{"id":477,"date":"2018-03-28T14:02:50","date_gmt":"2018-03-28T14:02:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=477"},"modified":"2018-03-28T14:02:50","modified_gmt":"2018-03-28T14:02:50","slug":"a-situacao-atual-da-milicia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=477","title":{"rendered":"A SITUA\u00c7\u00c3O ATUAL DA MIL\u00cdCIA"},"content":{"rendered":"<p>O site do InEAC publica aqui artigo publicado no jornal O GLOBO\u00a0 dessa ter\u00e7a-feira, 27 de mar\u00e7o de 2018, escrito pelo soci\u00f3logo Michel Misse (UFRJ), parceiro do INCT InEAC.<\/p>\n<p>A SITUA\u00c7\u00c3O ATUAL DA MIL\u00cdCIA.<\/p>\n<p>Houve h\u00e1 alguns anos um grande debate na It\u00e1lia sobre o que seria a principal fonte de renda das m\u00e1fias. Alguns estudiosos defendiam que era a extors\u00e3o, enquanto para outros seria a oferta de prote\u00e7\u00e3o e arbitragem entre grupos criminosos. No Brasil nunca hav\u00edamos tido grupos criminosos organizados desse tipo, nem mesmo no jogo do bicho, ainda que mafiosos tamb\u00e9m operassem por aqui.<\/p>\n<p>Nos primeiros cinco anos deste s\u00e9culo apareceu no Rio de Janeiro uma rede de grupos que, para uns, oferecem prote\u00e7\u00e3o, para outros praticam a extors\u00e3o. O nome pode ter sido inicialmente bem intencionado, mas tornou-se, com o tempo, absolutamente inadequado. Mil\u00edcias s\u00e3o for\u00e7as civis armadas numa situa\u00e7\u00e3o de guerra de liberta\u00e7\u00e3o (ou de independ\u00eancia) ou guerra civil. N\u00e3o s\u00e3o necessariamente criminosas.<\/p>\n<p>O que temos no Rio de Janeiro nos \u00faltimos doze anos nada tem a ver com isso, muito pelo contr\u00e1rio. S\u00e3o redes de tipo mafioso, que exploram mercadorias pol\u00edticas subtra\u00eddas ao monop\u00f3lio estatal da for\u00e7a. Praticam a extors\u00e3o sobre moradores sob o pretexto de oferecerem prote\u00e7\u00e3o. Com o tempo, passaram a explorar outras atividades il\u00edcitas, inclusive ligadas ao tr\u00e1fico de drogas, arbitrando prote\u00e7\u00e3o e extorquindo outros grupos ilegais.<\/p>\n<p>Se as redes do tr\u00e1fico a varejo nas favelas constituiu-se a partir do surgimento de fac\u00e7\u00f5es dentro do sistema penitenci\u00e1rio, as chamadas mil\u00edcias constitu\u00edram-se com a outra ponta do sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica: policiais, ex-policiais, bombeiros, pra\u00e7as, agentes penitenci\u00e1rios. De um cabo a outro, da pris\u00e3o \u00e0 m\u00e3o de obra qualificada assalariada pelo Estado para a seguran\u00e7a dos cidad\u00e3os, montou-se um sistema de interdepend\u00eancia criminal que se retroalimenta e acumula viol\u00eancia. \u00c9 um sistema que vem crescendo e subordinando o pr\u00f3prio tr\u00e1fico \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se com o tr\u00e1fico era exagerado falar-se de m\u00e1fias, com as mil\u00edcias estamos assistindo (e ainda convivendo) com a primeira forma em expans\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o de tipo mafioso no Brasil. Mas muito mais perigosa que as formas italianas porque composta de agentes p\u00fablicos da ativa ou inativos, que compartilham no campo pol\u00edtico ideologias afins com a extrema direita. \u00c9 um fen\u00f4meno potencialmente muito mais preocupante para a democracia e o Estado de Direito que os camel\u00f4s armados que vendem drogas nas favelas, cuja sobreviv\u00eancia sempre dependeu tamb\u00e9m do arr\u00eago com policiais.<\/p>\n<p>* Michel Misse \u00e9 soci\u00f3logo e professor da UFRJ\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O site do InEAC publica aqui artigo publicado no jornal O GLOBO\u00a0 dessa ter\u00e7a-feira, 27 de mar\u00e7o de 2018, escrito pelo soci\u00f3logo Michel Misse (UFRJ), parceiro do INCT InEAC. A SITUA\u00c7\u00c3O ATUAL DA MIL\u00cdCIA. Houve h\u00e1 alguns anos um grande debate na It\u00e1lia sobre o que seria a principal fonte de renda das m\u00e1fias. 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