p>\n<p>Fase preparat\u00f3ria que antecede a atividade: onde h\u00e1 uma a intera\u00e7\u00e3o livre entre os participantes;<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o do tema da reuni\u00e3o: \u00e9 precedido por uma discuss\u00e3o sobre a conjuntura apresentada pelo \u201cinterlocutor\u201d (sem controle de tempo), que depois libera a palavra aos demais (com algum tipo de controle de tempo);<\/p>\n<p>Delibera\u00e7\u00e3o e encaminhamentos com divis\u00e3o de tarefas;<\/p>\n<p>Encerramento da sess\u00e3o, geralmente sucedida pela composi\u00e7\u00e3o de pequenos grupos, que seguiam discutindo e deliberando acerca da pauta, bem como a manifesta\u00e7\u00e3o de impress\u00f5es acerca da reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as a\u00e7\u00f5es eram debatidas e gestadas (Souza Lima 2002) nas reuni\u00f5es do grupo com o prop\u00f3sito de tornar as v\u00edtimas \u201cconscientes\u201d de que as agress\u00f5es vividas eram fatos criminosos e como tal deveriam ser tratados pelos representantes do Estado. Tamb\u00e9m era uma estrat\u00e9gia convencer aos demais que os \u201catos de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d poderiam acontecer com qualquer um, por isso, o sofrimento das v\u00edtimas era mobilizado como um discurso valorizado17 para aproxim\u00e1-las dos demais religiosos, despertando-lhes um sentimento de solidariedade a fim de sensibilizar os variados setores da sociedade. No entanto, n\u00e3o se podia exagerar na exposi\u00e7\u00e3o dos religiosos, sendo necess\u00e1rio incorporar, progressivamente, um discurso pol\u00edtico que valorizasse \u201co direito de cidad\u00e3o\u201d para \u201cexigir\u201d dos representantes do poder p\u00fablico que as agress\u00f5es f\u00edsicas e simb\u00f3licas fossem criminalizadas, de modo a confirmar oficialmente a exist\u00eancia da \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d no Brasil. Era comum citar a \u201c invisibilidade do racismo na sociedade brasileira\u201d para refor\u00e7ar a necessidade de \u201cprovar que a intoler\u00e2ncia\u201d era o tema central das discuss\u00f5es do grupo.<\/p>\n<p>Segundo a assessora de comunica\u00e7\u00e3o da CCIR, nos primeiros anos de sua exist\u00eancia, a estrat\u00e9gia era veicular o \u201csofrimento das v\u00edtimas\u201d a partir da criminaliza\u00e7\u00e3o da \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d e da divulga\u00e7\u00e3o da Lei Ca\u00f3:<\/p>\n<p>Trabalhamos com o sofrimento de centenas de pessoas porque t\u00ednhamos dois pontos-chaves. Primeiro, os advogados n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es de atuar nesses casos porque n\u00e3o tinham conhecimento da legisla\u00e7\u00e3o e nem sabiam quais eram os mecanismos em que o crime poderia acontecer. Segundo, ningu\u00e9m sabia o que era intoler\u00e2ncia religiosa. Bater em macumbeiro \u00e9 a coisa mais natural do mundo. Chamar algu\u00e9m de macumbeiro na rua \u00e9 muito normal. Proibir uma crian\u00e7a de entrar de oj\u00e1 numa sala de aula \u00e9 normal. Chutar macumba na rua \u00e9 normal porque nunca fomos cidad\u00e3os (Assessora de Comiss\u00e3o da CCIR &#8211; notas de trabalho de campo).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa que destacasse a \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d era a chave para articular os religiosos de matriz afro-brasileira, bem como os demais participantes de outros credos, j\u00e1 que todos poderiam ser alvo. A universaliza\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno era a estrat\u00e9gia poss\u00edvel para lidar com as diferen\u00e7as inexpugn\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essas a\u00e7\u00f5es, no entanto, s\u00f3 eram poss\u00edveis na medida em que o dom\u00ednio dos discursos pol\u00edticos era apreendido pelos integrantes da Comiss\u00e3o. Nas situa\u00e7\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o entre os integrantes da CCIR e destes com os representantes do poder p\u00fablico, a produ\u00e7\u00e3o de um discurso aglutinador n\u00e3o pode ser compreendida apenas como um mecanismo de comunica\u00e7\u00e3o que pudesse expressar os \u201catos de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d, mas tamb\u00e9m como o estabelecimento de uma linguagem em que todos se reconhecessem e que fosse capaz de atualizar as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a dentro do campo pol\u00edtico-religioso carioca (Bourdieu 2008), ainda que os membros da CCIR, da Umbanda e do Candombl\u00e9, estivessem cientes do lugar destinados a eles dentro desse campo &#8211; ser um grupo minorit\u00e1rio, estigmatizado e marcado pela discrimina\u00e7\u00e3o racial.<\/p>\n<p>O que se observou foi a constru\u00e7\u00e3o de uma gram\u00e1tica que valorizava o consenso entre as religi\u00f5es, mesmo quando na pr\u00e1tica ele se mostrava invi\u00e1vel. A narrativa constru\u00edda a partir da ideia da \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d como justifica\u00e7\u00e3o (Boltanski e Thevenot 1991), ou seja, como fator de uni\u00e3o de diferentes grupos religiosos que participam da CCIR, funcionava como estrat\u00e9gia de aglutina\u00e7\u00e3o, mas ela era subsumida na estrat\u00e9gia de privilegiar a articula\u00e7\u00e3o de processos decis\u00f3rios que exclu\u00edam alguns atores sociais.<\/p>\n<p>Essas estrat\u00e9gias de mobiliza\u00e7\u00e3o eram estruturais na organiza\u00e7\u00e3o de dois grandes eventos durante as reuni\u00f5es da CCIR: a Caminhada de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa e o Cantando a gente se entende.<\/p>\n<p>A Caminhada de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa tem sido realizada anualmente no m\u00eas de setembro, desde 2008, na orla de Copacabana, escolhida por ser um lugar de import\u00e2ncia hist\u00f3rica nos ritos de fim de ano, de oferendas \u00e0 Iemanj\u00e1, e por ter visibilidade internacional. Todo ano a CCIR elege um tema que ser\u00e1 apresentado em faixas e cartazes carregados por integrantes da Comiss\u00e3o durante o caminho percorrido.<\/p>\n<p>O cortejo \u00e9 dividido por cartazes (Fig. 3), que tanto apresentam os grupos que participam como servem para cobrar dos representantes do poder p\u00fablico a correta tipifica\u00e7\u00e3o dos registros, segundo a Lei Ca\u00f3 ou a defesa da implanta\u00e7\u00e3o da Lei 10.639\/2003. Ao longo do percurso, os oradores gritam palavras de ordem (\u201ceu tenho f\u00e9\u201d; \u201cquem \u00e9 de ax\u00e9 diz que \u00e9\u201d; \u201cquem \u00e9 de ax\u00e9 vota em quem \u00e9 de ax\u00e9\u201d) e convidam participantes para discursar ou para cantar. Os oradores e convidados especiais sobem nos carros de som, alugados pela organiza\u00e7\u00e3o do evento (Fig. 2).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-135\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/se.png\" alt=\"\" width=\"481\" height=\"360\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/se.png 481w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/se-300x225.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 481px) 100vw, 481px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-136\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ter.jpg\" alt=\"\" width=\"626\" height=\"470\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ter.jpg 626w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ter-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><br \/>Figura 3 Concentra\u00e7\u00e3o da Caminhada de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa, Copacabana &#8211; RJ, 2010<\/p>\n<p>O outro evento organizado pela Comiss\u00e3o \u00e9 o Cantando a gente se entende, uma atividade de \u201cconfraterniza\u00e7\u00e3o cultural e inter-religiosa\u201d que ocorre desde 2013 na Cinel\u00e2ndia (centro da cidade do Rio) e no Parque Madureira (zona norte da cidade) para \u201ccantar em defesa da paz\u201d. O evento, que ocorre no dia 21 de janeiro &#8211; Dia Nacional de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa18 &#8211; \u00e9 promovido pela Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR) e pelo Centro de Articula\u00e7\u00e3o de Popula\u00e7\u00f5es Marginalizadas (CEAP), com o patroc\u00ednio da Prefeitura do Rio de Janeiro e apoio da Rede Globo, que costuma liberar a participa\u00e7\u00e3o de artistas &#8211; que n\u00e3o cobram honor\u00e1rios. Entre as apresenta\u00e7\u00f5es dos artistas, os mestres de cerim\u00f4nia abrem espa\u00e7o na programa\u00e7\u00e3o para a fala de representantes dos segmentos que comp\u00f5em a CCIR. Estes fazem r\u00e1pidas interven\u00e7\u00f5es contra a \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-137\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/qua.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"225\" \/><br \/>Figura 4 P\u00fablico assistindo o Cantando a gente se entende &#8211; 2014\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-138\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/quin.jpg\" alt=\"\" width=\"626\" height=\"417\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/quin.jpg 626w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/quin-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><br \/>Figura 5 Figura 5 Palco &#8211; Apresenta\u00e7\u00e3o de Arlindo Cruz no Cantando a gente se entende &#8211; 2014<\/p>\n<p>A principal diferen\u00e7a entre os eventos est\u00e1 no p\u00fablico. A Caminhada \u00e9 uma atividade p\u00fablica que mobiliza os pr\u00f3prios integrantes das religi\u00f5es de matriz afro-brasileira, que recebem a ades\u00e3o de outros religiosos, manifestantes de diferentes movimentos sociais e integrantes de partidos pol\u00edticos. J\u00e1 o Cantando \u00e9 voltado \u00e0 sociedade civil (Fig. 4), uma vez que tem como atra\u00e7\u00e3o principal a apresenta\u00e7\u00e3o de artistas (Fig. 5), cujo pr\u00f3prio pertencimento religioso \u00e9 destacado para ressaltar a constru\u00e7\u00e3o da defesa da liberdade religiosa. A participa\u00e7\u00e3o do artista Arlindo Cruz, que foi convidado por ser do Candombl\u00e9 e n\u00e3o ocultar essa identidade, merece ser destacada, j\u00e1 que ele pr\u00f3prio foi alvo de mensagens na internet que o acusavam de estar com problemas de sa\u00fade por causa de sua religi\u00e3o19.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o desses eventos, e tantos outros, \u00e9 precedida por intensa organiza\u00e7\u00e3o das atividades, pela distribui\u00e7\u00e3o das tarefas entre os religiosos, configurando um exerc\u00edcio do poder coletivo que expressa uma mobiliza\u00e7\u00e3o em prol dos direitos civis que n\u00e3o se resume a protestos nas redes sociais. Por\u00e9m, nem tudo \u00e9 simples. Em todos os anos de organiza\u00e7\u00e3o dos eventos um mesmo obst\u00e1culo tem se apresentado: a resist\u00eancia do Corpo de Bombeiros em emitir a licen\u00e7a final para a realiza\u00e7\u00e3o da Caminhada. A institui\u00e7\u00e3o, juntamente com a Prefeitura da cidade, exige a presen\u00e7a de uma estrutura m\u00e9dica (profissionais de sa\u00fade, ambul\u00e2ncias, macas, tendas, etc.) (Fig. 6), cujo or\u00e7amento pode chegar a cerca de vinte mil reais ou mais. Em todas as ocasi\u00f5es, a solu\u00e7\u00e3o para o problema est\u00e1 no acionamento de redes de contatos pol\u00edticos e institucionais, o que inclui a conquista de notas em grandes jornais para dar visibilidade ao conflito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-139\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sext.jpg\" alt=\"\" width=\"626\" height=\"470\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sext.jpg 626w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/sext-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><br \/>Ana Paula Miranda<br \/>Figura 6 Ambul\u00e2ncia contratada para dar suporte durante a Caminhada de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa, Copacabana &#8211; RJ, 2010<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de divulgar alguns problemas e ocultar outros, inerentes ao processo de constru\u00e7\u00e3o de eventos, revela uma forma de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que coloca em jogo distintas express\u00f5es de criatividade, que subvertem os pap\u00e9is pr\u00e9-estabelecidos. Assim, torna-se poss\u00edvel aceitar que algu\u00e9m que, na hierarquia das religi\u00f5es seria considerado \u201cum mais novo\u201d, possa estar \u00e0 frente \u201cdos mais velhos\u201d, do mesmo modo que os religiosos assumem o papel de mestre de cerim\u00f4nias nos eventos p\u00fablicos, em palcos em que os pol\u00edticos (deputados, vereadores, etc.) s\u00e3o geralmente interditados, pois o destaque devem ser as lideran\u00e7as religiosas, as v\u00edtimas e os artistas.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, as lideran\u00e7as religiosas que comp\u00f5em a CCIR mudaram. Os que permanecem revelam que a constitui\u00e7\u00e3o desse movimento social se caracteriza por ser policentrada. A conviv\u00eancia de muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, com suas respectivas hierarquias, resulta na constru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser totalmente centralizada, pois representaria a submiss\u00e3o de um grupo a outro. A possibilidade de se unir em p\u00fablico torna-se poss\u00edvel apenas porque h\u00e1 uma negocia\u00e7\u00e3o das identidades coletivas em torno de uma pol\u00edtica mais centrada nas situa\u00e7\u00f5es vividas no cotidiano &#8211; as discrimina\u00e7\u00f5es motivadas pela intoler\u00e2ncia religiosa e pelo racismo &#8211; como o ponto de uni\u00e3o entre os sujeitos.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com os representantes de organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas era ambivalente. A intera\u00e7\u00e3o com esses atores permitiu identificar que a busca por direitos era negociada visando \u00e0 conquista do reconhecimento de que os religiosos de matriz afro-brasileira n\u00e3o usufru\u00edam dos direitos do mesmo modo que outros religiosos. Embora a ideia de igualdade esteja presente no discurso oficial do Direito brasileiro, os religiosos envolvidos reconheciam que as pr\u00e1ticas de poder revelavam formas de discrimina\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, em fun\u00e7\u00e3o de suas identidades religiosas e \u00e9tnico-raciais. Nesse sentido, a marca que o movimento foi capaz de deixar na cidade, no campo pol\u00edtico, com a constitui\u00e7\u00e3o de um movimento social legitimado, apontou como necessidades e aspira\u00e7\u00f5es o direito ao tratamento igualit\u00e1rio, mesmo estando consciente de que os indiv\u00edduos provavelmente n\u00e3o alcan\u00e7assem o que se desejava.<\/p>\n<p>Na luta com Oxossi, Ossaim e Loguned\u00e9: a articula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na sacraliza\u00e7\u00e3o da natureza<\/p>\n<p>Semanalmente, \u00e0s quintas-feiras, os integrantes do Elos da Diversidade20 se reuniam \u00e0s 10 horas em uma das salas do Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O grupo era formado por religiosos de matriz afro-brasileira, professores universit\u00e1rios, funcion\u00e1rios da Superintend\u00eancia de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental da Secretaria do Estado do Ambiente (SEAM\/SEA), representante do Movimento Inter Religioso (MIR) e ex-funcion\u00e1rios do Parque Nacional da Tijuca (PNT)21.<\/p>\n<p>O n\u00famero dos membros que constitu\u00edam o n\u00facleo da equipe variou entre nove e 11, durante o per\u00edodo em que o projeto foi administrado pela SEA. Cabiam a eles, principalmente aos coordenadores, as decis\u00f5es a serem tomadas, auxiliados por uma equipe de apoio, composta por uma secret\u00e1ria, uma advogada, uma contadora, duas produtoras de eventos, um respons\u00e1vel pela log\u00edstica dos eventos (comidas e combust\u00edveis para os ve\u00edculos) e um assessor de comunica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m destes, dez religiosos, considerados os \u201cmais tradicionais\u201d da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro, compunham o grupo. Embora as respectivas participa\u00e7\u00f5es ficassem restritas aos eventos promovidos para o p\u00fablico externo ao Elos, a influ\u00eancia destes sacerdotes de Umbanda e Candombl\u00e9 era a garantia de credibilidade do projeto perante aos demais religiosos.<\/p>\n<p>A sala com cerca de 20 m\u00b2, na qual acontecia a reuni\u00e3o, tornava-se pequena pela presen\u00e7a de mesas, cadeiras e arm\u00e1rios para comportar os materiais do projeto, al\u00e9m dos equipamentos e documentos da pr\u00f3pria universidade. O ambiente cercado por ficheiros, pap\u00e9is, folders e livros era contrastado por cartazes de eventos religiosos e lembran\u00e7as de festividades afro-brasileiras.<\/p>\n<p>As conversas sobre os mais variados assuntos antecediam as pautas das reuni\u00f5es que eram enviadas semanalmente pela secret\u00e1ria. Conversas sobre eventos ocorridos durante a semana, coment\u00e1rios sobre pol\u00edticos, religiosos e integrantes de movimentos sociais, hist\u00f3rias sobre as divindades afro-brasileiras e trajet\u00f3rias pessoais transformavam o espa\u00e7o num ambiente informal. Tudo isso ocorria enquanto aguardavam a chegada da representante da Secretaria do Estado do Ambiente para iniciar a reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o haver lugares pr\u00e9-definidos, a disposi\u00e7\u00e3o dos participantes ao redor da mesa explicitava diferentes n\u00edveis de vincula\u00e7\u00e3o. Os mais pr\u00f3ximos ao centro eram os que chegavam mais cedo e os que constitu\u00edam o \u201cn\u00facleo\u201d do projeto. Aqueles que se sentavam pr\u00f3ximo \u00e0s pontas, e que geralmente permaneciam a maior parte do tempo em sil\u00eancio, eram criticados por um menor engajamento ao projeto. As cr\u00edticas n\u00e3o eram p\u00fablicas, surgiam em coment\u00e1rios quando os membros n\u00e3o estavam presentes. Cabia a um dos coordenadores evitar a explicita\u00e7\u00e3o dos conflitos e administr\u00e1-los. Todos os participantes recebiam um pagamento mensal do projeto, exceto os \u201cmais velhos\u201d que recebiam uma ajuda de custo para o deslocamento nos dias de eventos.<\/p>\n<p>No decorrer do projeto, algumas pessoas foram desligadas do grupo devido a \u201cpouca mobiliza\u00e7\u00e3o\u201d, outras foram incorporadas para \u201cavan\u00e7ar com a pauta\u201d. Os integrantes que foram agregados posteriormente ou aqueles que faziam parte da equipe de apoio ocupavam as cadeiras distribu\u00eddas pela sala.<\/p>\n<p>O objetivo das reuni\u00f5es, acompanhadas durante o per\u00edodo de novembro de 2012 a mar\u00e7o de 2014, era planejar e definir as atividades que deveriam ser executadas a partir de dois prop\u00f3sitos: consolidar as etapas previstas no projeto de cria\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S22 e realizar, ou apoiar, eventos que divulgassem o projeto e a rela\u00e7\u00e3o das deidades afro-brasileiras \u00e0 natureza e \u00e0 sua preserva\u00e7\u00e3o (Boniolo 2014), conforme um calend\u00e1rio aprovado pelo grupo. Al\u00e9m disso, discutia-se como poderiam oferecer apoio em cerim\u00f4nias realizadas pelos integrantes, tais como as comemora\u00e7\u00f5es de datas religiosas, e aos demais parceiros23, bem como na celebra\u00e7\u00e3o de certas datas n\u00e3o religiosas, em especial, os eventos relevantes para os ambientalistas (o Dia Mundial da \u00c1gua e o Dia da Mata Atl\u00e2ntica). Todos os eventos tinham como finalidade ressaltar a depend\u00eancia das religi\u00f5es afro-brasileira com a natureza e a preserva\u00e7\u00e3o desta como garantia de continuidade das pr\u00e1ticas religiosas.<\/p>\n<p>O momento inicial da reuni\u00e3o (apresenta\u00e7\u00e3o dos pontos da pauta) era marcado por uma maior informalidade. As reuni\u00f5es eram controladas pela superintendente, que tamb\u00e9m coordenava o Programa Ambiente em A\u00e7\u00e3o, do qual o Elos da Diversidade era integrante. A ger\u00eancia do Programa Ambiente em A\u00e7\u00e3o inclu\u00eda ainda uma coordenadora acad\u00eamica, fun\u00e7\u00e3o que era ocupada por uma professora da UERJ. O Elos da Diversidade era coordenado por um professor da UFRJ. Esses tr\u00eas eram respons\u00e1veis por gerir o or\u00e7amento, executar as metas previstas e orientar as a\u00e7\u00f5es dos membros representantes da Umbanda e do Candombl\u00e9, bem como gerenciar o restante da equipe. Aos coordenadores do Elos cabiam as tarefas de interlocu\u00e7\u00e3o principalmente com os representantes do poder p\u00fablico ou com os funcion\u00e1rios do PNT. Os religiosos faziam sugest\u00f5es sobre as a\u00e7\u00f5es e atividades do projeto, mas as decis\u00f5es eram de responsabilidade exclusiva dos tr\u00eas coordenadores. A rela\u00e7\u00e3o entre os religiosos e os gestores do programa era complexa. Havia uma preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos coordenadores de valorizar os conhecimentos administrativos e cient\u00edficos sem desqualificar os conhecimentos religiosos. Ressalta-se que os gestores possu\u00edam v\u00ednculos com as religi\u00f5es de matriz afro-brasileira, o que n\u00e3o evitava que, em diversas situa\u00e7\u00f5es, os religiosos se sentissem desvalorizados por n\u00e3o terem destaque dentro do grupo e por n\u00e3o serem considerados em fun\u00e7\u00e3o de seu tempo de inicia\u00e7\u00e3o, crit\u00e9rio fundamental na hierarquia religiosa.<\/p>\n<p>Ao longo dos quase 20 anos24 de exist\u00eancia do projeto, os participantes relataram que sempre se buscou ampliar as parcerias para incluir novos religiosos ao grupo por meio de semin\u00e1rios e oficinas com vistas \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Sagrado e das pr\u00e1ticas das oferendas em \u00e1reas p\u00fablicas naturais (Fig. 7). Outra estrat\u00e9gia do grupo foi aderir a outros movimentos pela cidade que tivessem a tem\u00e1tica da liberdade religiosa como agenda pol\u00edtica, tal como o Movimento Inter Religioso e a Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa. A participa\u00e7\u00e3o de professores universit\u00e1rios conferia igualmente legitimidade \u00e0s a\u00e7\u00f5es do grupo, seja apontando as desigualdades na garantia dos direitos e\/ou assegurando a \u201cseriedade\u201d das demandas perante outros atores, principalmente aos religiosos de matriz afro-brasileira e representantes do poder p\u00fablico, segundo os pr\u00f3prios religiosos que integravam o Elos.<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-140\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/set.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"240\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/set.jpg 320w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/set-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-141\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/oit.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"241\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/oit.jpg 320w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/oit-300x226.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-142\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/non.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"240\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/non.jpg 320w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/non-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><br \/>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Por Roberta Boniolo, 2012\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Figura 8 Restos de oferendas depositadas na cachoeira no interior da Curva do S\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Por Roberta Boniolo, 2012<\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Figura 7 Oferenda realizada no Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Figura 9 Restos de oferendas realizadas no curso d&#8217;\u00e1gua que corta a Curva do S\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O foco principal do grupo era como lidar com o conflito ocasionado pela presen\u00e7a de restos de oferendas no Parque Nacional da Tijuca (Figs. 8 e 9). Este foi o conflito motivador, a partir do qual diversas institui\u00e7\u00f5es e pessoas se mobilizaram para reivindicar o direito de uso da natureza para as pr\u00e1ticas religiosas, resultando na cria\u00e7\u00e3o do Elos da Diversidade, que visou ao projeto de constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o nas adjac\u00eancias do PNT, a fim de que os religiosos pudessem deixar as oferendas na natureza sem colocar em risco as demais \u00e1reas, visto que, por lei, dentro do parque, os religiosos devem retirar as oferendas ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o dos rituais25.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-143\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/dec.png\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"399\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/dec.png 768w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/dec-300x156.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><br \/>Figura 10 Foto de sat\u00e9lite do Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S, 2015<\/p>\n<p>Essa foi a solu\u00e7\u00e3o que religiosos, professores universit\u00e1rios, pesquisadores, alguns funcion\u00e1rios do PNT e representantes de ONGs encontraram para administrar o conflito decorrente das pr\u00e1ticas religiosas no interior do parque, posto que a maioria dos funcion\u00e1rios do parque as consideravam danosas \u00e0 flora, \u00e0 fauna e \u00e0 paisagem. O projeto Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S (Fig. 10) tinha como principal meta a cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de medidas de infraestrutura, tais como rampas para idosos e deficientes f\u00edsicos, banheiros, telefone p\u00fablico, sistema de coleta das oferendas, vesti\u00e1rio, sala para eventos e composteiras.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m eram realizadas oficinas para discutir com os religiosos a possibilidade de \u201creformula\u00e7\u00e3o\u201d das oferendas a partir do uso de elementos biodegrad\u00e1veis, o que era objeto de grande contesta\u00e7\u00e3o por religiosos que n\u00e3o faziam parte do grupo, que as consideravam uma interfer\u00eancia do Estado nas religi\u00f5es, j\u00e1 que as escolhas dos utens\u00edlios utilizados seguem tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o dos Orix\u00e1s e Entidades.<\/p>\n<p>Para lidar com aqueles que n\u00e3o aprovavam as sugest\u00f5es de mudan\u00e7a, os membros do Elos passaram a valorizar as lembran\u00e7as dos sacerdotes \u201cmais velhos\u201d, de quando eles come\u00e7aram a praticar a religi\u00e3o, incentivando todos a retornar \u00e0 pr\u00e1tica tal como era no per\u00edodo de suas inicia\u00e7\u00f5es ou, ainda, num per\u00edodo mais long\u00ednquo, de seus antepassados, em \u00c1frica, quando n\u00e3o se utilizava o pl\u00e1stico, nem o vidro, nem a vela nas oferendas. Esse movimento era visto como um resgate da \u201cautenticidade\u201d do ritual.<\/p>\n<p>Cabe ressaltar que o tema da \u201cautenticidade\u201d \u00e9 altamente controverso, j\u00e1 que a no\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o africana no Brasil, comumente associada \u00e0 na\u00e7\u00e3o nag\u00f4 (iorub\u00e1)26, resulta de uma tensa rela\u00e7\u00e3o entre o discurso nativo e o discurso cient\u00edfico (Capone 2005), que revela como a constitui\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00f5es &#8211; tradi\u00e7\u00e3o\/pureza X moderniza\u00e7\u00e3o\/degenera\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o \u00e9 facilmente tra\u00e7\u00e1vel, tendo sido resultado de escolhas dos praticantes e dos pesquisadores que, ao se dedicar aos estudos do Candombl\u00e9, acabaram se engajando em algum terreiro e consagrando em suas obras as classifica\u00e7\u00f5es nativas.<\/p>\n<p>A valoriza\u00e7\u00e3o de um rito de uma \u00c1frica idealizada &#8211; sem pl\u00e1stico, vidro ou vela &#8211; oculta a complexidade na reflex\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es entre tradi\u00e7\u00e3o e poder. Ao estabelecer como se deve construir o ritual, o grupo acabava por produzir uma hierarquiza\u00e7\u00e3o dos terreiros, destacando aqueles que, de alguma forma, estavam vinculados aos grupos mais \u201ctradicionais\u201d e os que seriam os \u201cmarmoteiros\u201d ou os \u201cbequeiros\u201d, que s\u00e3o acusados de n\u00e3o seguirem as regras das religi\u00f5es afro-brasileiras e \u201cmodernizarem\u201d excessivamente as pr\u00e1ticas religiosas. O confronto entre essas classifica\u00e7\u00f5es revela uma tens\u00e3o fundante &#8211; a de que o pr\u00f3prio Candombl\u00e9 \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o de diferentes cultos provenientes de regi\u00f5es distintas em \u00c1frica, que apenas se reuniram no Brasil por conta da escraviza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es negras. A permanente tens\u00e3o resulta, muitas vezes, numa rede de acusa\u00e7\u00f5es e intrigas em torno da legitimidade e preserva\u00e7\u00e3o de conhecimentos orais.<\/p>\n<p>Cada casa \u00e9 uma casa. N\u00e3o existe no Candombl\u00e9 uma receita que passa de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o sem se alterar. Mas mesmo assim, se voc\u00ea faz o aca\u00e7\u00e1 de forma diferente, come\u00e7a a disputa. Tirou foto de orix\u00e1? Vai ser chamado de \u2018beco\u2019. O tempo de recolhimento \u00e9 menor? \u2018Muita modernidade&#8230; Est\u00e3o estragando a religi\u00e3o!\u2019 \u2018Marmota\u2019\u2026 (Conversa com ialorix\u00e1, notas de campo).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de um grupo para tratar dos ritos, mas, principalmente, dos detritos que restam ap\u00f3s sua coloca\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico, revela a constru\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a entre religiosos, professores universit\u00e1rios e gestores de pol\u00edticas p\u00fablicas que, ao pactuarem alguns discursos, d\u00e3o visibilidade e acabam legitimando certos terreiros em detrimento de outros, atribuindo-lhes uma relev\u00e2ncia e, consequentemente, um poder que os outros n\u00e3o ter\u00e3o. Al\u00e9m disso, a constru\u00e7\u00e3o coletiva de pr\u00e1ticas rituais ecologicamente \u201ccorretas\u201d invisibiliza uma lacuna existente entre as pr\u00e1ticas rituais cotidianas desses cultos, marcadas pela heterogeneidade deste campo religioso, e a idealiza\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es, que pode ser associada tanto \u00e0 \u00c1frica quanto \u00e0 Bahia, para o Candombl\u00e9.<\/p>\n<p>O pl\u00e1stico, o vidro ou a vela eram os tr\u00eas elementos considerados pelo Elos da Diversidade como os mais prejudiciais ao ambiente27. Al\u00e9m desses, os funcion\u00e1rios do PNT tamb\u00e9m consideravam todos os tipos de vasilhames usados nos rituais para servir as comidas aos orix\u00e1s e entidades como poluentes. Por esse motivo, os integrantes do Elos incentivavam a substitui\u00e7\u00e3o dessas pe\u00e7as por folhas de bananeiras ou mamona, por exemplo. Tratava-se, nas palavras dos coordenadores, de recomenda\u00e7\u00f5es, embora a decis\u00e3o final devesse ser do dirigente da casa, incluindo os objetos usados na constitui\u00e7\u00e3o das oferendas. Ainda que a quest\u00e3o fosse controversa, ningu\u00e9m nunca se posicionou publicamente contra as proposi\u00e7\u00f5es dos membros do Elos, com receio de ser classificado como \u201cpoluidor\u201d. Para o Espa\u00e7o Sagrado, os membros do Elos conseguiram encontrar solu\u00e7\u00f5es para o uso desses objetos sem comprometer os recursos naturais e a paisagem. Por outro lado, em outros espa\u00e7os, era poss\u00edvel ouvir cr\u00edticas ao projeto por interferir em pr\u00e1ticas rituais religiosas estabelecidas segundo as \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d locais. Embora essa observa\u00e7\u00e3o ocorresse \u201cnos bastidores\u201d dos eventos p\u00fablicos, ela revelava a principal fragilidade do projeto, o qual, ainda que tenha sido bastante eficiente em dar visibilidade ao debate sobre a preserva\u00e7\u00e3o ambiental, n\u00e3o conseguiu uma maior ades\u00e3o al\u00e9m dos pr\u00f3prios participantes.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o no ambiente n\u00e3o se limitava aos ritos. Foi criado um projeto paisag\u00edstico, elaborado por arquitetas vinculadas ao Laborat\u00f3rio de Arquitetura, Subjetividade e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) (Fig. 11). A concep\u00e7\u00e3o do projeto era tornar o local, situado \u00e0s margens do parque nacional, adequado \u00e0s pr\u00e1ticas religiosas, interferindo o m\u00ednimo poss\u00edvel no ambiente natural. Os coordenadores do Elos, com a colabora\u00e7\u00e3o das arquitetas, pretendiam utilizar plantas vinculadas \u00e0s deidades afro-brasileiras e pertencentes \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica para fazer a recomposi\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o, recuperar os troncos de \u00e1rvores queimados pelo uso de velas e colocar filtros para reter as oferendas que precisam ser realizadas na cachoeira e no rio, presentes na localidade.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de local de realiza\u00e7\u00e3o de rituais religiosos, o grupo pretendia que o Espa\u00e7o Sagrado tamb\u00e9m fosse utilizado para a realiza\u00e7\u00e3o de oficinas de \u201creformula\u00e7\u00e3o\u201d das oferendas. Haveria, ainda, um espa\u00e7o para fazer compostagem com o material que pudesse ser reaproveitado das oferendas. Este tema era bastante controverso, porque dependendo do ritual realizado nada poderia ser aproveitado por estar \u201ccarregado\u201d de energias negativas. Questionava-se, portanto, como seria poss\u00edvel saber dentre as oferendas encontradas na localidade quais seriam ou n\u00e3o habilitadas ao reaproveitamento. Previa-se tamb\u00e9m a escolha de lugares espec\u00edficos para o uso das velas, preferencialmente longe dos troncos das \u00e1rvores, bem como a retirada das oferendas por pessoas treinadas por uma equipe vinculada ao projeto ap\u00f3s o per\u00edodo ritual estimado para cada uma delas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-144\" style=\"display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/11.jpg\" alt=\"\" width=\"626\" height=\"490\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/11.jpg 626w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/11-300x235.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 626px) 100vw, 626px\" \/><br \/>Por Roberta Boniolo, 2013<br \/>Figura 11 Maquete do Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S<\/p>\n<p>Notava-se uma preocupa\u00e7\u00e3o com a incorpora\u00e7\u00e3o de valores e princ\u00edpios religiosos \u00e0 gest\u00e3o do projeto, aliados aos princ\u00edpios ambientais. Isso ficava evidente nos encontros promovidos com os religiosos chamados de Guardi\u00f5es do Sagrado e da Natureza, que tinham a fun\u00e7\u00e3o de inclu\u00ed-los na formula\u00e7\u00e3o das regras de uso do Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S. Essas reuni\u00f5es aconteciam fora da universidade, nas pr\u00f3prias casas de santo e terreiros dos sacerdotes, e seguiam as ritual\u00edsticas dessas religi\u00f5es, com cumprimentos, sauda\u00e7\u00f5es e c\u00e2nticos \u00e0s deidades. Nesses espa\u00e7os, a conversa era iniciada por um dos membros do Elos e, a partir das hist\u00f3rias contadas pelos \u201cmais velhos\u201d, esperava-se preparar um texto baseado nas recomenda\u00e7\u00f5es dos guardi\u00f5es sobre os comportamentos adequados em um espa\u00e7o sagrado, o que posteriormente seria apresentado aos gestores do Parque Nacional da Tijuca. A posi\u00e7\u00e3o de destaque nas falas era das \u201cguardi\u00e3s sacerdotisas\u201d. Os demais presentes se agrupavam em cadeiras ao redor, a fim de escut\u00e1-las narrar as hist\u00f3rias que envolviam os deuses e as suas trajet\u00f3rias de vida. Havia poucas tentativas por parte da superintendente de retomar a pauta do encontro. Neste sentido, as \u201csacerdotisas\u201d possu\u00edam o controle do tempo das falas e a condu\u00e7\u00e3o das conversas, de modo distinto do que ocorria na universidade.<\/p>\n<p>Observ\u00e1vamos que estas reuni\u00f5es eram uma tentativa, por parte dos coordenadores do Elos da Diversidade, de romper com a desconsidera\u00e7\u00e3o da fala dos religiosos afro-brasileiros, um dos princ\u00edpios de exclus\u00e3o do discurso, segundo Foucault (1996). Nestas circunst\u00e2ncias, a autoridade dos sacerdotes era respeitada, a fim de que seu conhecimento pudesse ser incorporado ao projeto.<\/p>\n<p>\u00c9 importante salientar que a s rela\u00e7\u00f5es entre os membros do Elos da Diversidade tamb\u00e9m eram perpassadas pela ag\u00eancia das deidades afro-brasileiras. A presen\u00e7a constante das divindades era mencionada no que se refere \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o das pessoas e na realiza\u00e7\u00e3o de consultas aos orix\u00e1s, atrav\u00e9s dos b\u00fazios, para saber a decis\u00e3o a ser tomada, qual caminho a ser seguido. Tais argumentos religiosos acabavam por revelar uma invers\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o administrativa estatal, deixando claro que o lugar da autoridade durante as reuni\u00f5es era redefinido em fun\u00e7\u00e3o do assunto tratado &#8211; religioso, administrativo ou acad\u00eamico.<\/p>\n<p>Quando as atividades eram para um p\u00fablico n\u00e3o religioso, e algum dos coordenadores fazia um discurso de car\u00e1ter mais m\u00edstico, era not\u00e1vel o inc\u00f4modo entre os demais participantes. Ainda que muitos religiosos demonstrassem simpatia pela defesa das religi\u00f5es afro-brasileiras realizada por gestores ou professores, outro grupo de religiosos, claramente mais integrados \u00e0s din\u00e2micas do debate p\u00fablico, n\u00e3o concordava com esta postura, preferindo demarcar melhor a separa\u00e7\u00e3o entre o pol\u00edtico e o religioso. Deixavam perceber que a postura esperada dos representantes do poder p\u00fablico deveria ser distinta, mais contida e mais formal. Afinal, aqueles que s\u00e3o qualificados para falar devem possuir um comportamento adequado \u00e0 circunst\u00e2ncia que acompanha o discurso (Foucault 1996).<\/p>\n<p>Nas atividades realizadas para os religiosos, a equipe t\u00e9cnica e os coordenadores tinham o cuidado de dialogar com os religiosos e de seguir uma etiqueta religiosa, abaixando a cabe\u00e7a para beijar a m\u00e3o das lideran\u00e7as, pedindo \u201cb\u00ean\u00e7\u00e3os aos mais velhos\u201d e saudando as divindades para lhes rogar ajuda na condu\u00e7\u00e3o e na concretiza\u00e7\u00e3o do projeto. Por outro lado, era poss\u00edvel notar que os religiosos demonstravam interesse em aprender termos e conceitos cient\u00edficos para empregar em discursos, quando fossem solicitados ou quando estivessem diante de alguma autoridade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em todas essas ocasi\u00f5es ressaltava-se que a liga\u00e7\u00e3o com a universidade era importante para que os religiosos fossem ouvidos pelos representantes do Estado. N\u00e3o hesitavam em afirmar os seus direitos e o dever do poder p\u00fablico de assegur\u00e1-los. Tomavam o ambiente propiciado pelo projeto, atrav\u00e9s das reuni\u00f5es e eventos, como uma forma de aprenderam os discursos pol\u00edtico-acad\u00eamicos consolidados, nos quais podiam reconstituir-se como sujeitos de direitos para \u201creivindicarem\u201d seu reconhecimento na sociedade.<\/p>\n<p>Certa vez, durante uma das reuni\u00f5es, uma das integrantes do Elos contou entusiasmada como utilizou \u201cum conceito da academia\u201d diante de v\u00e1rias autoridades pol\u00edticas. Sem entrar em muitos detalhes das raz\u00f5es pelas quais fora convidada a estar presente na solenidade, disse que sentiu necessidade de ir al\u00e9m dos termos religiosos. Lembrou-se do que ouvia nas reuni\u00f5es e, diante das autoridades p\u00fablicas, explicou a rela\u00e7\u00e3o dos orix\u00e1s com a natureza a partir do uso de conceitos da Geografia Cultural &#8211; o \u201cgeoss\u00edmbolo\u201d28.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es funcionavam, portanto, como espa\u00e7os de socializa\u00e7\u00e3o e compartilhamento de discursos que articulavam as tem\u00e1ticas ambiental e religiosa com as gram\u00e1ticas pol\u00edticas e acad\u00eamica em fun\u00e7\u00e3o do contexto. A necessidade de se socializar com os termos utilizados pelos movimentos ambientalistas tamb\u00e9m era reconhecida pela maioria dos religiosos. Eles entendiam que, diante de um cen\u00e1rio conflituoso e de impedimentos de realiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas rituais, a universidade era uma ponte para aprenderem a linguagem de reivindica\u00e7\u00e3o de direitos para falar sobre a natureza a partir de uma perspectiva religiosa. Ainda que os interesses fossem diferenciados e que houvesse diverg\u00eancias e disputas entre os participantes, pode-se afirmar que o Elos propiciava a constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa pol\u00edtico-acad\u00eamica-religiosa que unia religiosos, professores, representantes do Estado, de movimentos sociais e de ONG. Todos sabiam que os discursos produziam efeitos no \u00e2mbito de constru\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e que, por isso, precisavam dominar a gram\u00e1tica das pol\u00edticas p\u00fablicas para ter acesso e usar os espa\u00e7os naturais na reprodu\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas religiosas.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de agentes p\u00fablicos nas reuni\u00f5es revela uma forma de governamentalidade (Foucault 2008), que coloca em xeque o paradigma da racionalidade como \u201cprinc\u00edpio organizador\u201d da pol\u00edtica (Bobbio 2000). As narrativas constru\u00eddas pelos participantes do Elos ressaltavam a constitui\u00e7\u00e3o de um dom\u00ednio religioso no interior do espa\u00e7o p\u00fablico como um elemento positivo da pol\u00edtica. Tal perspectiva acabava por destacar a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de uma forma de gest\u00e3o aut\u00f4noma e complexa desse espa\u00e7o p\u00fablico, o que pressupunha uma coes\u00e3o e legitimidade entre os religiosos, que somente poderia ser constru\u00edda a partir da sacraliza\u00e7\u00e3o da natureza, tendo em vista que n\u00e3o seria poss\u00edvel um consenso em torno das pr\u00e1ticas rituais sem que isso representasse a legitima\u00e7\u00e3o de um grupo apenas. Assim, a competi\u00e7\u00e3o presente no mercado religioso representava uma constante amea\u00e7a \u00e0 fr\u00e1gil pactua\u00e7\u00e3o constru\u00edda, a qual seguia, tamb\u00e9m, amea\u00e7ada pela disputa pol\u00edtico-partid\u00e1ria, raz\u00e3o da derrocada do projeto, que foi desativado ap\u00f3s a troca de governo, quando entrou um novo secret\u00e1rio de estado.<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o pol\u00edtica de qualquer discurso pode, \u00e0s vezes, ocultar as contradi\u00e7\u00f5es e os interesses dos sujeitos envolvidos na sua constru\u00e7\u00e3o, seja no campo da ci\u00eancia ou no campo das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0 cidadania. Explicit\u00e1-los \u00e9 justamente a possibilidade de revelar um processo din\u00e2mico de constru\u00e7\u00e3o cultural que permite superar a ideia de que os religiosos de matriz afro-brasileira n\u00e3o se organizam politicamente.<\/p>\n<p>Este texto teve a inten\u00e7\u00e3o de revelar fragmentos de como a multiplicidade de identidades religiosas pode ser negociada entre os atores sociais para dar espa\u00e7o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de discursos para legitimar, ao mesmo tempo em que os inventa, narrativas pol\u00edticas fundamentadas em pr\u00e1ticas religiosas, relacionando alguns pressupostos a uma matriz negro-africana, que por sua vez estaria vinculada a uma tradi\u00e7\u00e3o mais ecol\u00f3gica, pela rela\u00e7\u00e3o direta com a natureza. Assim, a identidade pol\u00edtico-religiosa afro-brasileira se apresenta publicamente n\u00e3o s\u00f3 como um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico-cultural, mas como parte de movimentos sociais negros que valorizam o Candombl\u00e9 como a religi\u00e3o do povo negro. Esse processo coincide com a constru\u00e7\u00e3o da luta contra a intoler\u00e2ncia religiosa como um espa\u00e7o de controv\u00e9rsias sobre a &#8220;dessincretiza\u00e7\u00e3o&#8221; do campo religioso, o branqueamento dos terreiros e as t\u00eanues fronteiras da realiza\u00e7\u00e3o dos cultos aos Orix\u00e1s e Entidades no espa\u00e7o das cidades (Silva 2008). A associa\u00e7\u00e3o entre \u201cnegritude\u201d, \u201cafricanidade\u201d e ancestralidade expressa, portanto, uma tens\u00e3o pol\u00edtica no campo religioso \u201cafro-brasileiro\u201d, que resulta na desqualifica\u00e7\u00e3o p\u00fablica de pr\u00e1ticas religiosas associadas \u00e0 Umbanda, ao consumo de produtos industrializados, em especial, aos elementos rituais de matriz judaico-crist\u00e3, como, por exemplo, o uso de velas nos rituais religiosos afro-brasileiros. Essa tens\u00e3o resulta numa complexifica\u00e7\u00e3o cada vez maior das formas de culto, e n\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de uma ortodoxia religiosa, como desejam alguns. O discurso de &#8220;africaniza\u00e7\u00e3o&#8221; dos ritos religiosos tem o objetivo de tornar mais potente a afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, ao mesmo tempo em que delimita uma outra frente de batalha nas agendas p\u00fablicas no que diz respeito \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas religiosas em outros espa\u00e7os p\u00fablicos, como os cemit\u00e9rios, hospitais, etc.<\/p>\n<p>A complexidade da vida religiosa afro-brasileira, ao ser acionada como uma vari\u00e1vel fundamental da identidade pol\u00edtica, recoloca a quest\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica para revelar a possibilidade de conviv\u00eancia entre \u201cm\u00faltiplos arranjos que permitem a adapta\u00e7\u00e3o de um modelo ideal \u00e0 complexidade da pr\u00e1tica ritual\u201d (Capone 2005: 29). Como afirma Vagner Silva (2008) o Candombl\u00e9 sempre esteve localizado nas cidades, mas essas representa\u00e7\u00f5es das religi\u00f5es afro-brasileiras na cidade e da cidade resultam em estrat\u00e9gias variadas, no tempo e no espa\u00e7o, para dar conta das suas respectivas &#8220;tradi\u00e7\u00f5es&#8221; e os processos de urbaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao trazer a religi\u00e3o para o dom\u00ednio da pol\u00edtica p\u00fablica, os dois grupos rompem com uma abordagem polarizada da laicidade, ao assumir que, no Brasil, o espa\u00e7o p\u00fablico sempre foi religioso, mas exclusivamente dominado pela tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3. Ao inv\u00e9s de fronteiras impenetr\u00e1veis, o que percebemos \u00e9 uma compreens\u00e3o de um modo de fazer pol\u00edtica que legitima a religi\u00e3o afro-brasileira como um marcador da identidade negra como forma de resposta \u00e0s agress\u00f5es, xingamentos, destrui\u00e7\u00f5es de terreiros e priva\u00e7\u00e3o de uso dos parques naturais. A valoriza\u00e7\u00e3o do Candombl\u00e9 neste processo est\u00e1 associada ao papel que passou a ter na constru\u00e7\u00e3o da<\/p>\n<p>&#8220;identidade pol\u00edtica do &#8216;povo negro&#8217;, conforme defendida por diversos segmentos dos movimentos sociais negros na agenda das pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas, participando, assim, da reconfigura\u00e7\u00e3o do campo religioso e de seus v\u00ednculos com a esfera p\u00fablica&#8221; (Sales Junior 2009: 129).<\/p>\n<p>O que se pode observar nos dois contextos etnogr\u00e1ficos foi um continumm de a\u00e7\u00f5es coletivas no espa\u00e7o e na esfera p\u00fablicos. Se num primeiro momento acompanhamos um movimento de car\u00e1ter mais denuncista, no caso da CCIR, foi o desenvolvimento de muitos debates (virtuais ou presenciais), passeatas\/caminhadas, e atos p\u00fablicos que possibilitaram a inscri\u00e7\u00e3o de marcas na cidade. Aos poucos se notam outras formas de ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico, que n\u00e3o substitu\u00edram as anteriores. Come\u00e7aram a aparecer formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva que transcendem os limites das religi\u00f5es (Candombl\u00e9, Umbanda, etc.), as pr\u00f3prias diferen\u00e7as das pr\u00e1ticas afro-brasileiras e as identidades particulares na busca de constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, no qual a participa\u00e7\u00e3o dos religiosos n\u00e3o seja mais a do \u201cmostrar-se ocultando\u201d (Santos 2005), mas o de se unir em p\u00fablico.<\/p>\n<p>Tanto os membros da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa quanto os integrantes do Elos da Diversidade utilizavam as reuni\u00f5es para discutir estrat\u00e9gias para tornar seus pleitos p\u00fablicos. Ambos organizavam eventos a fim de divulgar suas demandas e cobrar das autoridades um retorno a elas. As reuni\u00f5es eram a ocasi\u00e3o para discutir o que seria realizado, onde, quando e quem seriam as pessoas convidadas. Para os dois grupos, os eventos eram atividades grandes, voltadas para um p\u00fablico externo, com a presen\u00e7a da imprensa e de autoridades p\u00fablicas. As reuni\u00f5es representam a constru\u00e7\u00e3o de um novo tempo &#8211; o de \u201ccobrar\u201d e \u201cpedir\u201d solu\u00e7\u00f5es e, ainda, divulgar suas demandas buscando envolver o m\u00e1ximo de pessoas na \u201cluta\u201d. Nas reuni\u00f5es, as pessoas que falam em nome do grupo s\u00e3o definidas previamente. O sucesso da atividade demanda que a pessoa possa transmitir a mensagem utilizando um discurso coerente, acompanhado por gestos que emitam seguran\u00e7a. Al\u00e9m disso, as pessoas devem saber o momento adequado para dar as respostas e o tom das mesmas. Portanto, t\u00eam que lidar com as circunst\u00e2ncias e estar preparadas para situa\u00e7\u00f5es inesperadas.<\/p>\n<p>De maneiras distintas, a CCIR e o Elos constitu\u00edram exemplos de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o s\u00f3 envolveram os religiosos, mas que incorporaram princ\u00edpios e valores religiosos \u00e0s suas agendas. A diversidade de participantes e de estrat\u00e9gias pol\u00edticas p\u00f4s em xeque uma concep\u00e7\u00e3o de que os afro-religiosos n\u00e3o se organizam politicamente, possibilitando pensar que h\u00e1 distintas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o que possibilitam construir agendas de modo a atender diferentes interesses, mantendo um v\u00ednculo atrav\u00e9s da religi\u00e3o, delimitando um modo particular de \u201cfazer pol\u00edtica\u201d. As estrat\u00e9gias implementadas pelas redes, constru\u00eddas por sujeitos individuais e coletivos, desvelam uma reconfigura\u00e7\u00e3o de dissid\u00eancias e disputas hist\u00f3ricas entre os religiosos, originadas pela competi\u00e7\u00e3o no campo. Consequentemente, por conta de novas agendas &#8211; a luta contra a intoler\u00e2ncia e a incorpora\u00e7\u00e3o do ambientalismo na sacraliza\u00e7\u00e3o da natureza -, as rupturas s\u00e3o transformadas em equil\u00edbrios situacionais provis\u00f3rios. Unir-se em p\u00fablico representava uma necessidade, mas essa estrat\u00e9gia n\u00e3o pode ser incorporada de forma perene, pois configuraria formas de submiss\u00e3o a grupos advers\u00e1rios. Assim,<\/p>\n<p>\u201cas configura\u00e7\u00f5es de tomadas de posi\u00e7\u00e3o p\u00fablicas passam por opera\u00e7\u00f5es de \u2018separa\u00e7\u00e3o\u2019 dos atores de suas redes de \u2018posi\u00e7\u00f5es\u2019 e pela remodelagem de suas paisagens organizacionais, que se temporalizam correlativamente aos debates que fixam as linhas reivindicativas\u201d. (Cefa\u0457 2009: 21).<\/p>\n<p>Embora os dois grupos fossem compostos predominantemente por religiosos de matriz afro-brasileira, os membros da CCIR esfor\u00e7avam-se para desvincular a presen\u00e7a e a\u00e7\u00e3o das divindades dos discursos. Primeiro, por estas serem desconsideradas pelos representantes do Estado; segundo, porque reivindicavam um Estado laico, em que todos teriam o mesmo acesso e garantia aos bens (Miranda 2014); e terceiro, porque diversas religi\u00f5es passaram a fazer parte da Comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Elos que, durante o per\u00edodo acompanhado, era composto predominantemente por religiosos de matriz afro-brasileira ressaltava em seus discursos a influ\u00eancia dos \u201corix\u00e1s\u201d na condu\u00e7\u00e3o do projeto e da pol\u00edtica p\u00fablica. Com a mudan\u00e7a de governo, que nomeou um secret\u00e1rio ligado a grupos evang\u00e9licos, o projeto foi asfixiado. Muitos religiosos passaram a apontar a necessidade de continuidade do projeto com o prop\u00f3sito de implementa\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Sagrado como garantia de um local para a realiza\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas religiosas, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>O uso da emo\u00e7\u00e3o, para caracterizar a \u201csitua\u00e7\u00e3o de intoler\u00e2ncia\u201d ou para dar \u00eanfase \u00e0s demandas por reconhecimento de direitos, \u00e9 um elemento importante para desqualificar os modos tradicionais de se fazer pol\u00edtica, que valorizam a racionalidade e a impessoalidade. \u00c9, portanto, atrav\u00e9s da \u201cexpress\u00e3o obrigat\u00f3ria dos sentimentos\u201d (Mauss 1979) que os princ\u00edpios religiosos s\u00e3o trazidos para a pol\u00edtica, visando reencant\u00e1-la.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da religi\u00e3o de forma leg\u00edtima na pol\u00edtica \u00e9 constitutiva do espa\u00e7o p\u00fablico, bem como dos modos atrav\u00e9s dos quais os conflitos se explicitam e s\u00e3o administrados fora dos limites dos terreiros, resultando em outras formas de visibilidade e conviv\u00eancia entre os diferentes atores.<\/p>\n<p>Conclui-se que as formas de mobiliza\u00e7\u00e3o dos religiosos analisados constituem os dispositivos dial\u00f3gicos que levam \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o de um problema, at\u00e9 ent\u00e3o tratado como privado, a \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d, para o dom\u00ednio pol\u00edtico como um problema p\u00fablico (Miranda, Correa e Almeida 2017). Tais estrat\u00e9gias p\u00f5em em quest\u00e3o o sentido da \u201cpol\u00edtica liberal que sup\u00f5e, ao mesmo tempo, a neutralidade do Estado diante das religi\u00f5es e a oferta de garantias jur\u00eddicas \u00e0 express\u00e3o p\u00fablica das opini\u00f5es e cren\u00e7as\u201d (Montero 2016: 148).<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia desse processo est\u00e1 associada \u00e0s formas pelas quais s\u00e3o registradas no espa\u00e7o da cidade estas a\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-religiosas. Seja em caminhadas, seja na deposi\u00e7\u00e3o de oferendas no espa\u00e7o urbano, a cidade \u00e9 o lugar privilegiado de interc\u00e2mbio material e simb\u00f3lico, no qual se observa uma distribui\u00e7\u00e3o desigual de capital simb\u00f3lico. As queixas contra a realiza\u00e7\u00e3o de oferendas no Parque Nacional da Tijuca s\u00e3o tratadas de maneira diferenciada das queixas contra as celebra\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas ou evang\u00e9licas tamb\u00e9m realizadas nas depend\u00eancias do parque. Assim, embora se apresente como uma cidade cosmopolita, fundada nas ideias de universalidade e progresso, o que se v\u00ea cada vez mais \u00e9 a presen\u00e7a de conflitos \u00e9tnico-raciais e religiosos que clamam por respostas institucionais.<\/p>\n<p>Unir-se em p\u00fablico \u00e9, por consequ\u00eancia, uma estrat\u00e9gia de a\u00e7\u00e3o que revela diferentes articula\u00e7\u00f5es e arranjos entre grupos (religiosos e agentes p\u00fablicos) na busca de garantir a perman\u00eancia da religi\u00e3o de matriz afro-brasileira no espa\u00e7o p\u00fablico. Trata-se de um processo din\u00e2mico e em curso, que n\u00e3o se esgota nesta an\u00e1lise, mas que nos permite afirmar que essas mobiliza\u00e7\u00f5es possibilitam construir simetrias provis\u00f3rias por meio de a\u00e7\u00f5es interativas.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>AGAMBEN, Giorgio. (2007), Profana\u00e7\u00f5es. S\u00e3o Paulo: Boitempo Editorial. [ Links ]<\/p>\n<p>AGIER, Michel. (2011), Antropologia da cidade: lugares, situa\u00e7\u00f5es, movimentos. S\u00e3o Paulo: Editora Terceiro Nome. [ Links ]<\/p>\n<p>BOBBIO, Norberto. (2000), Dicion\u00e1rio de pol\u00edtica. Bras\u00edlia: Universidade de Bras\u00edlia\/S\u00e3o Paulo: Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo. [ Links ]<\/p>\n<p>BOLTANSKI, Luc; THEVENOT, Laurent. (1991), De la justification: les \u00e9conomies de la grandeur. Paris: Gallimard. [ Links ]<\/p>\n<p>BONIOLO, Roberta Machado. 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A dimens\u00e3o t\u00e9cnica dos dispositivos permite compreender como o corpo \u00e9 manipulado, para se tornar \u00fatil e d\u00f3cil, ao mesmo tempo que afeta a vida coletiva de uma popula\u00e7\u00e3o (Foucault 1999; 2008).<\/p>\n<p>2O espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 apresentado por Habermas (1984) como um local no qual as pessoas compartilham, interagem e apresentam seus pontos de vistas. J\u00e1 a esfera p\u00fablica refere-se a uma constru\u00e7\u00e3o discursiva. No caso brasileiro, Lu\u00eds Roberto Cardoso de Oliveira (2011) conclui que existe uma desarticula\u00e7\u00e3o entre a esfera p\u00fablica e o espa\u00e7o p\u00fablico, principalmente quando se refere a situa\u00e7\u00f5es que envolvem o princ\u00edpio da igualdade e formas de tratamento igualit\u00e1rio. No caso das religi\u00f5es afro-brasileiras, h\u00e1 sempre uma argumenta\u00e7\u00e3o de que os espa\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o utilizados por outras religi\u00f5es, mas que eles n\u00e3o possuem os mesmos direitos.<\/p>\n<p>3Cabe esclarecer que, em algumas situa\u00e7\u00f5es, acompanhamos as reuni\u00f5es juntas, mas na maioria das vezes cada uma participou em um grupo. Merece destaque, tamb\u00e9m, a nossa participa\u00e7\u00e3o no Grupo de Trabalho de Enfrentamento \u00e0 Intoler\u00e2ncia e Discrimina\u00e7\u00e3o Religiosa para a Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Assist\u00eancia Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, entre os anos de 2013 a 2015. Essa participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 objeto de an\u00e1lise neste artigo, mas favoreceu fortemente a constru\u00e7\u00e3o de nosso argumento, na medida em que v\u00e1rios participantes da CCIR e do Elos integravam o GT.<\/p>\n<p>4A palavra era utilizada no grupo Elos para designar, segundo algumas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, os elementos da natureza (\u00e1gua, terra, ar, fogo) que correspondem ao divino. Aqui ela teria o mesmo sentido que \u201corix\u00e1\u201d, \u201cvodun\u201d ou \u201cinquice\u201d. Salientamos que a mesma palavra poderia ser utilizada para designar as florestas, matas, selvas ou bosques como lugares sagrados, porque l\u00e1 residem os deuses ou porque l\u00e1 estavam um geoss\u00edmbolo espec\u00edfico (uma \u00e1rvore, pedra, animal), que s\u00e3o venerados como deuses ou esp\u00edritos (Boniolo 2014; Corr\u00eaa, Costa e Loureiro 2013).<\/p>\n<p>5Sobre a rela\u00e7\u00e3o com o sistema judicial ver Maggie (1992), Miranda, Correa e Pinto (2017), Silva Junior (2007); sobre o massacre ocorrido em Alagoas, conhecido como o quebra de Xang\u00f4, ver Rafael (2010; 2012).<\/p>\n<p>6\u00c9 importante esclarecer que, nos grupos, havia uma diversidade significativa de religiosos, as quatro conhecidas na\u00e7\u00f5es do candombl\u00e9, as linhas da umbanda, etc. No que se refere ao pertencimento pol\u00edtico, a variedade tamb\u00e9m era grande. Notava-se uma pluralidade de filia\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, bem como uma variedade de vincula\u00e7\u00f5es institucionais a ONGs, movimentos sociais, etc.<\/p>\n<p>7H\u00e1 que se observar que a pauta discutida tem direta correla\u00e7\u00e3o com a pauta apresentada por um dos mais importantes grupos dos movimentos negros, o MNU (Movimento Negro Unificado), que em mar\u00e7o de 2017 realizou o 1\u00b0 Semin\u00e1rio Sul\/Sudeste de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica: o impacto das reformas econ\u00f4micas na popula\u00e7\u00e3o negra; hist\u00f3ria do movimento negro e suas lutas; racismo e luta de classes; escravid\u00e3o negras, comiss\u00e3o da verdade e repara\u00e7\u00f5es; racismo e a quest\u00e3o parlamentar; negro, educa\u00e7\u00e3o e cultura; religi\u00e3o de matriz africana; empoderamento da juventude negra; lutas e conquistas LGBT; luta das mulheres negras .<\/p>\n<p>8Categoria nativa dos adeptos das religi\u00f5es afro-brasileiras para o termo \u2018oferenda\u2019, dedicada a algum orix\u00e1, com comidas rituais.<\/p>\n<p>9O termo \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d est\u00e1 associado ao discurso dos integrantes da Comiss\u00e3o como anteposto \u00e0 liberdade religiosa, associadas \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de falta de respeito \u00e0s diferen\u00e7as de cren\u00e7a (Miranda 2010), relacionadas, quase sempre, \u00e0s \u201camea\u00e7as neopentecostais\u201d caracterizadas pela destrui\u00e7\u00e3o de terreiros, al\u00e9m das agress\u00f5es f\u00edsicas e verbais aos praticantes dos cultos afro-brasileiros.<\/p>\n<p>10O Projeto Legal \u00e9 uma ONG que atua na \u00e1rea de Direitos Humanos, prestando atendimento s\u00f3cio jur\u00eddico, principalmente, a crian\u00e7as, jovens e mulheres. Fonte: <a href=\"http:\/\/www.projetolegal.org.br\/index.php\/institucional\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.projetolegal.org.br\/index.php\/institucional<\/a>. Acesso em 18 de setembro de 2015.<\/p>\n<p>11O CEAP \u00e9 uma ONG ligada ao Movimento Negro e ao Movimento das Mulheres na cidade do Rio de Janeiro. Tem como um dos fundadores o \u201cinterlocutor\u201d da Comiss\u00e3o. Fonte:<a href=\"http:\/\/ceaprj.org.br\/a-instituicao-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> http:\/\/ceaprj.org.br\/a-instituicao-2\/<\/a>. Acesso em 18 de setembro de 2015.<\/p>\n<p>12Ressaltamos que na composi\u00e7\u00e3o inicial da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa era poss\u00edvel identificar integrantes de movimentos negros da cidade do Rio de Janeiro. No entanto, a partir de diverg\u00eancia entre os membros de CCIR quanto a relacionar os \u201catos de intoler\u00e2ncia religiosa\u201d ao racismo, muitos militantes deixaram de participar das reuni\u00f5es (ver Miranda 2014).<\/p>\n<p>13O artigo 20 da Lei N\u00ba 7.716, de cinco de janeiro de 1989, conhecida como Lei Ca\u00f3, prev\u00ea reclus\u00e3o e multa para quem praticar, induzir ou incitar a discrimina\u00e7\u00e3o ou preconceito de ra\u00e7a, cor etnia, religi\u00e3o ou proced\u00eancia nacional (Silva 2009).<\/p>\n<p>14O nome foi trocado para proteger a privacidade da interlocutora.<\/p>\n<p>15Em 1997, a Lei 9.459, ou Lei Paim, acrescentou as categorias \u201cetnia, religi\u00e3o ou proced\u00eancia nacional\u201d ao artigo primeiro da Lei Ca\u00f3, e inclui tamb\u00e9m o par\u00e1grafo 3\u00ba do Artigo 140 do C\u00f3digo Penal, agravando a pena &#8211; para reclus\u00e3o de um a tr\u00eas anos e multa &#8211; para a inj\u00faria, quando aludir ao uso de elementos relacionados \u00e0 ra\u00e7a, cor, etnia, religi\u00e3o ou origem (Silva 2009).<\/p>\n<p>16O Programa Delegacia Legal foi implementado nas delegacias do Estado do Rio de Janeiro desde 1999, tendo como objetivo a moderniza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, tanto nas infraestruturas das delegacias, quanto na informatiza\u00e7\u00e3o dos seus registros de ocorr\u00eancia (Lima 2009; Paes 2006).<\/p>\n<p>17Sobre o sofrimento como narrativa de acesso a direitos, ver Mello (2010).<\/p>\n<p>18A data est\u00e1 associada \u00e0 morte da ialorix\u00e1 M\u00e3e Gilda, que faleceu ap\u00f3s ver seu rosto na capa do jornal Folha Universal, com a manchete \u201cMacumbeiros charlat\u00f5es lesam o bolso e a vida dos clientes\u201d, tornando-se a refer\u00eancia nacional na defesa da liberdade religiosa.<\/p>\n<p>19Ver <a href=\"http:\/\/www.leiaja.com\/cultura\/2017\/03\/22\/intolerantes-atribuem-doenca-de-arlindo-cruz-ao-candomble\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.leiaja.com\/cultura\/2017\/03\/22\/intolerantes-atribuem-doenca-de-arlindo-cruz-ao-candomble\/<\/a>, acesso em 22\/03\/2017.<\/p>\n<p>20O Elos da Diversidade era parte de um programa (Programa Ambiente em A\u00e7\u00e3o) da Secretaria de Estado do Ambiente com o objetivo de \u201cpromover\u201d a\u00e7\u00f5es que relacionassem as pr\u00e1ticas rituais de matriz afro-brasileira com a tem\u00e1tica da preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n<p>21Localizado na cidade do Rio de Janeiro, o parque corresponde \u00e0 maior floresta urbana replantada do mundo, com 3.953 ha de Mata Atl\u00e2ntica. Dados dispon\u00edveis em <a href=\"http:\/\/www.parquedatijuca.com.br\/#index\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.parquedatijuca.com.br\/#index<\/a>. Acesso em 18 de dezembro de 2017.<\/p>\n<p>22A Curva do S situa-se na rua \u00c9dson Passos, no Alto da Boa Vista \u2013 um bairro nobre da cidade do Rio de Janeiro, ligando as zonas central, norte, sul e oeste.<\/p>\n<p>23Assim como os integrantes da CCIR, os membros do Elos distinguiam as pessoas que participavam do projeto dos parceiros. Estes s\u00f3 compareciam aos eventos quando eram solicitados.<\/p>\n<p>24O projeto de constru\u00e7\u00e3o do Espa\u00e7o Sagrado da Curva do S come\u00e7ou no final da d\u00e9cada de 1990 com a explicita\u00e7\u00e3o do conflito entre religiosos de matriz afro-brasileira e funcion\u00e1rios do PNT provocado pela realiza\u00e7\u00e3o de oferendas nos espa\u00e7os do parque. Para compreender as diferentes fases e tentativas de implementa\u00e7\u00e3o do projeto, ver Boniolo (2014), Costa (2008), Nascimento (2013).<\/p>\n<p>25Existem placas dentro do PNT sinalizando que as oferendas podem ser realizadas, mas n\u00e3o podem ser \u201cdeixadas\u201d.<\/p>\n<p>26Os principais representantes dessa tradi\u00e7\u00e3o s\u00e3o os terreiros do Engenho Velho ou Casa Branca, o Gantois e o Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1, que concorrem pelo reconhecimento de suas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>27N\u00e3o h\u00e1 como deixar de considerar que esses objetos n\u00e3o eram t\u00e3o disseminados nas pr\u00e1ticas religiosas quando os primeiros registros dos ritos afro-brasileiros foram realizados por pesquisadores, imortalizados como os \u201ccl\u00e1ssicos\u201d. No entanto, deve-se lembrar que contemporaneamente est\u00e3o incorporados \u00e0 vida cotidiana. Quem percorre o Mercad\u00e3o de Madureira sabe que a folha da bananeira pode ser comprada nas barracas de ervas por valores que podem ser mais caros que os potes de pl\u00e1stico importados da China. Isso levanta uma quest\u00e3o interessante sobre a urbaniza\u00e7\u00e3o da cidade, que impacta os terreiros. Se antes estavam em \u00e1reas mais afastadas da cidade, cercada por matos e florestas, hoje est\u00e3o presentes em \u00e1reas densamente urbanizadas.<\/p>\n<p>28O geoss\u00edmbolo representaria a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica pelo ser humano em um determinado territ\u00f3rio (Corr\u00eaa 2012).<\/p>\n<p>Recebido: 24 de Novembro de 2016; Aceito: 19 de Outubro de 2017<\/p>\n<p>Creative Commons License This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Site do InEAC disponibiliza o link para acessar o artigo publicado na Scielo, \u201cEm p\u00fablico, \u00e9 preciso se unir\u201d: conflitos, demandas e estrat\u00e9gias pol\u00edticas entre religiosos de matriz afro-brasileira na cidade do Rio de Janeiro; produzido pelas antrop\u00f3logas Ana Paula Mendes de Miranda e Roberta Baniolo e que trata do tema Religi\u00e3o &amp; Sociedade&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=441\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">\u201cEM P\u00daBLICO, \u00c9 PRECISO SE UNIR\u201d: CONFLITOS, DEMANDAS E ESTRAT\u00c9GIAS POL\u00cdTICAS ENTRE RELIGIOSOS DE MATRIZ AFRO-BRASILEIRA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":134,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-441","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/441","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=441"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/441\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/134"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}