{"id":877,"date":"2019-04-11T11:18:20","date_gmt":"2019-04-11T11:18:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=877"},"modified":"2019-04-11T11:18:20","modified_gmt":"2019-04-11T11:18:20","slug":"a-brutalidade-nossa-de-cada-dia-estudo-da-uff-sobre-milicias-aponta-naturalizacao-de-uma-sociabilidade-violenta-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=877","title":{"rendered":"A brutalidade nossa de cada dia: estudo da UFF sobre mil\u00edcias aponta naturaliza\u00e7\u00e3o de uma sociabilidade violenta no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"non-delete\"><span style=\"font-size: 8pt; font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O nosso site\u00a0disponibiliza a entrevista publicada no site da UFF &#8211; Universidade Federal Fluminense, com\u00a0o antrop\u00f3logo Fabio Reis Mota, professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia da UFF, coordenador do N\u00facleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (NUFEP) e pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (InEAC) e Leonardo Brama, pesquisador do InEAC e mestrando em Sociologia pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFF.<\/span><\/h1>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h1 id=\"pf-title\" class=\"non-delete\"><span style=\"font-size: 8pt;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A brutalidade nossa de cada dia: estudo da UFF sobre mil\u00edcias aponta naturaliza\u00e7\u00e3o de uma sociabilidade violenta no Rio de Janeiro<\/span><\/span><\/h1>\n<div><span style=\"font-size: 8pt;\">\u00a0<\/span><\/div>\n<p><span style=\"font-size: 8pt;\"><span id=\"pf-author\"><\/span><span id=\"pf-date\">April 10, 2019<\/span><\/span><\/p>\n<div id=\"pf-content\" class=\"js-pf-content pf-12\">\n<div class=\"\">\n<div class=\"field-item even\">\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\">Em uma r\u00e1pida busca na internet do termo mil\u00edcias, s\u00e3o exibidas na tela um milh\u00e3o e seiscentas mil cita\u00e7\u00f5es. O n\u00famero fala por si. Nos \u00faltimos anos, no Brasil, as organiza\u00e7\u00f5es criminosas conhecidas como \u201cmil\u00edcias\u201d cresceram exponencialmente, assim como sua publiciza\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o p\u00fablico e midi\u00e1tico. O que esses n\u00fameros revelam, para al\u00e9m da \u00f3bvia constata\u00e7\u00e3o de expans\u00e3o desse fen\u00f4meno no contexto social? Qual a import\u00e2ncia de se compreender as raz\u00f5es que possibilitam a emerg\u00eancia de tamanha articula\u00e7\u00e3o de poder? E o que essa sociabilidade violenta aponta sobre quem somos n\u00f3s e a sociedade que temos constru\u00eddo para viver?<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Essas e outras quest\u00f5es foram amplamente debatidas em conversa com dois pesquisadores da UFF que t\u00eam se dedicado a entender o que s\u00e3o, como funcionam e se articulam as mil\u00edcias na cidade do Rio de Janeiro: Fabio Reis Mota, professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia da UFF, coordenador do N\u00facleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (NUFEP) e pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (InEAC) e Leonardo Brama, pesquisador do InEAC e mestrando em Sociologia pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFF.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Abaixo, reproduzimos as perguntas que elaboramos para abordar a tem\u00e1tica juntamente com os pesquisadores, seguidas das respostas, que foram pensadas e organizadas em conjunto por eles.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">O que s\u00e3o as mil\u00edcias?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Em primeiro lugar devemos esclarecer que h\u00e1 uma diversidade de formas de organiza\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o do que se denomina genericamente e muitas das vezes abstratamente de mil\u00edcia. Torn\u00e1-la uma pauta p\u00fablica e pol\u00edtica veio, paradoxalmente, produzir uma ader\u00eancia de um ex\u00e9rcito de exclu\u00eddos aos grupos formados sob a categoria de mil\u00edcia e milicianos. Por exemplo, na Zona Oeste esse processo de ades\u00e3o e expans\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es definidas como milicianas cresceu de forma espantosa nos \u00faltimos 10 anos particularmente.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Logo, devemos ter em mente a amplitude que o termo pode representar: desde um grupo de ex-policiais que se organizam para \u201ccolocar ordem\u201d local at\u00e9 grupos fortemente armados e logisticamente bem organizados que atuam em diferentes frentes, desde a econ\u00f4mica, com a grilagem de terra, na manuten\u00e7\u00e3o de empresas de natureza diversa (terraplanagem, com\u00e9rcios l\u00edcitos e il\u00edcitos, etc) at\u00e9 as entranhas do sistema pol\u00edtico e judici\u00e1rio. O ser miliciano se tornou uma identidade pol\u00edtica e p\u00fablica para muitos dessa massa de exclu\u00eddos que veem nela um espa\u00e7o para aquisi\u00e7\u00e3o de bens materiais e simb\u00f3licos &#8211; como poder, prest\u00edgio, reconhecimento.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como elas se diferenciam de outras organiza\u00e7\u00f5es criminosas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Suas diferen\u00e7as s\u00e3o muitas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras organiza\u00e7\u00f5es criminosas, sejam elas as institucionalizadas que est\u00e3o no interior do estado, da pol\u00edtica e do judici\u00e1rio, ou as que est\u00e3o \u00e0 margem do estado, tal como o tr\u00e1fico de drogas. A principal diferen\u00e7a quanto a esta \u00faltima modalidade \u00e9 a capacidade da mil\u00edcia em produzir nos territ\u00f3rios ocupados uma dimens\u00e3o moral positiva (ou menos negativa) acerca do pertencimento \u00e0 identidade de universo miliciano.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Ser traficante significa portar uma identidade negativa, estigmatizada e at\u00e9 mesmo deteriorada, ao passo que, em muitos lugares, a identidade de um miliciano pode comportar dimens\u00f5es positivas e valorizadas moralmente pelos moradores, familiares, amigos, bem como pelas redes de intera\u00e7\u00e3o mais ampla de um bairro etc. E quanto \u00e0 estrutura, as maiores e mais influentes mil\u00edcias se assemelhariam muito mais \u00e0s din\u00e2micas e pr\u00e1ticas de grupos mafiosos propriamente ditos, em virtude de sua influ\u00eancia no interior do poder estabelecido (pol\u00edtico e judici\u00e1rio) e da forma como atuam nos diferentes mercados e com suas distintas mercadorias simb\u00f3licas e materiais.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como agem as mil\u00edcias nas comunidades que controlam?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>H\u00e1 diferen\u00e7as substanciais do hist\u00f3rico delas se tomarmos a Baixada Fluminense e a Zona Oeste, por exemplo, o que se expressa nos modos como regulam os espa\u00e7os mediante uma governan\u00e7a pela viol\u00eancia. A viol\u00eancia no Brasil, como j\u00e1 h\u00e1 muito tempo um soci\u00f3logo importante, Luiz Ant\u00f4nio Machado, diagnosticou \u00e9 uma linguagem que permeia as teias das rela\u00e7\u00f5es sociais no \u00e2mbito p\u00fablico e privado. A sociabilidade violenta \u00e9 o modo pelo qual as mil\u00edcias, de um modo geral, tornam suas atua\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Depois, elas agem como promotoras de bens materiais, como \u201cgato net\u201d, g\u00e1s, com\u00e9rcio, \u00e1gua, etc., e simb\u00f3licos, como a prote\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, etc., na conforma\u00e7\u00e3o de um universo de consumo que lhes possibilita a constru\u00e7\u00e3o da legitimidade do poder pelo e no capitalismo. E, por fim, elas agem como filtros de produ\u00e7\u00e3o de identidades p\u00fablicas e \u201cc\u00edvicas\u201d para sujeitos hist\u00f3rica e estruturalmente exclu\u00eddos do mercado e do espa\u00e7o p\u00fablico da cidadania.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Nesse sentido, tanto a mil\u00edcia como o tr\u00e1fico s\u00e3o dispositivos que se tornam meios de visibiliza\u00e7\u00e3o e de promo\u00e7\u00e3o de status social a quem se encontra absolutamente fora do espa\u00e7o p\u00fablico e c\u00edvico da cidadania. As mil\u00edcias, portanto, agem como filtro de controle social em ambientes nos quais os organismos estatais possuem pouca ader\u00eancia ou agem excluindo e produzindo a desconsidera\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais, como a elimina\u00e7\u00e3o de vidas de cidad\u00e3os, a exemplo da atua\u00e7\u00e3o policial no Brasil.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como voc\u00ea definiria o funcionamento da mil\u00edcia no Rio de Janeiro, quais as for\u00e7as que a comp\u00f5e e como ela se articula em meio aos poderes?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>N\u00e3o existe um funcionamento padronizado; isso depende muito dos grupos e do tipo de rela\u00e7\u00f5es que tecem a rede de cada um deles, ali\u00e1s, do capital pol\u00edtico em jogo. Claramente, quanto mais essas rela\u00e7\u00f5es se encontram imersas nas estruturas oficiais do Estado (parlamento, judici\u00e1rio, dentre outros), maior a organiza\u00e7\u00e3o e o poder de mando e controle dos territ\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>N\u00e3o devemos deixar de mencionar que anos atr\u00e1s pol\u00edticos de grande envergadura e import\u00e2ncia no meio manifestavam apre\u00e7o \u00e0s mil\u00edcias e apontavam elas como formas leg\u00edtimas de enfrentamento e substitui\u00e7\u00e3o do poder do tr\u00e1fico de drogas em muitas regi\u00f5es do estado do Rio de Janeiro. Como j\u00e1 enfatizamos acima, as mil\u00edcias, se comparadas ao tr\u00e1fico, aportam uma identidade positivada em muitos dos meios nos quais atuam. Portanto, as formas de uso da viol\u00eancia em seus m\u00faltiplos aspectos (f\u00edsico, verbal, moral, etc) e a promo\u00e7\u00e3o da (in)seguran\u00e7a e oferta de prote\u00e7\u00e3o (real ou ilus\u00f3ria) operam juntas, uma estimulando a outra, compondo um c\u00edrculo vicioso de reciprocidade que alimenta o neg\u00f3cio.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">O poder das mil\u00edcias vem aumentando significativamente no Rio de Janeiro, como atestam v\u00e1rios estudos sobre o tema, incluindo um levantamento feito pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico de que, em menos de 10 anos, dobrou a quantidade de comunidades controladas por milicianos. A quais fatores se deve esse cen\u00e1rio?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>H\u00e1 muitos fatores em jogo. O primeiro \u00e9 que as mil\u00edcias foram vistas e tomadas como mecanismos de solu\u00e7\u00e3o de problemas de controle e de ordem social em muitas regi\u00f5es nas quais ganharam for\u00e7a, seja pelas pr\u00f3prias autoridades p\u00fablicas, ou pelos moradores dessas localidades. Segundo, \u00e9 que elas atuam como forma de promo\u00e7\u00e3o de visibilidade p\u00fablica e de produ\u00e7\u00e3o de \u201cidentidades c\u00edvicas\u201d para uma massa de gente que tem seus direitos diuturnamente vilipendiados pelo pr\u00f3prio estado nas filas do hospital, pelo tratamento da pol\u00edcia, pelo desrespeito nas escolas, dentre outros dispositivos de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Ela \u00e9, em grande medida, consequ\u00eancia da m\u00e1 conforma\u00e7\u00e3o de nosso espa\u00e7o p\u00fablico da cidadania, como apontam os antrop\u00f3logos Lu\u00eds Roberto Cardoso de Oliveira e Roberto Kant de Lima, e do mesmo modo resulta da naturaliza\u00e7\u00e3o em nosso universo de sociabilidade da viol\u00eancia como uma gram\u00e1tica pol\u00edtica e moral muito entranhada em nossas cabe\u00e7as e cora\u00e7\u00f5es. Embora em muitos pa\u00edses a viol\u00eancia exista, no Brasil ela \u00e9 uma linguagem apropriada institucionalmente pelo Estado contra os cidad\u00e3os e, por conseguinte, tamb\u00e9m\u00a0 \u00e9 um instrumento de bordo para os cidad\u00e3os navegarem nas teias das rela\u00e7\u00f5es sociais, conformando um verdadeiro estado hobbesiano de natureza da luta de todos contra todos. Por fim, como uma atividade capitalista lucrativa, as mil\u00edcias se tornam meio de inser\u00e7\u00e3o desses exclu\u00eddos ao mercado e aos bens materiais e simb\u00f3licos do mesmo.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como fazer frente ao crescimento delas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Obviamente, sem medidas que partam de uma vontade concreta de resolver o problema das mil\u00edcias por parte dos mais influentes nos poderes legislativo, executivo e judici\u00e1rio, dificilmente se ter\u00e1 como fazer frente ao crescimento delas. Nos primeiros momentos em que o termo \u201cmil\u00edcia\u201d se espalhou na m\u00eddia, v\u00e1rios representantes estatais defenderam publicamente as mil\u00edcias, legitimando de fato o fen\u00f4meno.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Atualmente isso n\u00e3o ocorre (ou, se ocorre, as declara\u00e7\u00f5es tendem a ser mais veladas), mas as prioridades da agenda da seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o mudaram muito, pois na recente interven\u00e7\u00e3o federal, n\u00e3o obstante o crescimento das \u201c\u00e1reas dominadas pelas mil\u00edcias\u201d, o foco sempre foram as \u201c\u00e1reas dominadas pelo tr\u00e1fico\u201d. Algumas das dezenas de medidas propostas para o enfrentamento das mil\u00edcias (a tipifica\u00e7\u00e3o do crime de mil\u00edcia, a realiza\u00e7\u00e3o da GAECO, etc) podem at\u00e9 ter produzido mais pris\u00f5es, mas pensar em resolver o problema com mais pris\u00f5es \u00e9 enxugar gelo.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>E continuaremos a \u201cenxugar gelo\u201d se n\u00e3o conferirmos definitivamente ao nosso espa\u00e7o p\u00fablico e pol\u00edtico crit\u00e9rios republicanos, afeitos \u00e0s sociedades com tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica s\u00f3lida. Nos anos 80 e 90, combat\u00edamos o tr\u00e1fico; do ano 2000 em diante, as mil\u00edcias, e assim sucessivamente. Dessa forma, estaremos a combater um \u201cinimigo\u201d que se retroalimenta das desigualdades flagrantes no universo jur\u00eddico, social e simb\u00f3lico. Afinal, no lugar de combatermos a desigualdade, reafirmamos nossos vi\u00e9s anti-igualit\u00e1rio e nossa gram\u00e1tica da viol\u00eancia em prol de absolutamente nada. Vivemos, e talvez viveremos, num eterno \u201cenxugar gelo\u201d se tais quest\u00f5es n\u00e3o forem enfrentadas de frente e com muito vigor pela sociedade brasileira.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como voc\u00ea v\u00ea a atua\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro atual?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>De modo geral, a atua\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias sempre representou um recurso pol\u00edtico-eleitoral muito importante, e isso acontece desde o s\u00e9culo passado, com os grupos de exterm\u00ednio da Baixada Fluminense. Como os estudos do soci\u00f3logo Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves mostram, bem-sucedidas carreiras de matadores se traduziram em bem-sucedidas carreiras pol\u00edticas; de modo an\u00e1logo, isso acontecia na Zona Oeste e em outras \u00e1reas do estado.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Em termos simb\u00f3licos, o tr\u00e1fico continua sendo o bode expiat\u00f3rio do crime no Rio de Janeiro, e o traficante o ator social mais estigmatizado, se comparado com o miliciano. Mais viol\u00eancia se reflete em mais demanda de seguran\u00e7a, ao passo que uma maior oferta de prote\u00e7\u00e3o informal precisa de uma menor (ou pior) oferta de prote\u00e7\u00e3o formal ou estatal, e esse tipo de rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia operam como uma m\u00e1quina pol\u00edtico-econ\u00f4mica, que funciona tanto melhor quanto mais profunda for a liga\u00e7\u00e3o dos grupos criminosos com os poderes estatais.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>Certamente, para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria do medo estimula e incrementa solu\u00e7\u00f5es orientadas pela repress\u00e3o estatal, pela demanda de \u201cm\u00e3o dura\u201d, enxergando uma repress\u00e3o sempre maior como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Como j\u00e1 mencionamos, a viol\u00eancia no Brasil adquire um lugar privilegiado na linguagem e nas pr\u00e1ticas sociais. Ela \u00e9 uma gram\u00e1tica. Em termos ideol\u00f3gico-eleitorais, \u00e9 comum tomar como solu\u00e7\u00e3o para o problema da seguran\u00e7a p\u00fablica mais viol\u00eancia, mais combate ao crime, mais repress\u00e3o, mais morte, mais armas, mais oferta de prote\u00e7\u00e3o. Isso j\u00e1 \u00e9 feito no Brasil h\u00e1 mais de um s\u00e9culo e onde assistimos \u00e0s mudan\u00e7as?<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><strong><span class=\"text-node\">Como a universidade, na sua opini\u00e3o, pode contribuir para essa discuss\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio?<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"added-to-list1 pf-delete\"><span class=\"text-node\"><br \/>A universidade como espa\u00e7o por excel\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o de conhecimento tem como principal papel apontar e diagnosticar os problemas que s\u00e3o evidenciados pelas pesquisas emp\u00edricas e etnogr\u00e1ficas. Todavia, tais diagn\u00f3sticos n\u00e3o reverberam necessariamente em pol\u00edticas p\u00fablicas e tamb\u00e9m podem ser apropriados de forma absolutamente distinta da sua proposi\u00e7\u00e3o inicial. O conhecimento da universidade \u00e9 como o do dentista ou do m\u00e9dico que pode apontar para o paciente os caminhos a serem percorridos para prevenir uma doen\u00e7a ou coisa do g\u00eanero, mas o paciente pode em seguida desconsiderar tudo que lhe foi dito ao sair da consulta.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><br \/>No InEAC e NUFEP, por exemplo, esses conhecimentos t\u00eam sidos transferidos \u00e0 sociedade por meio de cursos de especializa\u00e7\u00e3o ou de mestrado e doutorado em \u00e1reas que tangenciam a justi\u00e7a e a seguran\u00e7a p\u00fablica, bem como tamb\u00e9m a partir de presta\u00e7\u00e3o de consultorias e assessorias \u00e0s ag\u00eancias governamentais (no \u00e2mbito Federal, Estadual e Municipal). Entre conhecermos os problemas e a solu\u00e7\u00e3o dos mesmos h\u00e1 um enorme abismo. Talvez se o conhecimento produzido na universidade fosse mais valorizado e apropriado \u00e0s pol\u00edticas p\u00fablicas, o Brasil estaria num rumo melhor.<\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><a href=\"http:\/\/www.uff.br\/?q=noticias\/10-04-2019\/brutalidade-nossa-de-cada-dia-estudo-da-uff-sobre-milicias-aponta-naturalizacao\">http:\/\/www.uff.br\/?q=noticias\/10-04-2019\/brutalidade-nossa-de-cada-dia-estudo-da-uff-sobre-milicias-aponta-naturalizacao<\/a><\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"added-to-list1\"><span class=\"text-node\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-876\" src=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"1037\" height=\"691\" srcset=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-scaled.jpg 2560w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-768x512.jpg 768w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-1536x1024.jpg 1536w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-2048x1365.jpg 2048w, http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/policiais-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"auto, (max-width: 1037px) 100vw, 1037px\" \/><\/span><\/p>\n<p class=\"added-to-list1\">\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nosso site\u00a0disponibiliza a entrevista publicada no site da UFF &#8211; Universidade Federal Fluminense, com\u00a0o antrop\u00f3logo Fabio Reis Mota, professor do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia da UFF, coordenador do N\u00facleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (NUFEP) e pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o de Conflitos (InEAC) e Leonardo Brama, pesquisador do InEAC&hellip; <a class=\"more-link\" href=\"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/?p=877\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">A brutalidade nossa de cada dia: estudo da UFF sobre mil\u00edcias aponta naturaliza\u00e7\u00e3o de uma sociabilidade violenta no Rio de Janeiro<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":876,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-877","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/877","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=877"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/877\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/876"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=877"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=877"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.operacoesweb.uff.br\/migrajoomla\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=877"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}